REUTERS/Brian Snyder
O presidente Donald Trump durante o primeiro debate eleitoral da corrida presidencial americana. REUTERS/Brian Snyder

Trump com covid embaralha corrida eleitoral e estressa mercados externos

Contaminação do presidente a 32 dias da eleição mudará de imediato o ritmo da campanha, com consequências políticas ainda imprevisíveis

Beatriz Bulla, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 07h02
Atualizado 02 de outubro de 2020 | 18h18

WASHINGTON - O anúncio feito pelo presidente Donald Trump  por volta da 1h da manhã desta sexta-feira, 2, que está com covid-19 gera uma reviravolta na corrida eleitoral. A contaminação do presidente pelo coronavírus a 32 dias da eleição vai mudar de imediato o ritmo da campanha, com consequências políticas ainda imprevisíveis para o resultado de uma eleição já tumultuada.

Trump, que vinha fazendo comícios eleitorais e eventos de arrecadação de fundos para a campanha em ambientes fechados, iniciou a quarentena na madrugada desta sexta-feira, 2. Se ele tiver um ciclo normal de recuperação da doença, de 14 dias após a infecção, pode ficar quase metade do tempo restante até as eleições afastado do contato com o público.

Os comícios são considerados um dos maiores ativos políticos do presidente, conhecido por ser um "showman" com alta capacidade de energizar seus eleitores em discursos. Trump viajaria para a Flórida nesta sexta-feira e para o Wisconsin no final de semana, dois Estados-pêndulo cruciais para as eleições.

A infecção por covid-19 também coloca em xeque a realização dos próximos dois debates com o democrata Joe Biden. O próximo encontro entre os dois candidatos está agendado para o dia 15 de outubro.

Biden e sua mulher, Jill, testaram negativo para a covid-19 nesta sexta-feira. Em sua conta no Twitter, Biden desejou melhoras a Trump e Melania. "Jill e eu enviamos nossos pensamentos ao presidente Trump e à primeira-dama Melania Trump para uma rápida recuperação. Continuaremos orando pela saúde e segurança do presidente e de sua família", escreveu Biden.

A imprensa americana já discute também o que acontecerá em um cenário mais grave, caso Trump sofra com complicações da doença e esteja com a saúde ameaçada no dia da eleição, em 3 de novembro.

Após a confirmação do teste positivo de Trump para covid-19, mercados internacionais tiveram queda generalizada. Em um dia ainda com feriados e mercados sem operar em vários países da Ásia, entre eles a China, a Bolsa de Tóquio fechou em baixa de 0,67%.

Com investidores no mundo atentos a eventuais mudanças no quadro político em Washington, durante a corrida presidencial, e também na postura de Trump sobre a covid-19, as Bolsas da Europa também abriram o dia em queda, mas conseguiram reagir e fecharam em uma situação melhor. Frankfurt recuou 0,33% e Paris ficou estável com alta de 0,02%. Milão operava em baixa de 0,77%, mas fechou com alta de 0,01% e Madri, que cedia 0,60%, fechou com alta de 0,35%.  

No Brasil, a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, começou a tarde com viés de baixa. Por volta de 13h estava aos 94 mil pontos, com queda superior a 1%. Nos EUA, a Bolsa de Nova York tinha queda moderada. O índice Dow Jones perdia nesta tarde 0,32%. O índice Nasdaq perdia 1,78%.

Na Oceania, o índice S&P/ASX 200 fechou em baixa de 1,39%, em 5.791,50 pontos. A novidade sobre Trump também prejudicou o apetite por risco na Bolsa de Sydney. Entre os setores, o de energia se saiu pior na bolsa australiana, enquanto entre as mineradoras BHP teve queda de 3,2% e Fortescue, de 3,6%.  

Rastreamento de contágio na Casa Branca

Um rastreamento de contágio entre o alto escalão do governo americano que esteve com Trump nos últimos dias deve acontecer hoje. Ainda não há informação da campanha do democrata Joe Biden, que esteve com Trump na terça-feira durante debate eleitoral, se ele será testado.

Com os comícios dos últimos meses, Trump tentou não apenas retomar o contato com o eleitorado, mas também mostrar que os Estados Unidos estavam voltando à vida normal apesar do coronavírus.

Parte da mensagem política do presidente consiste em mostrar que ele colocou os EUA no caminho da recuperação econômica, de saúde e que conseguirá anunciar uma vacina em tempo recorde.

Considerado o favorito para ganhar a disputa eleitoral no início do ano, o republicano perdeu apoio desde o início da pandemia. A maioria da população reprova a resposta dada pelo presidente à crise de saúde. Os EUA têm o maior número de casos (7,2 milhões) e de mortos (207 mil) por covid-19 no mundo.

Trump negou a gravidade do coronavírus no início do ano. Quando a situação já havia saído do controle em Nova York, na metade de março, ele endossou a necessidade de adotar medidas de isolamento, mas apenas por um breve período.

Em abril, diante da explosão no número de desempregados no país e já em queda nas pesquisas de opinião, o presidente passou a pressionar governadores para reabrir a economia antes do considerado seguro por especialistas.

Desde março, o republicano entrou sucessivas vezes em choque com o corpo de infectologistas que orienta a Casa Branca, abraçou teorias de cura não comprovada, resistiu a defender o uso de máscaras e quebrou regras de distanciamento.

No debate com Biden na última terça-feira, ele ironizou o fato de o democrata fazer eventos de campanha para pouquíssimas pessoas. "Ele faz círculos com três pessoas", disse Trump. "Se você conseguisse ter as multidões, você faria o mesmo (comícios)", completou o republicano, que também zombou do fato de Biden sempre aparecer de máscara em público -- algo que ele já disse que "não é muito presidencial".

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Biden respondeu com a acusação de que Trump tem sido "totalmente irresponsável na forma como ele lida com distanciamento social, o uso de máscaras -- basicamente encorajando as pessoas a não usarem". "Ele é um idiota nisso", disse o democrata. Considerado uma das principais formas de prevenção, o uso de máscara foi politizado nos EUA. Apoiadores do presidente resistem a usar máscaras em muitas partes do país.

A confirmação de que Trump está com covid-19 não apenas tira o republicano da campanha, como também joga para o centro do debate público e eleitoral o tema que mais o prejudica: a pandemia. Nos últimos meses, Trump tentou mudar o foco da discussão eleitoral e centrar sua mensagem em narrativas que têm apelo entre o eleitorado republicano.

Em junho, Trump adotou o discurso de defesa da lei e da ordem diante dos protestos antirracismo e contra violência policial que se espalharam pelo país após o assassinato de George Floyd em Mineápolis.

