Conflito fortalece curdos em busca por independência

Grupo espera que troca de premiê facilite exportação de petróleo da região semiautônoma quegoverna no norte iraquiano

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2014 | 02h04

O protagonismo dos curdos na luta contra o grupo radical sunita Estado Islâmico fortaleceu o poder dos membros da etnia dentro do Iraque e o projeto de um Curdistão independente no longo prazo, avaliam analistas e diplomatas.

Internamente, o auxílio ocidental às forças curdas (peshmergas) que combatem o Estado Islâmico e o fim do governo do ex-premiê xiita Nuri al-Maliki tornaram os curdos atores importantes no novo jogo político iraquiano. Externamente, o Irã e a Turquia já não se mostram tão refratários à etnia por razões econômicas e militares.

No mês passado, em meio ao avanço dos insurgentes no norte do Iraque, com o abandono de tropas iraquianas de pontos estratégicos, como a cidade de Kirkuk, o presidente do Curdistão iraquiano, Massud Barzani, pediu que o Parlamento da região semiautônoma organizasse um plebiscito sobre a independência, sem formalizar um prazo para a consulta.

"Os EUA e o Ocidente se alinharam com os curdos na luta contra o Estado Islâmico. Até poucos meses atrás, sabia-se que o Curdistão (iraquiano) tinha como meta a independência, mas agora esse tema está sobre a mesa", disse ao Estado o diplomata americano Peter Galbraith, que assessorou os curdos durante o processo de elaboração da Constituição iraquiana, entre 2003 e 2005. "Dificilmente o Curdistão permanecerá no Iraque depois do fim da luta com o Estado Islâmico. O Curdistão está mais perto da independência do que nunca."

O auxílio americano e europeu aos peshmergas reverteu a série de derrotas dos curdos para a milícia sunita, que avançou até as portas de Irbil, a capital da região semiautônoma. Como resultado do combate, a região recebeu milhares de refugiados que escapam dos jihadistas, principalmente minorias como yazidis e cristãos.

O governo curdo, no entanto, passa por dificuldades financeiras, já que Maliki bloqueou o repasse de verbas para o Curdistão e a região não pode exportar seu próprio petróleo. Com Maliki fora do poder, cabe ao xiita Haider al-Abadi formar um novo governo em Bagdá. Os curdos esperam dele um gabinete mais inclusivo para não romper com o governo central.

"Apesar de ele ter um histórico um pouco complicado em relação aos curdos, estamos dispostos a dar-lhe o benefício da dúvida. Um bom começo seria a liberação desses fundos", declarou a diplomata curda Bayan Sami Abdul Rahman, representante do Curdistão iraquiano na Grã-Bretanha. "Nosso principal objetivo agora é derrotar o Estado Islâmico, cuidar da crise com as minorias e nos engajar politicamente com Bagdá. Mas a independência está no horizonte."

Diplomacia. Segundo reportagem publicada na semana passada pelo Wall Street Journal, o Irã, xiita, tem auxiliado os peshmergas no combate ao Estado Islâmico. A Turquia, apesar de ser historicamente contra um Curdistão independente em razão da minoria curda em seu próprio território, vê com bons olhos a exportação de petróleo curdo via Porto de Ceyhan, que poderia abastecer a refinaria de Izmir, na costa do Mar Mediterrâneo.

Em julho, um porta-voz do partido do premiê Recep Tayyip Erdogan, eleito presidente da Turquia no dia 10, disse que a independência do Curdistão iraquiano não era "a escolha número 1" da Turquia, o que foi visto por analistas como uma mudança de tom.

"Quem importa na questão mesmo é a Turquia. Dificilmente Ancara reconheceria uma independência curda, mas como é um parceiro comercial importante, a relação não mudaria tanto", disse Galbraith. "A posição atual do governo regional curdo ainda é muito fraca porque a exportação de petróleo pela Turquia tem sido difícil", afirmou o diretor para Oriente Médio da consultoria Eurasia Group, Ayman Kamel, à agência de notícias France Presse. "Não há solução de curto prazo para os curdos encontrarem financiamento que não seja via Bagdá."

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