T.J. Kirkpatrick/The New York Times
T.J. Kirkpatrick/The New York Times

Conflito entre Israel e Hamas é novo teste para Biden e expõe divisões democratas 

Em conversa com Netanyahu, democrata se absteve de criticar as ações israelenses, mas um relato da conversa da Casa Branca disse que ele mencionara os distúrbios em Jerusalém

Anne Gearan e John Hudson / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2021 | 10h00

WASHINGTON - A pior onda de violência dos últimos anos entre militares israelenses e militantes do Hamas na Faixa de Gaza representa o primeiro grande desafio de política externa para o presidente Joe Biden, ao mesmo tempo em que expõe uma divisão crescente entre os democratas sobre as críticas a Israel. Ela também dá aos republicanos uma oportunidade para questionar a abordagem do presidente.

Os dias de disparos de foguetes e ataques aéreos mortais na fronteira se aproximaram da guerra total na quarta-feira, em meio a pedidos internacionais por cautela e uma enxurrada de esforços diplomáticos de Washington. A Casa Branca disse que nos últimos dias as autoridades americanas fizeram mais de 25 ligações para líderes israelenses, palestinos e árabes na região, além de outras iniciativas diplomáticas.

O esforço corre o risco de atrair os Estados Unidos exatamente para o tipo de pântano do Oriente Médio que Biden esperava evitar. Sua estratégia de política externa se baseia em uma mudança rumo ao confronto com a China e para longe da ênfase no Oriente Médio e na Europa.

Biden disse na quarta-feira que conversou com o primeiro-ministro israelense, Byniamin Netanyahu, e expressou otimismo de que o conflito terminaria rapidamente. “Minha expectativa e esperança é que tudo se encerre em breve”, disse ele na Casa Branca. “Israel tem o direito de se defender quando há milhares de foguetes voando em seu território."

O democrata se absteve de criticar as ações israelenses, mas um relato da conversa da Casa Branca disse que ele mencionara os distúrbios em Jerusalém. “Ele compartilhou sua convicção de que Jerusalém, cidade de tanta importância para as pessoas de fé de todo o mundo, deve ser um lugar de paz”, disse o comunicado da Casa Branca.

O presidente americano informou Netanyahu sobre os esforços diplomáticos dos Estados Unidos junto a vários países, entre eles Egito, Jordânia e Catar, disse o comunicado. Essas nações mantêm laços com o Hamas e podem atuar como intermediários. Os Estados Unidos consideram o Hamas um grupo terrorista e evitam o contato direto.

Outros democratas já tinham decidido apoiar a resposta militar de Israel – ou condená-la.

Israel mantém uma grande bancada de defensores ferrenhos na liderança democrata, entre eles o líder da maioria no Senado, Charles Schumer, de Nova York, o presidente da Comissão das Relações Exteriores do Senado, Robert Menendez, de New Jersey, e o líder da maioria na Câmara, Steny Hoyer, de Maryland, que enfatizaram o direito de Israel a se defender.

“A enxurrada de ataques com foguetes do Hamas é terrorismo e nenhum país deveria tolerar esse tipo de ameaça contra sua população. Esses atos flagrantes ameaçam a segurança de israelenses e palestinos”, Menendez tuitou na terça-feira.

Mas uma nova safra de parlamentares mais jovens e dispostos a desafiar a ortodoxia pró-Israel do partido pressionou o governo Biden e os líderes do Congresso, em meio a pesquisas que mostram um crescente ceticismo entre os democratas em relação às ações israelenses.

“Não podemos simplesmente condenar os foguetes disparados pelo Hamas e ignorar a violência policial sancionada pelo Estado de Israel contra os palestinos – incluindo despejos ilegais, ataques violentos a manifestantes e o assassinato de crianças palestinas”, tuitou o deputado Mark Pocan, de Wisconsin. “A ajuda dos Estados Unidos não deveria financiar essa violência”.

Sua mensagem foi retuitada pela deputada Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, que junto com as deputadas Rashida Tlaib, de Michigan, e Ilhan Omar, de Minnesota, destacou a agressão israelense no conflito de maneiras que vão além das declarações democratas convencionais culpando ambos os lados.