Em agosto, com novos protestos em Kenosha, no Wisconsin, Trump renovou o mesmo discurso e apelou para o medo, ao dizer que os subúrbios seriam destruídos por protestantes e anarquistas se os democratas fossem eleitos.

Nas últimas duas semanas, o foco do republicano foi a indicação de uma nova juíza para a Suprema Corte, um assunto caro à base conservadora. Em todas as ocasiões, Joe Biden tentava puxar o debate novamente para questões sobre acesso à saúde em meio e a pandemia, uma fragilidade na campanha de Trump.

O impacto eleitoral ainda é imprevisível. O jornalista e âncora da CNN americana Anderson Cooper citou o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, na cobertura dessa madrugada ao dizer que Trump pode reforçar seu discurso de que a doença não é grave caso se recupere brevemente. Bolsonaro, Trump e o primeiro-ministro britânico Boris Johnson são considerados por analistas internacionais como símbolos de líderes que minimizaram a gravidade do vírus. Os três foram infectados.

A confirmação de que Trump está com coronavírus também coloca em questão o esquema de segurança da Casa Branca. O presidente alegava que pode circular e interagir sem máscara durante eventos porque todas as pessoas que o cercam são testadas diariamente. Com frequência, os eventos realizados pela presidência ou pela campanha ignoraram protocolos de segurança defendidos por médicos e autoridades do país. 

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Trump teve contato com dezenas de pessoas dias antes de testar positivo para covid-19

No sábado passado, Trump recebeu aliados para indicação da juíza Amy Coney Barrett à Suprema Corte; convidados que estiveram no evento estão testando positivo para a covid-19

Annie Karni e Maggie Haberman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 12h52
Atualizado 07 de outubro de 2020 | 17h01

WASHINGTON - Na segunda-feira 28, o presidente Donald Trump fez um discurso à nação sobre a estratégia de teste de coronavírus do governo e anunciou um plano para distribuir 150 milhões de testes rápidos aos Estados. No início da manhã desta sexta-feira, 2, ele próprio testou positivo para o coronavírus.

Entre segunda e sexta-feira, Trump interagiu com vários membros da sua equipe, doadores de sua campanha eleitoral e apoiadores. Até a mulher que ele indicou para a Suprema Corte, a juíza Amy Coney Barrett, esteve na Casa Branca esta semana - ela testou negativo para o coronavírus.

Na noite de quarta-feira, Hope Hicks, uma das mais próximas assessoras de Donald Trump, testou positivo para covid. Imediatamente, ela foi apontada como vetor de transmissão da doença para o presidente. No entanto, traçar a origem da infecção pode ser mais complicado. Nesta sexta-feira, parece cada vez mais possível que a cerimônia de sábado na Casa Branca, em que Trump nomeou Barrett para Suprema Corte, possa ter sido o evento disseminador do vírus.

 

Mike Lee, senador republicano do Estado de Utah, que esteve na recepção na Casa Branca, testou positivo para a covid-19. Em um vídeo que começou a circular nesta sexta-feira, é possível ver o senador abraçando entusiasticamente os outros convidados – sem máscara. O senador Thom Tillis também foi infectado. Durante o evento, realizado no Rose Garden, quase ninguém é visto usando o equipamento de proteção.

A ex-conselheira do presidente Trump, Kellyanne Conway, que também esteve nas festividades do sábado passado, anunciou na sexta-feira 2 que foi diagnosticada com a covid-19. 

A Universidade de Notre Dame, de South Bend, no Estado de Indiana, anunciou que o reitor, o reverendo John Jenkins, também teve um teste positivo para covid após participar da recepção na Casa Branca. “Lamento meu erro de julgamento por não usar máscara durante a cerimônia e por apertar a mão de várias pessoas no Rose Garden”, escreveu o reitor em mensagem para estudantes e professores. 

No encontro, o secretário de Saúde, Alex Azar, o de Justiça, William Barr, e o médico Scott Atlas, espécie de guru de Trump – embora não seja infectologista – também foram vistos sem máscaras e apertando as mãos dos convidados. 

Na noite desta sexta-feira, 2, o gerente da campanha de Trump, Bill Stepien, que acompanhou o presidente no debate desta semana e esteve com ele durante sessões de preparação nos três dias que antecederam o evento, testou positivo para a covid-19. 

A presidente do Comitê Nacional Republicano (RNC), Ronna McDaniel, testou positivo no início da semana e está isolada em casa desde sábado passado – portanto, não teria relação com a recepção à juíza Barrett. No entanto, um assessor de imprensa da Casa Branca e um jornalista, que também estiveram no Rose Garden, testaram positivo – eles ainda não foram identificados.

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De acordo com as diretrizes das autoridades de saúde dos EUA, Barrett deveria ficar em quarentena por 14 dias, porque se encontrou com Lee pessoalmente e sem máscara. A juíza, no entanto, foi diagnosticada com o vírus alguns meses atrás e já teria se recuperado, segundo o Washington Post.

No entanto, ainda não há consenso sobre imunidade após a doença. Embora especialistas acreditem que a recuperação da covid confira alguma imunidade e a Organização Mundial da Saúde (OMS) diga que infecções repetidas são incomuns, há relatos de segundas infecções em várias partes do mundo. 

Desde que foi indicada à Suprema Corte, Barrett está sendo testada para o vírus diariamente e teve um resultado negativo na manhã desta sexta-feira, de acordo com a Casa Branca. Na semana passada, ela visitou o Capitólio várias vezes, reunindo-se com cerca de 30 senadores em encontros individuais para discutir sua nomeação, de acordo com o Washington Post.

Nesta sexta-feira, o senador Lindsey Graham, republicano que é presidente da Comissão de Justiça do Senado, disse que planeja prosseguir com a indicação de Barrett no dia 12, como programado. No final do dia, o senador republicano Thom Tillis, da Carolina do Norte e que também é da comissão, teve diagnóstico positivo para covid-19. Ele também estava na cerimônia de Barrett.

Nomeação

Os republicanos, no entanto, estão confiantes que o surto de covid em membros do governo Trump não atrapalhará o processo de aprovação da juíza. O partido tem maioria de dois senadores na Comissão de Justiça, o que significa que Lee não precisaria estar presente para aprovar a indicação da juíza, primeiro passo para enviar seu nome para uma votação final no plenário.

Os democratas viram no surto uma chance de atrasar o processo – embora ainda seja difícil impedir a nomeação em razão da maioria republicana no Senado. Os senadores democratas Chuck Schumer e Dianne Feinstein consideraram “prematuro” a continuação do cronograma de sabatina planejado antes de a cúpula do Partido Republicano ser exposta ao coronavírus.

