Adriana Carranca/Estadão
Adriana Carranca/Estadão

Conflito no Sudão do Sul expulsou um milhão de pessoas

Refugiados lotam campos antes desativados na região norte da vizinha Uganda

Adriana Carranca - Enviada Especial a Adjumani, Uganda, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2014 | 19h29

Expulsos pela violência dos conflitos étnicos deflagrados em dezembro, 320 mil sul-sudaneses se refugiam na vizinha Uganda. No total, um milhão de pessoas deixaram suas casas em 100 dias, segundo a ONU, num dos maiores êxodos da África em tão curto tempo.

Aos 75 anos, Duruca Achol está entre os milhares de refugiados que retornaram ao norte de Uganda. Os antigos campos da região, abandonados após o acordo de paz com Cartum e a sucessiva independência do Sudão do Sul, em 2011, quando 2,3 milhões de sulistas voltaram esperançosos para casa, estão de novo lotados.

Duruca tinha nove filhos da primeira vez que esteve em Uganda, mas, entre um refúgio e outro, entre uma guerra e outra, perdeu sete deles. “Três mortos nos conflitos, três de malária”, diz. Após desavenças entre soldados leais ao presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir, da etnia dinka, o contingente da etnia nuer do Exército sul-sudanês, seguidores do vice-presidente deposto Riek Machar, desertou.

Depois do que acusam ter sido um massacre promovido por Kiir contra os nueres, na periferia de Juba, em dezembro, os rebeldes marcharam para o norte expulsando e matando civis da etnia dinka de áreas estratégicas e antigos redutos como Bor, capital de Jonglei, o maior Estado do país, e as capitais petrolíferas de Betiu, em Unity e Malakal, no Alto do Nilo.

A pequena Adjumani, antes uma cidade fantasma, voltou a viver do comércio informal movimentado pelas organizações humanitárias que chegaram com a crise. É uma região que ainda tenta se recuperar de sua própria guerra. Por 20 anos, no mesmo período em que os sulistas sudaneses lutavam com o norte muçulmano, os ugandenses dessa região viviam sob o terror do fanático Joseph Kony e seu Exército da Resistência do Senhor. Ele fugiu – acredita-se estar foragido na República Centro-Africana – e os moradores aos poucos voltaram.

“Eles (os rebeldes) chegaram atirando”, diz Duruca. Um filho morreu, mas ela escapou com a filha e cinco netos. O marido morrera em 1991, na guerra com o norte. Duas décadas depois, o destino repete-se com a filha, Rebecca, viúva da nova guerra.

Num país assombrado por uma das maiores guerras da África e pelo genocídio em Darfur, a notícia dos novos conflitos se espalhou rapidamente. “A crise começou em janeiro, quando algo como 30 mil refugiados chegaram ao mesmo tempo, famintos e com sede. Houve muita confusão. Eu pensava: meu Deus, como vou arranjar água para toda essa gente?”, disse Titus Jogo, responsável pelo escritório do governo para refugiados em Uganda.

“Nós mandamos todo o mundo para um campo aberto, mas não havia nada lá. Eu lhes fiz promessas, mas não sabia se poderia cumpri-las, se a infraestrutura chegaria antes que morressem.” Era início de uma manhã de calor quando Jogo recebeu o Estado e 839 novos refugiados haviam chegado naquele dia.

O presidente de Uganda, Yoweri Museveni, aliado de Kiir, prometeu dar terras aos dinkas – 90 metros quadrados para a cada família. Também enviou tropas para proteger a estrada entre Juba, a capital, e Nimule, na fronteira, fazendo dela a principal rota para os refugiados das áreas ocupadas por rebeldes nueres.

Estratégias. O interesse de Uganda está nos US$ 450 milhões que o Sudão do Sul importa do país, principalmente em frutas e vegetais. Museveni é também inimigo político antigo de Cartum, que ensaia apoio aos rebeldes nueres.

Duruca ainda aguardava por um destino no centro de transição de Nyumanzi havia três meses. Um erro nos registros dos primeiros a chegar obrigava 10 mil pessoas a viver ali provisoriamente, quando deveriam ter ficado por apenas dois dias. A organização Médicos Sem Fronteiras instalou uma clínica no local para fazer os primeiros atendimentos. A maioria dos sul-sudaneses vive da agricultura familiar. Quando têm de abandonar suas terras, deixam para trás seus únicos meios de sobrevivência.

Duas vezes por dia, uma farinha nutritiva distribuída pelo escritório para refugiados da ONU é misturada a latões de água sobre lenha na entrada do campo e uma extensa fila de miseráveis e famintos se forma. São as únicas refeições do dia.

“Não temos água suficiente para todos e cada vez chega mais gente. A comida é dividida entre todos, quando há”, diz Andrea Kuol Wuoi, de 42 anos, que recebia 850 libras sul-sudanesas (cerca de US$ 200) por mês como soldado do Exército Popular de Libertação do Sudão, ex-grupo rebeldes que lutou pela independência do Sudão do Sul e foi alavancado a Exército regular de Kiir. Ele desistiu da luta ao ver o cunhado e melhor amigo ser morto em Bor, em dezembro.

Andrea chegou ao campo com as roupas do corpo e 22 pessoas da família, incluindo as duas mulheres e seis filhos. Pagou um mês de salário a um barqueiro, que os levou em um bote lotado de refugiados até a outra margem do Rio Nilo. De lá, seguiram a pé até Nimule em quase uma semana de caminhada. A fronteira está aberta e de Elego, a primeira cidade já do lado de Uganda, os refugiados são recebidos e encaminhados para o campo de transição de Nyumanzi. Então, são alocados para um dos três campos da região – Nyumanzi, Ayilo e Baratuku.

Um quarto campo foi aberto para a minoria nuer que chegou em Uganda – eles têm de ficar separados para evitar que o conflito étnico se alastre para o país vizinho. Outros milhares de dinkas atravessaram para a Etiópia. Pelo menos 2 mil refugiados ainda cruzam a fronteira do Sudão do Sul com Uganda todos os dias.

Em um encontro com funcionários de alto escalão do governo sul-sudanês, na quinta-feira, o secretário de Estado americano, John Kerry, ameaçou o país com sanções. No entanto, nem o presidente Kiir ou o ex-presidente Machar deram sinais de estarem dispostos a retomar negociações. Para sul-sudaneses como Duruca Achol, a paz continua sendo apenas um conceito distante.

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