Victor Moriyama/The New York Times
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Confinamento e solidão

Longe de realizar a sociedade sem classes, o coronavírus aprofunda as desigualdades

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 05h00

Todo mundo confinado! Portas fechadas, ninguém entra, ninguém sai. Ou então, será preciso pedir a um policial permissão para ir comprar pasta de dentes ou pão. Sem exceções. Você pode até ser um marajá ou um bilionário, será tratado como um camareiro ou uma camareira qualquer. Bakunin gostaria muito. A sociedade sem classes acaba de chegar. O novo coronavírus conseguiu, em poucos meses, estabelecer esta igualdade perfeita entre os seres humanos, sempre prometida e sempre dissipada como uma miragem.

No século 17, o poeta Malherbe, por ocasião da morte da filha de um de seus amigos, usa esse argumento para consolá-lo. “O pobre em sua cabana que a palha cobre, submete-se às suas leis, e o guarda que vigia nas barreiras do Louvre, não defende nossos reis.” Malherbe tinha razão, porque falava da morte como do “grande equalizador” (embora isso seja discutível). 

Por outro lado, no que diz respeito ao confinamento ao qual estão sujeitos, tanto os poderosos quanto os miseráveis, nessa igualdade pela desgraça, o desconforto como a própria morte é uma piada. Longe de realizar a sociedade sem classe, muito ao contrário, o coronavírus aprofunda as desigualdades, as torna mais agudas.

O sociólogo americano Eric Klinenberg estuda há dez anos a solidão e seus efeitos nas sociedades atuais. Podemos aplicar suas análises à provação violenta do confinamento ao qual três quartos da Europa e, em termos do planeta, de 2 a 3 bilhões de homens, mulheres, idosos, bebês, portadores de deficiências, pedintes e bilionários estão condenados. 

Se ele aceita as decisões dos médicos e dos governos de isolar as pessoas, de trancá-las em seus palácios ou em suas casas, sem contato com outras pessoas igualmente aprisionadas, por outro lado, ele lamenta que não se conceda às populações frágeis, aos pobres, fatigados, muito pobres ou muito solitários (solitários mesmo em um período normal), uma atenção particular. As pessoas desabrigadas não têm escolha. Como poderiam evitar os contatos físicos do dia a dia? E os idosos? E os doentes? Nestes momentos, eles precisam de atenção redobrada e não ver a sociedade dando-lhes as costas.

Ele evoca, em seguida, o drama que o “distanciamento social” pode provocar em certas pessoas. “A solidão, que acarreta estresse e ansiedade”, ele diz, “enfraquece o sistema imunológico” e, portanto, pode torná-lo mais vulnerável aos vírus. Os seres humanos são uma espécie social. Alguns precisam de um contato regular, outros podem se arranjar com uma interação ocasional. Entretanto, “homem nenhum é uma ilha”, como diz o poeta John Donne. “Somos maciçamente interdependentes.”

Buscando dispositivos de luta contra esta ruptura das relações sociais, sobretudo entre os mais humildes, ele lembra que, nas grandes epidemias antigas – peste e cólera –, não havia nenhum recurso. Hoje, estamos ligados aos outros pelo rádio, TV, telefone, redes sociais, computadores.

O discurso de Eric Klinenberg merece ser citado, porque esse americano faz o elogio do seguro social, inexistente nos EUA. “O sistema público de saúde vai além da solidariedade entre as pessoas. Ele nos incentiva a não acumular medicamentos para nosso uso exclusivo, a não ir para o trabalho quando estamos doentes, a evitar mandar para a escola uma criança doente. Sociedades divididas e desiguais, como os EUA, carecem de confiança e de coesão: será mais difícil para elas superarem esta nova pandemia”, escreve. Como não concordar plenamente com estas palavras? Ou, em outros termos: “Os seres humanos podem morrer de solidão”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

 

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