“As notícias lamentáveis sobre a infecção de nosso colega senador Mike Lee deixam ainda mais claro que a saúde e a segurança devem orientar o cronograma de todas as atividades do Senado”, disseram, em comunicado, os democratas, que não autorizaram a realização de audiências virtuais para a nomeação de Barrett.

Na manhã deste sábado, 3, o escritório do senador de Wisconsin Ron Johnson confirmou que ele testou positivo para a covid-19. Ele é o terceiro senador republicano a relatar um teste positivo nesta semana, após o senador Mike Lee e o senador Thom Tillis. O anúncio de Johnson está aumentando a tensão em Washington desde que Trump anunciou seu teste positivo.

Johnson, um republicano de segundo mandato, relatou exposição no mês passado a alguém que testou positivo para covid-19 e ficou em quarentena por 14 dias sem desenvolver sintomas. Ele disse que testou negativo duas vezes durante esse tempo. Ele voltou a Washington em 29 de setembro e afirmou que foi exposto logo depois a alguém com resultado positivo.

Johnson fez o teste na sexta-feira à tarde após saber da exposição e deu positivo. Ele afirmou que sente bem e não tem sintomas, mas vai se isolar até que seja liberado pelo médico. / AFP, REUTERS e NYT

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Contaminação de Trump por covid-19 não deve ter impacto no resultado da eleição, apontam analistas

Polarização na sociedade americana, limitando alcance eleitoral de uma comoção, e ausência em eventos presenciais pesam contra o presidente, mas menor exposição a críticas pode ser favorável

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 13h59

A confirmação de que o presidente americano Donald Trump está com covid-19 não deve ser um fator decisivo nas eleições de novembro. Apesar de cedo para mensurar os efeitos da doença na campanha eleitoral do republicano, analistas ouvidos pelo Estadão dizem que a polarização da sociedade americana dá pouca margem para que uma eventual "comoção" tenha efeito relevante nas urnas.

No cenário projetado pelos especialistas pesa contra o presidente a ausência física em eventos de campanha, principalmente os comícios, ponto forte de Trump. Mesmo durante o período mais grave da pandemia da covid-19 no país,  o presidente defendeu a realização de grandes eventos.

"A princípio é uma má notícia para Trump, porque ele não pode participar dos eventos. Ele tem muitos eventos nas próximas semanas, é o momento decisivo da campanha", diz o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo Oliver Stuenkel.

A análise é endossada pelo professor de RI da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) Carlos Poggio. Para ele, a doença não deve alterar o resultado da eleição, mas altera a forma de fazer campanha, retirando de Trump seu maior trunfo. "Ele não é um grande debatedor e em entrevistas não costuma se sair bem. Onde ele realmente 'nada de braçada' é nos comícios, quando faz os stand-ups dele. É o formato que ele se sente mais a vontade e isso ele não vai poder fazer, pelo menos por enquanto", afirma Poggio, ressaltando que a covid inviabilizará viagens do presidente a Estados-pêndulo, decisivos nas eleições americanas.

Fazendo um contraponto, o pesquisador da universidade Harvard Hussein Kalout, ex-secretário de assuntos estratégicos do governo de Michel Temer, afirma que o fato novo alivia um pouco a pressão sobre Trump, deixando-o menos exposto a possíveis ataques dos democratas. 

"Não creio que ficar 15 dias isolado o afetará negativamente. Trump tem muito mais vulnerabilidades do que Biden e isso ficou patente no primeiro confronto entre os dois candidatos. Portanto, não participar do próximo debate não é necessariamente ruim para Trump. Aliás, o presidente pode  participar dos comícios de forma remota", avalia Kalout.

Apesar de não considerar a quarentena como um mal absoluto na campanha de Trump, Kalout também pondera que o fato não é um catalisador de votos para o presidente. De acordo com o pesquisador, a polarização na sociedade americana reduz eventuais "votos por comoção".

"A sociedade americana já estava profundamente dividida. A comoção que isso pode causar estaria mais constrita à base religiosa em alguns Estados como, por exemplo, a Carolina do Norte. O alcance eleitoral, portanto, seria mais limitado. O isolamento pode ajudar Trump a não ter de responder sobre uma série de vulnerabilidades como o seu imposto de renda e a desastrosa gestão de combate à pandemia."

Poggio também vê uma rigidez maior no cenário americano para que a doença do presidente se torne um elemento que ajude a angariar simpatia ao presidente. "Vai depender muito de como as coisas vão evoluir. Eu não tenho a menor dúvida de que Trump já está discutindo como ele pode se beneficiar politicamente dessa informação", declarou o professor.

A falta de precedentes históricos da infecção de um presidente americano em período eleitoral por um vírus como o coronavírus é um fator que dificulta a análise, segundo Stuenkel. Apesar disso, o professor também considera que, em princípio, o fato é negativo, mesmo considerando o fator de comoção.

"Como não se trata de um atentado - que, sim, pode 'dar um gás' na corrida eleitoral - eu acho que a contração de uma doença que ele minimizou, já que não fez nada para se proteger, é difícil de impactar positivamente."

'Tudo vai depender da dinâmica da doença'

O CEO e fundador da Ideia Big Data, Maurício Moura, acredita que a evolução da doença do presidente terá um peso relevante no tamanho do impacto eleitoral. Moura, que atualmente participa do OPM (Owners/President Management Program) da escola de negócios de Harvard, compara a situação de Trump com a de Boris Johnson, primeiro líder mundial entre as principais economias do mundo a ter a covid-19.

"Vai depender muito da evolução da doença. Se ele tiver um quadro assintomático, o impacto é mínimo. Se houver um agravamento do quadro e for necessária a hospitalização, como foi com Boris Johnson - que ganhou popularidade quando esteve hospitalizado - teremos um impacto a ser analisado com muito mais detalhamento", afirmou Moura, alertando que ainda não existem dados disponíveis para mensurar o impacto eleitoral.

Apesar disso, Moura disse não crer em uma grande alteração no resultado. "As duas campanhas estão basicamente trabalhando para convencer os convertidos. Fazer com que os apoiadores saiam para votar ou votem pelos correios, não tem uma campanha de convencimento".

O agravamento do quadro de saúde de Trump também traria impactos para a realização da campanha do republicano, como explicou Carlos Poggio. O professor pontuou que, caso a doença do presidente se estenda por mais de 15 dias - recomendados para casos leves - os atos programados podem ser ainda mais comprometidos.

"Temos aí alguma incerteza, porque muito depende de como vai ser a recuperação do Trump. Ele pode se recuperar daqui a 14 dias e ele pode ficar 30 dias ou mais com problemas. Trump é obeso, de idade de risco - 74 anos -, tem alguns problemas cardíacos de menor gravidade e outras questões normais da idade. Teremos que aguardar os impactos da evolução da doença".

