REUTERS/Eric Gaillard
REUTERS/Eric Gaillard

Confirmada a morte de brasileira desaparecida após atentado em Nice

Elizabeth morava na Suíça e estava na cidade a passeio com o marido, Silyan, suíço, e três filhas, que estão internados

Leonêncio Nossa, O Estado de S. Paulo

17 de julho de 2016 | 21h51

Brasília - Um exame de DNA identificou ontem o corpo da brasileira Elizabeth Cristina de Assis Ribeiro, de 30 anos, que morreu no atentado em Nice. A confirmação foi enviada ontem ao Itamaraty pelo governo francês. Outros dois brasileiros que estavam no momento do ataque continuam desaparecidos, segundo o Consulado do Brasil em Paris – eles não tiveram as identidades divulgadas. 

Carioca de Olaria, zona norte do Rio, Elizabeth morava na Suíça e estava em Nice a passeio com o marido, Silyan, suíço, e três filhas. Kayla, de 6 anos, também morreu no atentado. Djulia, de 4 anos, e Kimea, de 7 meses, foram salvas pelo pai. 

Silyan e as duas filhas estão internados no hospital da Fundação Lenval, em Nice. Segundo autoridades suíças todos estão “em estado de choque”, mas já não correm riscos.

Jean Sauterel, porta-voz da polícia de Vaud, ainda apontou que, até agora, não tem notícias sobre a mãe e afirmou que o serviço consular estava atuando ao lado dos franceses para tentar descobrir o paradeiro da brasileira. Na cidade suíça de Yverdon, onde morava a família, a notícia da morte de Kayla comoveu a população, que ontem colocou velas nos terraços da cidade para homenagear a menina. O Conselho Cantonal de Vaud (região onde fica a cidade) também emitiu um comunicado lamentando a morte.

No atentado de Nice, reivindicado pelo Estado Islâmico, o tunisiano Mohamed Lahouaiej Bouhlel, motorista do caminhão que matou 84 pessoas, contou com a ajuda de cúmplices. A revelação faz parte do avanço das investigações do Ministério Público, que ontem prendeu dois novos suspeitos e encontrou no celular de um deles uma mensagem de Bouhlel para um dos suspeitos: “Traga mais armas”. 

 A apuração também indica que o motorista tunisiano fez duas visitas ao local do crime às vésperas do feriado nacional do 14 de Julho, Dia da Bastilha, para observar o local. O avanço da investigação reforça a hipótese de que Bouhlel esteve em contato com uma célula terrorista em Nice. A cidade é, em números absolutos, a que mais forneceu jihadistas franceses para o Estado Islâmico, tanto na Síria como no Iraque – estima-se em 120 o total de moradores da cidade que se juntaram ao EI. 

Embora o tunisiano não tivesse antecedentes de religiosidade ou de atividades ligadas ao extremismo islâmico – e, por isso, não era monitorado pelos serviços secretos –, o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, afirmou que o tunisiano passou por um rápido processo de radicalização.

Outra constatação das investigações é a de que Bouhlel vinha planejando o crime que cometeu. Em mensagem, revelada pela rede BFMTV, foi enviada no dia 14, às 22h27, pouco mais de 15 minutos antes de acelerar seu caminhão de 19 toneladas contra a multidão que acompanhava os festejos, o tunisiano escreveu para um dos supostos cúmplices: “Traga mais armas. Traga e 5 a C.”

O significado da segunda parte do SMS ainda não veio a público. O destinatário da mensagem foi um dos dois preso ontem. No total, seis pessoas seguem detidas, já que a ex-mulher de Bouhlel, que foi vítima de violência conjugal durante a relação, foi liberada pela polícia por não ter vínculos com o crime ocorrido na Promenade des Anglais.

Além da provável ajuda para cometer o atentado, o tunisiano também fez vários reconhecimentos no local do ataque. O caminhão alugado, que dirigia desde 11 de julho, usado no massacre, foi identificado na mesma região nos dias 12 e 13, véspera e antevéspera do crime.

Um dos focos dos investigadores agora é entender em que meios e como se deu a radicalização rápida de Bouhlel. No intervalo de algumas semanas, o imigrante tunisiano de 31 anos abandonou o uso de álcool e haxixe, deixou de ter relações com mulheres e adotou hábitos islâmicos radicais. Essa constatação foi tirada da análise de centenas de testemunhos de parentes, vizinhos, conhecidos e colegas de trabalho do motorista ouvidos pela polícia nos últimos dias.

Enquanto as investigações avançam, em Nice, uma primeira grande missa em celebração aos mortos foi realizada ontem, ao mesmo tempo em que as homenagens continuam na Promenade des Anglais, principal via da orla de Nice – que só abrirá à circulação total hoje. 

De acordo com o último balanço do Ministério da Saúde, o número de mortos segue o mesmo – 84 pessoas, sendo 10 crianças e adolescentes. Um total de 18 pessoas ainda estão internadas em estado crítico, incluindo crianças. Outros 29 feridos estão em unidades de terapia intensiva, mas não correm mais risco. De todos os hospitalizados, apenas uma pessoa ainda não foi identificada.

No plano político francês, os opositores ampliaram ontem as críticas ao governo do socialista François Hollande. O ex-presidente Nicolas Sarkozy, líder do Partido Republicano, pediu um novo e duro aperto na legislação antiterrorista, incluindo a obrigatoriedade do uso de tornozeleira eletrônica para pessoas “em risco de radicalização”. 

Em resposta, o primeiro-ministro da França, Manuel Valls, usou o nacionalismo e o radicalismo do provável candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, para advertir sobre os excessos que comprometeriam o Estado de direito. “A resposta ao Estado Islâmico não pode ser a ‘trumpização’ dos espíritos na França”, afirmou Valls. 

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