AP Photo/Ramon Espinosa
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Confiança na vacina faz países pobres se destacarem em imunização contra a covid

Equador, Costa Rica e Cuba são exemplos de países em desenvolvimento com campanhas bem sucedidas

Carolina Marins, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2021 | 05h00

Em abril de 2020, o colapso funerário no Equador, causado pela covid, trouxe imagens chocantes de corpos nas ruas de Guayaquil. Um ano depois, o país tem uma das melhores taxas de vacinação da América Latina. Embora sejam exceções, alguns países pobres avançaram na imunização graças a campanhas de incentivo e doação de doses do mundo desenvolvido.

No Equador, 66% da população está totalmente vacinada, segundo o Our World in Data. O segredo foi o esforço para comprar e obter doações. A meta do presidente, Guillermo Lasso, é vacinar 9 milhões de pessoas em 100 dias de governo – ou 51% da população adulta. “No Equador, o Ministério da Saúde é o maior provedor de serviços de saúde e têm experiência em programas de vacinação”, disse Carina Vance, ex-ministra da Saúde. Para cumprir a meta, o governo fez parcerias com universidades e o setor privado, para ajudar na aplicação.

O início da briga por vacinas foi difícil no Equador, em razão da pouca oferta e dos estoques acumulados nos países ricos. Outro fator que dificultou a campanha foi o escândalo das “vacinas VIP”, durante o governo do presidente Lenín Moreno. “Havia grupos prioritários, mas muitos receberam a vacina antes”, conta Carina.

Avanços na Costa Rica

Outro país latino-americano que conseguiu bons resultados foi a Costa Rica, que tem uma forte estrutura de saúde e apostou na conscientização da população. “Quando começamos a planejar a vacinação, organizamos o programa dentro da rede normal de imunização”, disse Leandra Abarca, epidemiologista responsável pelo planejamento vacinal.

Com isso, a Costa Rica aproveitou a estrutura de postos de vacinação e pessoal capacitado, precisando apenas adaptar a logística de distribuição e aplicação à medida que as doses chegavam. Para garantir a oferta, o governo contou com compras diretas e doações, principalmente do consórcio Covax, da OMS. “No início, tínhamos poucas vacinas”, conta Leandra. “Mas, conforme foram chegando as doses, o ritmo aumentou e hoje temos um ritmo de aplicação de 500 mil doses por semana.” 

O governo costa-riquenho já vacinou com duas doses 65% de sua população. Em novembro, a Costa Rica se tornou o primeiro país do mundo a incluir a vacina no calendário básico de vacinação das crianças, o que a torna automaticamente obrigatória. A estratégia é evitar que alguns pais impeçam os filhos de serem imunizados. “Por lei, todas as vacinas do plano nacional para menores de idade são obrigatórias. Então, nenhum pai pode decidir se aplica ou não, porque tem de aplicar”, conta. Com isso, 91% das crianças e jovens já receberam ao menos uma dose.

Doações impulsionam sucesso asiático

As doações explicam o sucesso de países da Ásia. Camboja e Mongólia têm mais de 60% da população totalmente imunizada. A estratégia foi parecida com a do Equador: diversificação da compra de imunizantes e doações. Além disso, outra semelhança une muitos deles, como Malásia, Sri Lanka e Tailândia: a proximidade com a China. Na Mongólia, das mais de 11 milhões de doses doadas, 8,4 milhões vieram da China, que também foi quem mais vendeu ao governo mongol.

O que também chama a atenção em alguns países de renda média é que eles estão com a vacinação mais avançada que muitos países ricos, incluindo EUA e Israel. A explicação está em dois fatores: a vacinação obrigatória ou a adesão natural às campanhas de imunização. 

“Há na América Latina uma grande confiança da população nas vacinas. Quando há dose disponível, a população toma”, afirma Jarbas Barbosa, vice-diretor da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). Em muitos países ricos, o maior obstáculo não é obter a vacina, mas convencer a população. “EUA e Europa estão com suas campanhas paralisadas, porque não há mais gente disposta a receber as doses.” 

Na Costa Rica, a adesão foi em massa. De acordo com pesquisa da Opas, 94% da população considerava importante se vacinar. Segundo Leandra Abarca, o motivo está no fato de que, desde o princípio, o governo investiu em campanhas de comunicação. 

“Assim que conseguimos a vacina, foi simples aplicá-la, porque já havia sido trabalhado a importância da imunização”, disse Leandra. De acordo com ela, ainda há uma pequena parte da população que rejeita a vacina, mas é um grupo pequeno.

Carina Vance também destaca o esforço de muitos países latino-americanos para superar obstáculos. O caso mais emblemático, segundo ela, é Cuba. “Apesar do bloqueio, há três vacinas aprovadas”, disse. “A agência reguladora cubana é uma das poucas que tem credibilidade junto à Opas, justamente pelo alto nível das exigências de vigilância e controle sanitário.”

Cuba foi o primeiro país da América Latina a atingir a meta de 80% da população vacinada e hoje é o país de renda média mais avançado, com 82% dos cubanos imunizados. Em razão do bloqueio econômico, a ilha não pôde negociar compras de vacinas. Por isso, a estratégia foi desenvolver suas próprias doses. Atualmente, o país tem três vacinas aprovadas: Soberana 02, Soberana Plus e Abdala.

Embora sejam exemplos de sucesso na vacinação, esses países de renda média ainda são exceções à regra. Poucos apresentam mais de 50% da população vacinada e em nenhum país pobre este índice está acima de 30%. 

Penúria na África

A maior penúria ainda está nos países africanos, mas há desigualdade dentro da própria América Latina e Ásia. “Se você analisar os números de Haiti, Guatemala, Nicarágua, eles estão ainda com índices baixíssimos”, ressalta Carina.

“Quando falamos de países subdesenvolvidos, há uma gradação muito importante”, afirma Jarbas Barbosa. “É muito diferente ser um país de renda média e um país pobre. O nível da renda e a capacidade dos governos de comprar vacinas são diferentes. Na África, a média da população completamente imunizada é de 5%. Mesmo na África do Sul, que é um dos que mais vacinaram, apenas 25% da população foi totalmente imunizada.”

Dos países considerados de renda baixa pelo Banco Mundial, Ruanda é quem está em melhor situação, com 26% da população totalmente vacinada, abaixo da média mundial, de 46%. O caso mais dramático é de Burundi, que imunizou menos de 1% das pessoas. Segundo dados da Covax, o país recebeu doação de apenas 500 mil doses da China. 

“Agradecemos aos doadores, mas é necessário mais empenho para que todos os países cheguem aos 40% até o fim do ano e aos 70% de cobertura no fim do primeiro semestre de 2022”, disse Barbosa, vice-diretor da Opas.

A corrida parece ser contra o tempo, já que muitos cientistas suspeitam que duas doses não sejam suficientes para conter o avanço da variante Ômicron. 

Para Seth Berkley, diretor da Gavi, a aliança mundial de vacinas, já há sinais de que os países ricos voltaram a segurar as doações com medo da nova cepa. “Com a Ômicron, estamos vendo pânico em muitos países, que aceleraram as doses de reforço”, afirmou. “Isso pode ampliar ainda mais a desigualdade.” 

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