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Biden manifesta solidariedade em relação a Trump após diagnóstico de covid: ‘uma rápida recuperação'

Por meio das redes sociais, o candidato democrata à presidência dos Estados Unidos afirmou que continuará 'orando pela saúde e segurança' de Trump e sua família, que anunciaram teste positivo para o novo coronavírus

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 11h06

Após o presidente dos Estados Unidos Donald Trump ter anunciado que testou positivo para o novo coronavírus, o candidato democrata à presidência dos EUA, Joe Biden, desejou uma “rápida recuperação” ao mandatário, que concorre à reeleição. 

"Jill e eu enviamos nossos pensamentos ao presidente Trump e à primeira-dama Melania Trump para uma rápida recuperação. Continuaremos orando pela saúde e segurança do presidente e de sua família", escreveu Biden no Twitter. 

 

Trump anunciou por volta da 1h da manhã desta sexta que está com covid-19, e deu início à quarentena na madrugada de hoje. A notícia causa uma reviravolta na corrida eleitoral americana, e os efeitos do diagnóstico, que é feito a 32 dias do pleito, ainda são incertos.

Após resultado positivo anunciado por Trump, Joe Biden realiza na manhã desta sexta um teste para a covid-19. Trump e Biden estiveram juntos ainda esta semana, quando participaram do primeiro debate eleitoral da corrida presidencial. Os candidatos não usaram máscara enquanto estiveram dentro do estúdio. 

Além de Biden, diversos outros líderes mundiais já se manifestaram pela recuperação de Trump. Entre eles, o primeiro-ministro do Reino Unido e aliado de Trump no plano internacional, Boris Johnson, o presidente de Israel, Binyamin Netanyahu, e também o presidente da Rússia, Vladimir Putin, um dos principais opositores de Trump.

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Joe Biden e sua mulher testaram negativo para covid-19; Trump tem sintomas leves, diz jornal

Campanha do candidato democrata à presidência dos Estados Unidos diz que ele e esposa fizeram o teste e não estão com coronavírus; presidente americano está em quarentena

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 13h24

O candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, e sua mulher, Jill, testaram negativo para covid-19, declarou a sua campanha nesta sexta-feira, 2.

Biden e sua mulher fizeram o teste na manhã desta sexta-feira, 2, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que  disputa a reeleição, ter sido diagnosticado com o novo coronavírus

Trump está apresentando sintomas leves de covid-19, segundo duas pessoas próximas a ele e familiarizadas com sua condição, afirmou o jornal The New York Times nesta sexta-feira, 2. 

O presidente teve o que uma pessoa descreveu como “sintomas de resfriado”, diz o jornal. Em uma arrecadação de fundos da qual participou em seu clube de golfe em Bedminster, Nova Jersey, na quinta-feira, Trump teria entrado “em contato com cerca de 100 pessoas”. Segundo o jornal apurou, Trump “parecia letárgico” no dia do evento.

O presidente americano teve contato com dezenas de pessoas nos dias que antecederam seu diagnóstico de covid-19. Entre segunda e sexta-feira, Trump interagiu com vários membros da sua equipe, doadores de sua campanha eleitoral e apoiadores.

Trump e Biden participaram do primeiro debate presidencial na última terça-feira, 29, durante 90 minutos, em um ambiente fechado, e com os participantes sem máscaras. 

Os candidatos não deram apertos de mão, nem entre si, nem com o moderador. Nem Trump nem Biden, porém, usaram máscara enquanto estiveram dentro do estúdio. 

Trump anunciou por volta da 1h da manhã desta sexta que está com covid-19, e deu início à quarentena na madrugada. A notícia causa uma reviravolta na corrida eleitoral americana, e os efeitos do diagnóstico, que é feito a 32 dias do pleito, ainda são incertos. 

A pandemia foi um dos temas que pautou as discussões. Na ocasião,  Trump trouxe à tona a perspectiva econômica e acusou Biden de querer "paralisar" novamente o país como medida de contenção do coronavírus. "Fechamos a economia e estamos reabrindo e estamos fazendo negócios de forma recorde. Ele vai paralisar de novo, ele vai destruir esse país", afirmou.

Já Biden atacou a gestão do presidente durante a pandemia de coronavírus, uma das principais plataformas de campanha do democrata e um calcanhar de aquiles na campanha republicana, pois a maioria dos eleitores reprova a resposta de Trump à crise de saúde. "Ele sabia desde fevereiro quão sério isso era, sabia que era mortal. O que ele fez? Ele disse que não queria criar pânico. Ele entrou em pânico", disse Biden. "Quantos de vocês acordaram essa manhã e tiveram uma cadeira vazia na mesa da cozinha de alguém que morreu de covid?", questionou o democrata.

Agora, além de dar maior destaque ao tema durante a campanha, a infecção de Trump por covid-19 também coloca em xeque a realização dos próximos dois debates com o democrata Joe Biden.

O próximo encontro entre os dois candidatos está agendado para o dia 15 de outubro. A imprensa americana já discute também o que acontecerá em um cenário mais grave, caso Trump sofra com complicações da doença e esteja com a saúde ameaçada no dia da eleição, em 3 de novembro.

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Trump está com sintomas leves de covid-19, diz jornal

Segundo o The New York Times, presidente americano parecia letárgico em evento na quinta-feira e está com 'sintomas de resfriado'

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 10h58

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está apresentando sintomas de covid-19, mas leves, segundo duas pessoas próximas a ele e familiarizadas com sua condição, afirmou o jornal The New York Times nesta sexta-feira, 2. Trump testou positivo para o novo coronavírus.

O presidente teve o que uma pessoa descreveu como “sintomas de resfriado”, diz o jornal. Em uma arrecadação de fundos da qual participou em seu clube de golfe em Bedminster, Nova Jersey, na quinta-feira, Trump teria entrado “em contato com cerca de 100 pessoas”. Segundo o jornal apurou, Trump “parecia letárgico” no dia do evento.

Uma pessoa informada sobre o assunto disse que Trump adormeceu em um ponto da viagem no Força Aérea Um, o avião presidencial americano, no caminho de volta de um comício em Minnesota na noite de quarta-feira - algo que Trump não costuma fazer.

Um funcionário da Casa Branca disse ao The New York Times que na noite de quinta-feira o plano de tratamento do presidente ainda estava sendo discutido. 

Assessores de Trump também cogitavam um discurso em rede nacional ou uma declaração gravada em vídeo do presidente para demonstrar que ele estava bem e que o governo não seria interrompido.

