Conflito sírio mudou de natureza, conclui análise sigilosa da ONU

Estudo preparado por mais de 50 funcionários aponta que mudança na crise abriu espaço a novas alianças regionais

Jamil Chade, Correspondente - O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2014 | 02h05

GENEBRA - Documentos internos da ONU preparados para a conferência de paz sobre a Síria que será realizada neste mês na Suíça mostram que três anos de guerra transformaram profundamente a paisagem política na região, abrindo espaço para alianças até pouco tempo impensáveis - como entre EUA e Irã.

O Estado teve acesso aos documentos, preparados por mais de 50 funcionários, sob a condição de não citar trechos inteiros, nem reproduzir mapas. O informe fala de intensificação da ação de jihadistas e de uma transformação do conflito que já matou 130 mil pessoas.

O impasse entre as potências sobre o que fazer diante da guerra abriu caminho para a instalação de grupos islâmicos. Eles, agora, não apenas enfrentam a oposição a Assad, mas também ganham terreno no Iraque.

Na Síria, as investigações da ONU apontam a existência de pelo menos cem diferentes grupos armados com tendências extremistas. Parte da batalha já não é mais feita por sírios, mas por centenas de voluntários jihadistas que chegam até da Europa para lutar pela causa.

Regiões inteiras já estão submetidas à lei islâmica, a sharia. No entanto, são os grupos ligados à rede Al-Qaeda que mais preocupam o mediador da ONU e da Liga Árabe para o conflito em território sírio, Lakhdar Brahimi.

Fontes na ONU confirmaram ao Estado que essa batalha entre grupos de oposição é hoje um dos maiores fatores de instabilidade no país. "As fronteiras mudam a cada dia", contou, em condição de anonimato, um dos enviados ONU.

Mas os islamistas sunitas não querem limitar essa ação apenas às fronteiras sírias. O front duplo do grupo Estado Islâmico do Iraque e do Levante, que atua no Iraque e na Síria, deu indícios de que a ambição do grupo é criar uma zona de controle entre os dois países.

"Em três anos, vimos a população do Líbano aumentar em 25% em razão da chegada de refugiados sírios. Só isso já seria um fator desestabilizador para a sociedade. Com o extremismo, o próprio tecido social libanês está ameaçado", disse ao Estado o ministro de Assuntos Sociais do Líbano, Wael Faour.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.