“Somos solidárias aos residentes palestinos de Sheikh Jarrah em Jerusalém Oriental. As forças israelenses estão expulsando as famílias de suas casas durante o Ramadã e infligindo violência”, disse Ocasio-Cortez em um tuíte no sábado, referindo-se a um bairro onde um grupo de colonos judeus está tentando despejar famílias árabes.

O confronto na área e em outras partes de Jerusalém na semana passada ajudou a desencadear a violência mais ampla, quando o Hamas começou a disparar foguetes em retaliação ao que chamou de agressão israelense. O Hamas é uma facção palestina que se separou da Autoridade Palestina e controla Gaza desde 2006. Israel bloqueou o território litorâneo por causa dos ataques de foguetes.

“Nos mais de quarenta anos que venho trabalhando nessas questões em tempo integral, nunca vi esse nível de apoio aos direitos palestinos e questionamento ao status quo”, disse James Zogby, presidente do Instituto Árabe Americano, falando do apoio da base democrata aos palestinos. “Era um problema que o governo Biden esperava evitar. Agora ele não pode mais."

A mudança de clima sobre o tema também é resultado do último ciclo eleitoral e da saída de antigos parlamentares pró-Israel.

O antigo líder democrata na Caomissão das Relações Exteriores da Câmara, Eliot Engel, foi destituído no ano passado por um candidato mais liberal, Jamaal Bowman, substituindo um parlamentar pró-Israel por um ex-diretor de escola no Bronx com menos reservas para lançar luz sobre as supostas atrocidades cometidas por forças israelenses.

Ao mesmo tempo em que condenou os ataques com foguetes do Hamas, Bowman criticou as expulsões de palestinos por Israel e os ataques aéreos em retaliação.

“Expulsar violentamente as famílias das casas em que viveram por gerações não é um ato de paz. Fazer uma demonstração de força durante um período de orações não é um ato de paz. Destruir locais sagrados não é um ato de paz”, disse Bowman em comunicado. “Os ataques com foguetes do Hamas não são um ato de paz. Os ataques aéreos do governo israelense não são um ato de paz.”

As mudanças de atitude entre os membros do Congresso sobre o conflito refletem uma transformação mais ampla entre os eleitores democratas, disseram analistas.

Uma pesquisa Gallup em março revelou que a maioria dos democratas agora assume a posição de que os Estados Unidos deveriam exercer mais pressão sobre Israel para resolver o conflito israelense-palestino. “Os 53% que optaram por mais pressão sobre os israelenses eram 43% em 2018 e não mais do que 38% na década anterior, marcando uma mudança substancial na perspectiva dos democratas sobre a política americana”, concluiu o relatório.

“O Congresso está começando a refletir as mudanças demográficas do público em relação ao problema israelense-palestino”, disse Zogby. “Estamos vendo um grupo muito mais diverso no lado democrata, que reflete o movimento da base do partido: de negros e latinos até jovens e mulheres que trabalham. Suas atitudes nas pesquisas são radicalmente diferentes das dos americanos brancos de classe média. Biden venceu por causa dessa fenda demográfica, e a questão é: será que isso vai afetar a forma como ele governa?”

Uma grande fonte de frustração para alguns democratas é o ritmo lento do governo Biden em derrubar várias políticas características da era Trump e apoiadas pelos conservadores pró-Israel. Durante a campanha, Biden prometeu reabrir o Consulado dos Estados Unidos em Jerusalém, que servia de embaixada de fato para os palestinos em Jerusalém Oriental, Cisjordânia e Gaza. Essa missão foi absorvida pela Embaixada dos Estados Unidos em Israel sob as ordens de Trump.

Trump também supervisionou o fechamento da missão diplomática da Organização para a Libertação da Palestina em Washington. Apesar da promessa de Biden de reabrir os escritórios, ambos permanecem fechados, e o presidente ainda não nomeou um embaixador em Israel, o que os críticos dizem que coloca Washington em desvantagem no gerenciamento do atual conflito.