Trump testou positivo para covid-19

O anúncio feito pelo presidente Donald Trump  por volta da 1h da manhã desta sexta-feira, 2, que está com covid-19 gera uma reviravolta na corrida eleitoral. A contaminação do presidente pelo coronavírus a 32 dias da eleição irá mudar de imediato o ritmo da campanha, com consequências políticas ainda imprevisíveis para o resultado de uma eleição já tumultuada.

Trump, que vinha fazendo comícios eleitorais e eventos de arrecadação de fundos para a campanha em ambientes fechados, iniciou a quarentena na madrugada desta sexta-feira, 2. Se ele tiver um ciclo normal de recuperação da doença, de 14 dias após a infecção, pode ficar quase metade do tempo restante até as eleições afastado do contato com o público.

Os comícios são considerados um dos maiores ativos políticos do presidente, conhecido por ser um "showman" com alta capacidade de energizar seus eleitores em discursos. Trump viajaria para a Flórida nesta sexta-feira e para o Wisconsin no final de semana, dois Estados-pêndulo cruciais para as eleições.

A infecção por covid-19 também coloca em xeque a realização dos próximos dois debates com o democrata Joe Biden. O próximo encontro entre os dois candidatos está agendado para o dia 15 de outubro.

Biden e sua mulher, Jill, vão fazer o teste para saber se estão com covid-19 na manhã desta sexta-feira. Em sua conta no Twitter, Biden desejou melhoras a Trump e Melania. "Jill e eu enviamos nossos pensamentos ao presidente Trump e à primeira-dama Melania Trump para uma rápida recuperação. Continuaremos orando pela saúde e segurança do presidente e de sua família", escreveu Biden.

Jill and I send our thoughts to President Trump and First Lady Melania Trump for a swift recovery. We will continue to pray for the health and safety of the president and his family.

— Joe Biden (@JoeBiden)  October 2, 2020

A imprensa americana já discute também o que acontecerá em um cenário mais grave, caso Trump sofra com complicações da doença e esteja com a saúde ameaçada no dia da eleição, em 3 de novembro.

Após a confirmação do teste positivo de Trump para covid-19, mercados internacionais tiveram queda generalizada. Em um dia ainda com feriados e mercados sem operar em vários países da Ásia, entre eles a China, a Bolsa de Tóquio fechou em baixa de 0,67%.

Com investidores no mundo atentos a eventuais mudanças no quadro político em Washington, durante a corrida presidencial, e também na postura de Trump sobre a covid-19, as Bolsas da Europa também abriram o dia em queda: a Bolsa de Londres caía 0,81%, Frankfurt recuava 1,18% e Paris, 1,07%. Milão operava em baixa de 0,77%.

Rastreamento de contágio na Casa Branca

Um rastreamento de contágio entre o alto escalão do governo americano que esteve com Trump nos últimos dias deve acontecer hoje. Ainda não há informação da campanha do democrata Joe Biden, que esteve com Trump na terça-feira durante debate eleitoral, se ele será testado.

Com os comícios dos últimos meses, Trump tentou não apenas retomar o contato com o eleitorado, mas também mostrar que os Estados Unidos estavam voltando à vida normal apesar do coronavírus.

Parte da mensagem política do presidente consiste em mostrar que ele colocou os EUA no caminho da recuperação econômica, de saúde e que conseguirá anunciar uma vacina em tempo recorde.

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O que Trump já disse sobre o uso de máscaras e o coronavírus

Durante a pandemia, o presidente expressou confiança de que o vírus desapareceria rapidamente e ceticismo quanto à eficácia das máscaras

Por Daniel Victor, Lew Serviss e Azi Paybarah, The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 10h09

O presidente Donald Trump - que insistiu, quando o coronavírus surgiu nos Estados Unidos, que o vírus não seria uma ameaça - passou meses minimizando a eficácia das máscaras, inicialmente se recusou a ser fotografado com uma e esta semana zombou do ex-vice-presidente Joe Biden por utilizá-las.

Durante a pandemia, Trump foi suavizando seu tom sobre o uso da proteção facial. Ele chegou a ser visto usando máscara e até encorajou os americanos a usá-las. Mas até mesmo o endosso do presidente vieram com advertências, que confundiram a mensagem.

Um exemplo: no debate presidencial de terça-feira, depois de dizer que usava máscaras "quando necessário", Trump afirmou que o Dr. Anthony Fauci, o principal funcionário dos EUA em doenças infecciosas, havia dito inicialmente que "máscaras não são boas, então ele mudou de ideia". Dr. Fauci rejeitou a alegação, dizendo na quinta-feira, 1º, que há muito tempo implorava às pessoas para usarem máscaras.

O comentário durante o debate foi o último a minimizar a seriedade do uso da proteção. Aqui estão algumas das declarações de Trump desde o início da pandemia.

Sobre o uso de máscaras e sua eficácia

3 de abril, na Casa Branca: "O C.D.C. [Centro de Controle de Doenças e Prevenção, na sigla em inglês] está aconselhando o uso de coberturas faciais não médicas como medida voluntária adicional de saúde pública. Portanto, é voluntário. Você não tem que fazer isso. Eles sugeriram por um período de tempo, mas isso é voluntário. Eu não acho que vou fazer isso."

"Eu só não quero fazer - eu não sei, de alguma forma sentado no Salão Oval atrás daquela bela mesa resoluta, a grande mesa resoluta. Acho que usar uma máscara enquanto saúdo presidentes, primeiros-ministros, ditadores, reis, rainhas - eu não sei, de alguma forma, não vejo por mim mesmo. Eu apenas, eu simplesmente não."

21 de maio, visita à fábrica da Ford: "Usei uma [máscara] na parte de trás. Não queria dar à imprensa o prazer de vê-lo."

19 de julho, em entrevista ao apresentador da Fox News Chris Wallace: "Não concordo com a afirmação de que se todo mundo usar uma máscara, tudo desaparece".

13 de agosto, na Casa Branca: "Meu governo tem uma abordagem diferente: instamos os americanos a usarem máscaras e enfatizei que é uma atitude patriótica. Talvez elas sejam ótimas, e talvez elas sejam apenas boas. Talvez elas não sejam tão boas."

7 de setembro, pedindo a um repórter para remover uma máscara enquanto faz uma pergunta: "Se você não tirar, você fica muito abafado".

29 de setembro no primeiro debate presidencial: "Acho que as máscaras são 'ok'. Você tem que entender, se olhar - quero dizer, eu tenho uma máscara bem aqui. Eu coloco uma máscara quando acho que preciso. Esta noite, por exemplo, todo mundo fez um teste e você teve distanciamento social e todas as coisas que você precisa."

Ele continuou: "Quando preciso, uso máscaras. Não uso máscaras como ele", disse, se referindo a Joe Biden. "Cada vez que você o vê, ele tem uma máscara. Ele poderia estar falando a 200 metros de distância deles, e ele aparece com a maior máscara que eu já vi."

