Conflito com EUA mascara erros políticos internos

Pela primeira vez em muitos anos, a ameaça de um conflito civil voltou a se materializar na América Latina na semana passada. A falta de diálogo entre oposição e governo e a fragilidade institucional da Bolívia levou o país ao caos. E tanto o presidente boliviano, Evo Morales, quanto o venezuelano, Hugo Chávez, não tiveram dúvida sobre qual a primeira medida a tomar: antes de qualquer coisa, culpe os EUA. "Washington é usado por esses governos como um bode expiatório, é o ?inimigo externo? ao qual ambos culpam por problemas internos em seus países", disse ao Estado o analista político Gonzálo Chávez, da Universidade Católica Boliviana, comentando o fato de a Bolívia e a Venezuela terem expulsado os embaixadores americanos de seus territórios na semana passada, acusando-os de complô. "O discurso deles é que, se a oposição causa problemas, é porque está recebendo ajuda dos EUA, e não porque há medidas e políticas internas rejeitadas por parte da população."As relações com os EUA, que já estão num momento bem delicado, ameaçam piorar: em novembro, a Rússia fará exercícios militares no Caribe em parceria com a Venezuela. "É uma mensagem ao Império", disse o líder venezuelano. "Não somos mais um país solitário."Elsa Cardozo, especialista em relações internacionais da Universidade Metropolitana de Caracas, explica que as raízes do antiamericanismo na região estão ligadas a duas realidades históricas. A primeira são as intervenções dos EUA em países latino-americanos nos séculos 19 e 20, até o fim da Guerra Fria. Só entre 1900 e 1920, os americanos intervieram em 28 países. O segundo é a exploração, por multinacionais americanas, dos recursos naturais de alguns países. Nos anos 90, o antiamericanismo foi um fenômeno quase marginal, até ser recuperado por grupos e líderes políticos com discurso nacionalista, como Chávez e Evo. "Obviamente nem em todos os países o discurso antiimperialista é tão visceral, mas a verdade é que este também não é um fenômeno restrito à Venezuela e a Bolívia, ou à região", diz Cardozo. "A truculenta resposta ao 11 de Setembro, com as intervenções no Iraque e no Afeganistão, fez o sentimento antiamericano crescer em todo o mundo durante o governo Bush. Mas na América Latina, em especial, o problema foi que os EUA passaram a se concentrar em uma agenda negativa - basicamente, a guerra ao terror e ao narcotráfico."No caso de Evo, a aversão aos EUA também está ligada a sua história pessoal. Evo surgiu como líder sindical dos plantadores de coca da região do Chapare - e os EUA por muitos anos pressionaram para o governo boliviano erradicar tal cultivo como parte de sua luta contra as drogas. "Hoje não há dúvida de que o apelo do discurso anti-EUA na Bolívia tem causas muito mais emocionais que racionais", diz Gonzalo Chávez.

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