Os republicanos, que se tornaram uma parte cada vez mais influente do apoio político americano a Israel, saltaram para defender os israelenses e denunciar os democratas. “O Partido Republicano está ao lado de Israel, uma nação que tem todo o direito de se defender contra a violência e a enxurrada de foguetes do Hamas”, disse a presidente do Comitê Nacional Republicano, Ronna McDaniel, em comunicado.

“Esses ataques provam que a liderança fraca de Biden está revertendo o progresso histórico que o governo Trump fez em direção à paz na região e sinalizando a organizações terroristas conhecidas, como o Hamas, que elas podem se safar, mesmo que estejam atacando o aliado mais forte de nossa nação no Oriente Médio. É vital que os Estados Unidos estejam com Israel e a comunidade judaica."

Nikki Haley, ex-embaixadora da ONU sob Trump e potencial candidata presidencial republicana em 2024, foi mais longe. “O Hamas viu Biden rebaixar nosso relacionamento com Israel e depois restabelecer o financiamento para a AP e a agência mais corrupta da ONU”, tuitou Haley, referindo-se à Autoridade Palestina e à agência da ONU que fornece ajuda aos palestinos. “Agora eles estão testando o presidente. Foguetes terroristas caem sobre civis israelenses, e Biden não diz nada”, escreveu Haley.

O relato do Departamento de Estado sobre a conversa do Secretário de Estado Antony Blinken com Netanyahu foi cuidadosamente redigido para destacar tanto uma tradicional oferta de apoio a Israel quanto uma medida de apoio dos Estados Unidos aos palestinos. “O secretário enfatizou a necessidade de israelenses e palestinos poderem viver em segurança e proteção, bem como desfrutar de medidas iguais de liberdade, segurança, prosperidade e democracia”, disse o comunicado.

Na quarta-feira, Blinken enfrentou repetidas perguntas de repórteres sobre o que ele faria de diferente diante do fato de que ambos os lados estão ignorando seus pedidos de redução da escalada. 

À medida que o número de mortos aumenta, Blinken disse que os Estados Unidos continuarão a fazer o que vêm fazendo, “que é se engajar em todos os níveis”. “Espero que nossa diplomacia de altos funcionários de todo o governo ajude a ter algum impacto”, disse ele na sala de imprensa do Departamento de Estado.

Os comentários mais extensos do governo Biden sobre o conflito, que vieram durante os briefings diários no Departamento de Estado, inicialmente ofereceram um apoio particularmente forte a Israel.

Na segunda-feira, o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, condenou um ataque com foguete do Hamas “nos termos mais fortes possíveis”. Quando questionado se os Estados Unidos também condenariam um ataque aéreo israelense que matou nove pessoas, entre elas três crianças palestinas, Price se recusou a fazê-lo.

No dia seguinte, entretanto, Price falou sobre o ataque israelense, observando que no momento os Estados Unidos não tinham “verificação independente do que havia acontecido”. Embora tenha evitado condenar o ataque, ele disse que, depois de ver fotos de crianças mortas, ele pôde “sentir o sofrimento”. “A perda de vidas civis nessas operações é algo que lamentamos profundamente”, disse Price.

Mas o governo ainda está longe de endossar o tipo de crítica que os parlamentares progressistas têm feito ao governo israelense. Omar, por exemplo, disse que a defesa do vice-prefeito de Jerusalém diante das expulsões de palestinos equivalia a um endosso à “limpeza étnica”. Price disse que a alegação “não era algo que nossa análise confirme”.

A escalada da violência ocorre no momento em que o governo Biden também tenta evitar o pânico sobre a escassez de gasolina após um ataque hacker a um importante gasoduto da Costa Leste e reprimir os temores de inflação.

Questionado sobre se a confluência de eventos nesta semana colocou a Casa Branca na defensiva, a secretária de imprensa Jen Psaki parecia serena. “É para isso que nós aqui fomos feitos”, disse ela na quarta-feira, acrescentando: “É preciso se preparar, estar preparado, para lidar com vários desafios, várias crises ao mesmo tempo, e é exatamente isso que estamos fazendo neste momento”./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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