Previsões iniciais de que o vírus não seria uma ameaça

22 de janeiro, perguntado por um repórter da CNBC se havia "preocupações sobre uma pandemia": "Não, de forma alguma. Temos tudo sob controle. É uma pessoa vindo da China, e temos tudo sob controle. Vai ficar tudo bem."

30 de janeiro, em Warren, Michigan: "Temos um pequeno problema neste país neste momento - cinco [casos]. E essas pessoas estão se recuperando com sucesso."

14 de fevereiro, dirigindo-se ao Conselho Nacional de Patrulha de Fronteira: "Há uma teoria de que, em abril, quando esquenta, historicamente, isso seja capaz de matar o vírus. Portanto, ainda não sabemos; não temos certeza ainda."

24 de fevereiro, em um tweet: "O coronavírus está sob controle nos EUA. Estamos em contato com todos e todos os países relevantes. O CDC e a OMS têm trabalhado muito e de forma inteligente. O mercado de ações está começando a parecer muito bom para mim!"

26 de fevereiro, em uma entrevista coletiva na Casa Branca, comentando sobre os primeiros casos relatados no país: "Estaremos em breve com apenas cinco pessoas e poderemos estar com apenas uma ou duas pessoas em um curto período de tempo. Então, tivemos muita sorte."

26 de fevereiro, ao lado de altos funcionários de saúde de agências governamentais: "O risco para o povo americano continua muito baixo. Temos os maiores especialistas do mundo bem aqui."

27 de fevereiro, em uma reunião na Casa Branca: “Vai desaparecer. Um dia - como um milagre - ele vai desaparecer."

7 de março, perguntado em Mar-a-Lago se ele estava preocupado que o vírus estivesse se aproximando da Casa Branca e de Washington: "Não, não estou nem um pouco preocupado. Não, eu não estou. Não, fizemos um ótimo trabalho."

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Entenda: o que muda na campanha dos EUA com a covid de Trump

Contaminação de presidente dos Estados Unidos pode alterar a reta final da corrida eleitoral americana 

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 16h25

O anúncio feito pelo presidente Donald Trump  por volta da 1h da manhã desta sexta-feira, 2, de que está com covid-19, aumenta a turbulência em uma já tumultuada capanha eleitoral.

A contaminação do presidente pelo coronavírus a 32 dias da eleição vai mudar de imediato o ritmo da campanha, com consequências políticas ainda imprevisíveis.

Na história recente dos Estados Unidos, nenhum presidente candidato à reeleição teve um problema de saúde tão grave durante a reta final de uma campanha presidencial.

A maioria das pesquisas indica que Trump está atrás de Joe Biden. O site FiveThirtyEight calcula que é uma diferença de 8,2 pontos percentuais. O New York Times fez uma pesquisa que mostra Biden liderando com folga quatro Estados decisivos onde Trump foi vitorioso em 2016.

Biden e sua mulher, Jill, testaram negativo para a covid-19 nesta sexta-feira. Em sua conta no Twitter, Biden desejou melhoras a Trump e Melania. Abaixo, entenda quais são as principais mudanças na campanha.

Impactos na campanha de Trump

Pode ser positivo? 

Para alguns analistas, o impacto do teste positivo para a covid-19 de Trump será neutro ou até mesmo levemente positivo. “Trump que está sob pressão ficará, nessa fase,  menos exposto a possíveis ataques advindos de seu adversário democrata. Os apoiadores do presidente tendem a mobilizar a base religiosa num processo de vigília por seu estado de saúde”, disse Hussein Kalout, pesquisador da universidade Harvard e ex-secretário de assuntos estratégicos do governo de Michel Temer.

 Ao Estadão/Broadcast, o presidente de Relações Públicas do Instituto Ipsos nos Estados Unidos, Clifford Young, disse que é “cedo para precisar os desdobramentos eleitorais da notícia”, mas lembrou que o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e o presidente Jair Bolsonaro registraram melhora em índices de popularidade após contraírem o novo coronavírus.

Para Entender

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Pode ter efeito negativo?

A consultoria Eurasia aumentou a chance de uma vitória de Biden de 65% para 70%, mas com a possibilidade de rever isso ao longo do dia.

Eleitores podem ser lembrados do descaso de Trump com o vírus. “É difícil imaginar que isso (o diagnóstico) não acabe com suas esperanças de reeleição”, disse um consultor do Partido Republicano, Rob Stutzman, ao The New York Times

Trump poderia ficar incapacitado do ponto de vista médico, dando novo tom à crise de saúde que já matou mais de 207 mil americanos.

De acordo com a 25ª Emenda da Constituição, o presidente americano tem a opção de transferir temporariamente o poder para o vice Mike Pence, que teve teste negativo para a doença, e pode reclamar sua autoridade sempre que se considerar apto para o cargo. Desde que a emenda foi ratificada em 1967, isso ocorreu apenas três vezes.

Em 1985, Ronald Reagan passou por uma colonoscopia e por um breve período transferiu o poder para o vice-presidente George Bush, embora não tenha mencionado explicitamente a emenda ao fazê-lo. 

George W. Bush, por sua vez, invocou a emenda duas vezes ao passar temporariamente o poder ao vice  Dick Cheney ao realizar duas colonoscopias, em 2002 e 2007.

Comícios

Mesmo com as regras que impedem aglomerações, Trump estava participando de atos políticos e comícios. Com o diagnóstico de covid-19, ele não poderá sair da Casa Branca por 14 dias. 

A campanha do presidente já afirmou que os eventos serão adiados ou realizados virtualmente. Nesta sexta-feira, 2, Trump iria à Flórida, mas a viagem foi cancelada. Havia um comício programado para o sábado, em Wisconsin, e outro para a segunda-feira, no Arizona. 

Encontros com eleitores

Trump também terá de suspender encontros com eleitores. Campanhas americanas costumam organizar encontros com partidários para angariar fundos para a campanha.

Trump se apoia em eventos políticos presenciais para arrecadar fundos e despertar entusiasmo entre seguidores.

As viagens de campanha e arrecadação de fundos planejadas para os próximos dias — com visitas a Estados-chave, como Wisconsin, Pensilvânia e Nevada — devem ser canceladas, já que o presidente permanece em quarentena na Casa Branca.

Sem seus comícios e sem poder abordar questões que mais entusiasmam seus eleitores, fica mais difícil diminuir a distância em relação a Biden, que mantém vantagem constante na média das pesquisas nacionais há algum tempo.

Quais são os impactos na campanha de Joe Biden 

Pode ser positivo?

