AP Photo/Rodrigo Abd
AP Photo/Rodrigo Abd

Conflito armado na Colômbia deixou mais de 260 mil mortos em 60 anos

Estudo de órgão estatal aponta que paramilitares são responsáveis pela maioria dos homicídios, 94.754, enquanto guerrilhas teriam executado 36.683 pessoas

O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2018 | 16h41

BOGOTÁ - O conflito armado na Colômbia deixou 262.197 mortos em seis décadas, 82% deles civis, segundo um relatório oficial atualizado e divulgado nesta quinta-feira, 2.

"A grande maioria dos mortos que a guerra deixou era de membros da população civil: 215.005 civis , enquanto combatentes foram 46.813", informou o estatal Centro Nacional de Memória Histórica (CNMH).

Entre 1996 e 2004, período em que se deu a expansão paramilitar, ocorreram mais de 200 mil mortes, explicou a veículos de imprensa o sociólogo Andrés Suárez, que chefiou a investigação.

Os paramilitares de extrema direita, com 94.754 homicídios, são os principais suspeitos dos assassinatos, enquanto se atribui às guerrilhas de esquerda 36.683 mortes e aos agentes do Estado, 9.804, apontou o relatório.

Os outros assassinatos correspondem a grupos egressos da desmobilização de 2006 das milícias de extrema direita, atores não identificados e desconhecidos. "É importante reconhecer as responsabilidades de todos para reivindicar justiça e verdade", acrescentou Suárez.

O CNMH havia publicado há seis anos o primeiro relatório oficial sobre a guerra civil, denominado Basta ya (Já chega, na tradução livre), em que contabilizava 220 mil mortos entre 1958 e 2012. 

O relatório divulgado nesta quinta-feira amplia a cifra de 1958, quando se encerrou a violência entre liberais e conservadores que deixou centenas de milhares de mortos, a 2018, e integrou novas fontes, o que resultou no aumento do número de assassinatos.

As guerrilhas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Libertação Nacional (ELN) pegaram em armas em insurgência contra o Estado em 1964.

Sequestros 

O organismo revelou, ainda, novas cifras de sequestros, um dos crimes mais abominados pelos colombianos. Esse crime passou de 27.023 para 37.094 vítimas, a grande maioria pelas mãos das Farc e do ELN.

O estudo aponta, ainda, o número de menores de 18 anos recrutados por diversos grupos armados, que somam 17.804. No documento anterior havia dados de 5.156 crianças e adolescentes recrutados entre 1988 e 2012.

A entidade também documentou os casos dos chamados "falsos positivos", um eufemismo condenado internacionalmente para se referir às execuções de civis cometidas pela força pública entre 2002 e 2008, em meio ao feroz combate à guerrilha liderado pelo ex-presidente Álvaro Uribe: 2.292 casos, informou Suárez.

Mas o centro manteve em 80.514 o número de desaparecidos nos confrontos, uma cifra que quase triplica a das ditaduras como as de Brasil, Argentina e Chile no século 20 (cerca de 32,3 mil, segundo dados oficiais nesses países).

O relatório será entregue à Jurisdição Especial para a Paz (JEP), sistema de Justiça surgido do acordo que no ano passado desarmou e transformou em partido as Farc para julgar guerrilheiros e militares por crimes cometidos durante os enfrentamentos.

Também à Comissão da Verdade e à Unidade de Busca de Pessoas dadas por desaparecidas, duas entidades criadas no pacto assinado no fim de 2016 pelo governo de Juan Manuel Santos com a ex-guerrilha comunista.

O fim daquele que foi o grupo insurgente mais poderoso da América aliviou a conflagração colombiana, ao evitar no ano passado 3 mil mortes, desarmar 7 mil combatentes e reduzir os sequestros a cifras históricas.

No entanto, no território da quarta maior economia da América Latina ainda está ativo o Exército de Libertação Nacional.

O governo colombiano do presidente em fim de mandato, Juan Manuel Santos, e o ELN concluíram as negociações de paz esta semana em Cuba sem ter alcançado um cessar-fogo, deixando o futuro do processo nas mãos do presidente eleito Iván Duque, que toma posse na terça-feira.

Também há grupos criminosos de origem paramilitar e narcotraficantes, que disputam a receita obtida com o tráfico de drogas e de economias ilegais. / AFP

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.