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Confinamento para conter coronavírus, um salva-vidas para alcoólatras na Alemanha

De acordo com um porta-voz do Alcoólicos Anônimos, o número de chamadas na linha de atendimento nacional da associação dobrou; atendimento on-line fez mais pessoas participarem e deve continuar depois da pandemia

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2020 | 02h30

BERLIM - Quando o confinamento começou em razão do novo coronavíus na Alemanha, Marco tinha apenas uma obsessão: ficar bêbado. Mas, como muitos, de tanto beber, teve que procurar ajuda para se livrar do vício em álcool.

Em março, esse músico de 38 anos de Berlim tomava uma garrafa de gim todas as noites. "Dizia a mim mesmo 'vamos lá, o que há de errado? Estamos confinados, vamos fazer uma festa!'", explica ele à AFP, sob anonimato.

Com o passar dos dias, começou a ver as coisas de maneira diferente. "Por causa do confinamento, você é forçado a olhar para si mesmo e percebe que o que faz não é certo. É um problema, uma dependência", admite. 

No final, ele entrou em contato com um grupo local de Alcoólicos Anônimos para buscar apoio para sua decisão de encerrar 20 anos de consumo intenso de álcool. Como ele, muitos outros seguiram a mesma iniciativa.

De acordo com um porta-voz do Alcoólicos Anônimos, o número de chamadas na linha de atendimento nacional da associação dobrou e passou de uma dúzia de ligações por dia para cerca de 20 desde o início de março.

Cultura 

A taxa de consumo de álcool na Alemanha é uma das mais altas da Europa. Na cultura nacional, as bebidas alcoólicas ocupam lugar de destaque, principalmente por meio de eventos tão famosos quanto a Oktoberfest em Munique.

De acordo com um estudo recente do Centro Alemão para Assuntos de Dependência (DHS), três milhões de alemães, com idades entre 18 e 64 anos, tiveram problemas com álcool em 2018.

Durante a fase inicial do confinamento, as vendas de bebidas alcoólicas cresceram consideravelmente. Muitas pessoas aumentaram seu consumo em casa como um substituto às saídas com os amigos. Ao mesmo tempo, porém, a pandemia fez os consumidores perceberem - por si mesmos, ou por intermédio de suas famílias - seu excesso, afirma um porta-voz do Alcoólicos Anônimos.

"As pessoas começaram a beber em casa. O parceiro, ou alguém da família, começou a ver o quanto eles realmente bebiam. Eles percebem que não é mais possível esconder", aponta.

Na Alemanha, existem dezenas de grupos de Alcoólicos Anônimos, que propõem cerca de 2.000 reuniões em todo país, em tempos normais.

Com as restrições de saúde impostas desde março, grupos na capital priorizaram reuniões on-line.  Uma mudança que ajuda muitas pessoas, para quem esse modo de reunião é mais discreto. "Muitas das pessoas que nos procuram geralmente são as mais isoladas (...) O contato on-line é mais simples", diz ele.

Esses grupos planejam propor mais reuniões on-line a partir de agora, mesmo quando não houver mais instruções de saúde.

Sem a pandemia, "poderia ter continuado assim por mais 10 anos, até que algo realmente sério acontecesse", diz Marco, cuja vida como músico permitiu que estivesse sempre perto de álcool e drogas. "É difícil dizer, mas tenho a impressão de que o confinamento salvou minha vida", desabafa. / AFP

 

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