Conflito reduz crescimento argentino

Estimativa inicial de 8% para este ano cai para no máximo 5%

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

18 de junho de 2008 | 00h00

O conflito que a presidente argentina, Cristina Kirchner, iniciou há quase cem dias com o setor rural está paralisando a economia. O confronto intensificou a escalada da inflação, causou desabastecimento e provocou um novo crescimento da pobreza. A classe média urbana - transformada em virtual aliada dos agricultores - está insatisfeita e demonstra sua irritação com a presidente em grandes manifestações nas ruas, com proporções que não eram vistas desde a queda do governo do ex-presidente Fernando de la Rúa, em 2001. Os economistas consideram que já é tarde para que a Argentina possa ter o chamado "soft landing" - uma redução da taxa de crescimento e da inflação sem que chegue a caracterizar-se uma recessão - e ressaltam que a melhor palavra para definir o futuro da economia do país é "incerteza".Na comunidade financeira portenha, os economistas indicam que o crescimento deste ano, previsto inicialmente para 8% do PIB, não passará de 5%. As perspectivas para o próximo ano - que apenas um mês atrás eram de que haveria um crescimento de pelo menos 6% - foram reduzidas e agora se estima que o índice ficará entre 2% e 3%. Os analistas não descartam a possibilidade de um início de recessão para o segundo semestre deste ano. Um relatório do Deutsche Bank divulgado ontem pela imprensa de Buenos Aires aponta a Argentina como "o país mais vulnerável da região". O cenário é sombrio, já que, segundo o relatório, "não há sinais de que o governo perceba que a situação é séria". O Deutsche Bank também ressalta que os argentinos põem em dúvida a permanência de Cristina no poder. O Instituto Argentino para o Desenvolvimento das Economias Regionais indicou que, entre 2003 e 2007, a economia cresceu 52,7% de forma acumulada. No entanto, ressalta que o conflito com os ruralistas está paralisando a atividade no interior e várias províncias deverão ter crescimento zero no fim deste ano. O ex-secretário argentino de Programação Econômica Miguel Bein afirma que, por causa do conflito, o país já perdeu nada menos que US$ 3,4 bilhões, o equivalente a 1% do PIB. Um relatório do banco Barclays afirma que, "com a atividade em queda, expectativas de inflação e salários crescendo, um soft landing da Argentina parece cada vez mais distante". Um documento do JP Morgan destaca a "incerteza crescente" e a "veloz deterioração das expectativas dos argentinos". Além disso, indica que o conflito com os ruralistas provoca maiores preocupações sobre as políticas governamentais de regulamentação do mercado.

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