Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Tensão entre EUA e China vai piorar até a eleição, diz ex-embaixador

Diplomata que representou o Brasil nos EUA diz que vê 'guerra fria' entre as duas potências como um ponto importante da campanha eleitoral de Donald Trump

Entrevista com

Rubens Ricupero, diplomata e ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2020 | 11h24

Após os Estados Unidos determinarem o fechamento do consulado chinês em Houston, no Texas, em mais um elemento da escalada de tensão vivida pelos dois países, as relações entre as potências devem piorar até as eleições de novembro. A avaliação é do diplomata e ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos Rubens Ricupero. "O episódio do fechamento do consulado é grave, mas está dentro de uma escalada da posição americana de confrontar a China cada vez mais", afirmou. 

Na terça, o governo americano acusou dois chineses de espionagem para roubar informações sobre uma vacina contra o novo coronavírus. Nas últimas semanas, o governo americano tem estudado a possibilidade de proibir viagens para membros do Partido Comunista e suas famílias aos Estados Unidos, uma medida que poderia afetar 270 milhões de pessoas. E os países também entraram em conflito por conta da lei de segurança nacional de Hong Kong. 

Para Ricupero, que também foi ministro da Fazenda e do Meio Ambiente e hoje é diretor da FAAP, a disputa com a China deve ser uma das principais plataformas da campanha para a reeleição de Donald Trump, hoje atrás do ex-vice presidente Joe Biden nas principais pesquisas. "Trump não tem outra arma tão potente como essa e vai explorá-la o máximo que puder". Abaixo, a entrevista completa. 

O que significa dos Estados Unidos ordenarem o fechamento do consulado chinês no Texas? 

Esse episódio não pode ser tomado em isolamento. Ele é grave, mas não é o mais importante. Faz parte de uma escalada da posição americana de confrontar a China cada vez mais. É preciso tomá-lo em conjunto com as declarações cada vez mais agressivas do presidente Trump, do secretário de Estado, Mike Pompeo, e de alguns discurso do vice-presidente Mike Pence.

Todas essas declaraçõestêm algo em comum: movem a política americana em direção a uma posição nova, de competição estratégica com a China em todos os setores. Isso lembra a atitude que tiveram com a União Soviética no período da Guerra Fria, embora haja diferenças. 

Que semelhanças e diferenças o senhor vê entre os dois momentos históricos?

Na época da bipolaridade, a União Soviética controlava boa parte do mundo e era o centro dos partidos comunistas mundiais. A China não tem o papel universal que a União Soviética tinha, quase como sede de uma nova religião, chamavam Moscou de 'Nova Roma'. A causa chinesa não tem esse apelo. Mas, tirando isso, em termos de confrontos bilaterais, a semelhança é muito forte. Outra semelhança é que os Estados Unidos cada vez mais exigem que os outros tomem partido. 

Qual o papel do Brasil nessa disputa? 

Essa pressão está sendo muito forte sobre o Brasil, como no episódio da Huawei e da tecnologia 5G, cujo leilão tem sido continuamente adiado. O Reino Unido recuou de sua posição inicial e resolveu proibir o uso de equipamentos da Huawei para suas redes 5G até 2027. Os ingleses admitiram que fizeram isso por pressão forte de Trump. No Brasil, o embaixador americano tem multiplicado declarações nesse sentido.

Nesta semana, o Brasil tomou parte numa luta contra a China na Organização Mundial do Comércio (OMC), dizendo que não há lugar na OMC para países que não têm economia de mercado. No comércio, sempre tivemos posições quase opostas aos americanos porque os EUA nunca reconheceram a necessidade de tratamento especial aos países em desenvolvimento - caso do Brasil. É deslavadamente um apoio à postura americana contra a China na OMC. Isso pode ter consequências graves se a China resolver responder.

Qual a relação desse discurso com a eleição dos Estados Unidos? 

Evidentemente isso tem algo a ver com a eleição. O Trump vai tornar essa questão da China a principal arma dele contra Joe Biden. Isso vai continuar e se agravar daqui a novembro. Pode ser que, caso ele não ganhe a eleição, a situação volte a uma certa normalidade. Tenho a impressão que um possível governo Biden teria armas mais diplomáticas, menos agressivas e menos contundentes do que a atual administração. Mas a competição não vai desaparecer. Ela é o normal agora. É uma disputa de vida ou morte para saber quem terá o controle da tecnologia de ponta por uma razão muito simples: quem controla a tecnologia de ponta cedo ou tarde terá a supremacia estratégico-militar. 

Além disso, é uma estratégia que toca no nacionalismo americano, certo? 

As pesquisas já mostraram que, em relação à China, a maioria da opinião pública americana é hostil. Não todos da mesma forma que os partidários de Trump, mas todos olham a China com desconfiança por uma porção de razões como as violações dos direitos dos povos muçulmanos, por exemplo. Há uma antipatia generalizada e, ao tocar nisso, ele recebe uma nota favorável do público. Seguramente Trump vai pressionar toda a hora e tocar o rival nesta matéria daqui até novembro. A disputa com a China vai agravar até as eleições e pode ser o ponto central da campanha. Trump não tem outra arma tão potente como essa e vai explorá-la o máximo que puder. 

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