Joe Biden terá ao menos 14 dias, o período de quarentena de Trump, para percorrer Estados-pêndulo, aqueles que ainda não têm um inclinação clara de qual candidato será eleito, e tentar angariar mais votos.

Apesar de Trump, dependendo do estado de saúde em que estiver, poder fazer comícios de maneira virtual e usar suas redes sociais para amplificar suas opiniões, Biden poderá ter mais espaço na mídia e aparecer mais, além de poder intensificar sua campanha. 

Ou pode ter efeito negativo?

O CEO e fundador da Ideia Big Data, Maurício Moura, acredita que a evolução da doença do presidente terá um peso relevante no tamanho do impacto eleitoral. Moura, que atualmente participa do OPM (Owners/President Management Program) da escola de negócios de Harvard, compara a situação de Trump com a de Boris Johnson, primeiro líder mundial entre as principais economias do mundo a ter a covid-19.

"Vai depender muito da evolução da doença. Se ele tiver um quadro assintomático, o impacto é mínimo. Se houver um agravamento do quadro e for necessária a hospitalização, como foi com Boris Johnson - que ganhou popularidade quando esteve hospitalizado - teremos um impacto a ser analisado com muito mais detalhamento", afirmou Moura, alertando que ainda não existem dados disponíveis para mensurar o impacto eleitoral.

Saúde de Biden

Um dos ataques preferido de Trump contra Biden está relacionado à saude do democrata. Trump, de 74 anos, acusa Biden, de 77 anos, de ter uma saúde frágil para liderar o país. 

Com Trump doente, provavelmente a sua própria condição física pode ser questionada. “É ruim um presidente que adoece na campanha. E como não se trata de um atentado, que pode dar um gás na corrida, a contração de uma doença que ele minimizou, que ele não fez nada pra se proteger, é difícil ter impacto positivo”, diz Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV em São Paulo.

Agora, as próximas semanas com certeza serão dominadas por discussões constantes sobre a saúde de Trump, com foco na pandemia cuja gestão, na opinião da maioria dos americanos, foi mal conduzida pelo presidente dos EUA.

Campanha mais intensa 

Os democratas têm sido cautelosos ao evitar eventos e aglomerações que podem implicar mais infecções. No entanto, Biden vinha sendo pressionado para intensificar as ações.

Ao receber o resultado negativo para seu teste de covid-19, Biden confirmou que continuará com sua campanha, e vai para Michigan nesta sexta-feira, 2. Michigan é um dos Estados do cinturão da ferrugem, que eram democratas e votaram em Trump em 2016. /Eduardo Gayer, Rodrigo Turrer e Renato Vasconcelos, com AFP e REUTERS

 

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Líderes mundiais reagem ao anúncio de contaminação de Trump

Aliados desejam recuperação, França diz que ‘vírus não poupa ninguém’ e jornal chinês afirma que presidente paga por minimizar doença

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 08h47
Atualizado 02 de outubro de 2020 | 23h14

WASHINGTON - O diagnóstico positivo de Donald Trump e a primeira-dama Melania para covid-19 desencadeou uma onda global de reações, que foram desde votos de boa recuperação até ataques ao presidente, que rotineiramente minimiza a ameaça do vírus que matou mais de 1 milhão de pessoas em todo o mundo neste ano.

 O próprio presidente revelou o diagnóstico na madrugada desta sexta-feira, 2. O anúncio foi feito através do Twitter, e rapidamente se transformou em um dos assuntos mais comentados no mundo. As implicações da contaminação de Trump na corrida presidencial, contudo, ainda não estão claras.

Aliados de Trump, como o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, tuitaram mensagens de apoio. “Como milhões de israelenses, Sara e eu estamos pensando no presidente Donald Trump e na primeira-dama Melania Trump e desejamos aos nossos amigos uma recuperação completa e rápida”, tuitou Netanyahu.

Primeiro-ministro do Reino Unido e aliado de Trump no plano internacional, Boris Johnson usou as redes sociais para desejar uma rápida recuperação ao presidente. Johnson foi o primeiro líder mundial entre as principais economias do planeta a contrair o vírus e precisou de atendimento hospitalar.

Um dos principais opositores de Trump, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, enviou uma mensagem ao presidente americano, também desejando uma rápida recuperação. "Tenho certeza de que sua vitalidade, vigor e otimismo inerentes o ajudarão a superar o vírus perigoso", escreveu. O Kremlin disse esta semana que Putin planeja ser vacinado contra o coronavírus com uma vacina experimental russa em breve.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e o presidente egípcio, Abdel Fatah al-Sissi, também enviaram mensagens de encorajamento ao casal.

O chefe da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, enviou ao presidente “melhores votos”, apesar de Trump acusar o organismo de “administrar mal” a pandemia de coronavírus. No início do ano, Trump anunciou que planejava cortar permanentemente o financiamento dos EUA à OMS, descrevendo a resposta deles à crise como sendo muito “centrada na China.”

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, também desejou melhoras ao presidente e à primeira-dama, e pontuou que a luta contra a covid-19 continua, diariamente.

O porta-voz do governo francês, Gabriel Attal, por sua vez, adotou um tom mais crítico. Ele desejou ao presidente uma “rápida recuperação”, enquanto falava no canal de TV francês LCI, mas também chamou o resultado positivo do teste de Trump “um sinal de que o vírus não poupa ninguém, incluindo aqueles que são os mais céticos sobre sua realidade e gravidade”.

Há quem tenha sido mais irônico: “Senhor presidente, sugiro que você não tente se tratar com alvejante”, tuitou Radoslaw Sikorski, membro do Parlamento Europeu e ex-ministro das Relações Exteriores da Polônia, referindo-se às sugestões de Trump de que desinfetante poderiam servir como um possível tratamento para o vírus.

“O presidente Trump e a primeira-dama pagaram o preço de sua aposta em minimizar o covid-19”, tuitou Hu Xijin, editor-chefe do Global Times, um jornal controlado pelo Partido Comunista Chinês. Trump atacou repetidamente a China pela forma como o país teria se equivocado ao lidar com a pandemia, que surgiu pela primeira vez na cidade de Wuhan no ano passado. A China hoje tem o vírus controlado e os EUA lideram os casos de contágios e mortes no mundo.

“Ninguém está imune à covid-19”, tuitou o Escritório das Nações Unidas para a redução do risco de desastres, ontem, em resposta ao teste positivo de Trump.

Manifestações dos democratas

Lideranças do Partido Democrata, como o candidato à presidência dos EUA, Joe Biden, também se solidarizaram com o presidente. Em sua conta no Twitter, Biden desejou melhoras a Trump e Melania. "Jill e eu enviamos nossos pensamentos ao presidente Trump e à primeira-dama Melania Trump para uma rápida recuperação. Continuaremos orando pela saúde e segurança do presidente e de sua família", escreveu Biden.

Como ambos estiveram em contato com o presidente no debate eleitoral, Biden e sua mulher, Jill, vão fazer o teste para saber se estão com covid-19 na manhã desta sexta-feira.

Sensação na largada da campanha Democrata - chegando a liderar a corrida do partido após o caucus de Iowa - Pete Buttigieg publicou uma mensagem em sua rede social. "Desejando ao presidente Trump e à primeira-dama uma completa e rápida recuperação".

Também pré-candidata e deputada pelo Estado do Havaí, Tulsi Gabbard também enviou sua mensagem ao presidente. "Meu marido, Abraham, e eu oferecemos nossos melhores votos e aloha ao Presidente Donald Trump e à Primeira-dama Melania Trump e oramos por sua rápida recuperação. Também enviamos nossos melhores votos a Ivanka, Tiffany, Donald Trump Jr., Eric e Barron durante este período difícil. #TrumpHasCovid."

História repetida

Trump se juntou a uma lista crescente de líderes mundiais que adoeceram com o vírus. 

Johnson, que inicialmente minimizou a ameaça da pandemia, reverteu o curso após sobreviver à doença – após sair do hospital ele disse que havia escapado da morte. 

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, também teve diagnóstico positivo para o vírus em julho, mas teve um caso muito mais brando. Ele se referiu ao vírus como “uma gripezinha” e continua a minimizar a necessidade de máscaras para reduzir a transmissão, mesmo com os casos crescendo exponencialmente no Brasil, terceiro país em casos e segundo em mortes em todo o mundo. Até ontem à tarde, Bolsonaro não havia oferecido nenhuma mensagem pública de apoio a Trump.

O ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, que tem 84 anos e passou dez dias no hospital lutando contra a doença no mês passado, disse em comunicado após o diagnóstico de Trump que a doença “pode ser superada com ações apropriadas e 

corajosas”. 

Após ter alta, Berlusconi chamou a experiência de “o desafio mais perigoso da minha vida” e exortou as pessoas a usarem máscaras. /Com Washington Post; Colaborou Fernanda Boldrin.

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Trump está de bom humor e recebe tratamento sintético de anticorpos, diz seu médico

Casa Branca informou que presidente passará alguns dias no hospital Walter Reed para tratamento e continuará trabalhando

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 17h46
Atualizado 05 de outubro de 2020 | 14h54

WASHINGTON - O presidente americano, Donald Trump, que testou positivo para o novo coronavírus nesta madrugada, chegou ao Centro Médico Walter Reed na noite desta sexta-feira, 2, onde ficará internado pelos próximos dias. O presidente, de 74 anos, apresentou sintomas leves, como cansaço e febre, informou a Casa Branca. O médico responsável afirmou que Trump está "muito bem" e recebeu uma primeira dose de Remdesivir, droga antiviral que tem sido usada em pacientes com covid-19.

Em sua primeira declaração desde que contraiu covid, Trump afirmou estar "muito bem", em um breve vídeo publicado em sua conta no Twitter antes de embarcar para o Walter Reed.

"Quero agradecer a todos pelo tremendo apoio", disse. "Vou ao hospital Walter Reed. Acho que estou muito bem. Mas vamos nos assegurar de que tudo correrá bem", explicou, afirmando que a esposa Melania, que também testou positivo, está "muito bem".

A porta-voz da Casa Branca, Kayleigh McEnany, informou que Trump continuará trabalhando. "Após a recomendação de seu médico e de especialistas, o presidente trabalhará do gabinete presidencial do hospital miltar de Walter Reed nos próximos dias", disse ela, acrescentando que ele trabalhou ao longo do dia. O gabinete é equipado para permitir que o presidente continue a desempenhar suas funções. 

Um pouco antes, o médico da Casa Branca Sean Conley explicou que o presidente estava "cansado", mas de "bom humor" e recebeu uma dose de um tratamento experimental com um coquetel sintético de anticorpos contra o coronavírus. "Ele está sendo avaliado por uma equipe de especialistas e juntos eles vão emitir suas recomendações sobre os próximos passos a serem seguidos pelo presidente e pela primeira-dama", acrescentou o médico, em comunicado.

Na noite desta sexta-feira, o médico reafirmou que Trump estava "muito bem" e que não precisava de oxigênio suplementar. Ele também disse que o presidente recebeu uma primeira dose de Remdesivir, droga antiviral intravenosa que tem demonstrado que pode diminuir o período de internação dos pacientes de covid-19

Ele também informou que a primeira-dama, Melania Trump, continua bem, com apenas uma tosse leve e dor de cabeça, e o restante da família está bem e com testes negativos para a covid-19. 

No Twitter, o presidente escreveu: "Estou indo bem, eu acho! Muito obrigado. AMOR!!!". 

Segundo o site da TV CNN, Trump apresentou febre pela manhã, citando uma fonte que não foi identificada, que esclareceu que a febre é consistente com a descrição da Casa Branca de que ele tem apresentado "sintomas leves".

Mais cedo nesta sexta-feira, o jornal The New York Times também afirmou que Trump está apresentando sintomas de covid-19, mas leves, segundo duas pessoas próximas a ele e familiarizadas com sua condição.

Trump recebe mensagens de apoio

Na manhã deste sábado, o presidente da China, Xi Jinping, desejou uma "rápida recuperação" ao presidente norte-americano e à primeira dama. O primeiro ministro do Reino Unido, Boris Jonhson, também se pronunciou nesta manhã: "Tenho certeza que Trump terá uma rápida recuperação, ele é um sujeito naturalmente resiliente".

O presidente russo, Vladimir Putin, mandou um telegrama com uma mensagem calorosa a Trump: "Estou convencido de que sua vitalidade natural, sua força de espírito e seu otimismo o ajudarão a derrotar este perigoso vírus".

O candidato democrata à Casa Branca, Joe Biden, disse que ele e a esposa rezam para uma "rápida recuperação". Mas ele também pediu que os americanos "não sejam durões" e "usem máscaras". Ex-presidente democrata, Barack Obama enviou votos de saúde. "Estamos no meio de uma batalha política neste momento (...) mas recordemos que somos todos americanos e seres humanos e queremos que todos se curem, independentemente do seu partido político", escreveu ele no Twitter.

Outras autoridades que enviaram votos de melhora a Trump foram os primeiro ministros da Índia, Narenda Modi, e de Israel, Benjamin Netanyahu; os presidentes do Egito, Abdel-Fattah el-Sissi, e da Turquia, Tayyip Erdogan; além do líder da Coréia do Norte, Kim Jong Un. /COM AFP E REUTERS

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