Conflitos atingem centro de Damasco e Assad usa helicópteros contra rebeldes

Os rebeldes sírios intensificaram ontem a ofensiva para tomar a capital do país. Os violentos combates, batizados de "Operação Vulcão de Damasco", obrigaram o presidente Bashar Assad a usar, pela primeira vez, helicópteros de ataque do Exército contra forças dissidentes no bairro de Qadam.

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2012 | 03h04

"A batalha pela libertação de Damasco começou. Vamos para a vitória", disse o coronel Kassem Saadeddine, porta-voz do Exército Sírio Livre (ESL). Desde domingo, a luta se intensificou em áreas antes considerada relativamente seguras. Ontem, os confrontos mais violentos foram travados em quatro bairros: Kfar Souseh, Nahr Aisha, Midan e Qadam.

Testemunhas disseram também que houve tiroteio e rajadas de metralhadora na Praça Sabaa Bahrat, região central de Damasco, onde ficam vários prédios públicos e ministérios, incluindo o Banco Central da Síria - é a primeira vez que confrontos são registrados no centro do poder do país.

"Membros das forças de segurança de Assad, armados com fuzis Kalashnikov, passaram correndo pela Praça Sabaa Bahrat", afirmou uma testemunha. A generalização da violência só corrobora a análise feita pela Cruz Vermelha, que na segunda-feira classificou o conflito como uma guerra civil.

Derrota. Segundo ativistas, o bairro Midan, no sul de Damasco, foi cercado por forças de segurança e veículos blindados, que foram incapazes de expulsar os combatentes. Moradores disseram que os oficiais de Assad posicionaram franco-atiradores nos telhados. "Há soldados por todos os lados, posso ouvir as ambulâncias", disse à Reuters um morador, que não quis se identificar. "Parece uma guerra em Damasco."

De acordo com o ativista Imad Moaz, morador da capital, a nova fase da repressão mostra que o regime está a ponto de cair. "Quando você volta seus canhões para o coração de Damasco, para Midan, você perdeu a cidade", afirmou. "Os rebeldes na rua têm o apoio de famílias em toda a cidade."

Um vídeo postado ontem na internet por dissidentes mostrava homens se escondendo atrás de sacos de areia em becos de Damasco, lançando granadas propelidas por foguetes e metralhadoras em meio a nuvens de poeira e estampidos. Os rebeldes queimaram pneus, bloquearam algumas ruas e colunas negras de fumaça se erguiam sobre a capital.

'Terroristas'. Para analistas, as forças de segurança do governo já haviam utilizado antes tanques e veículos blindados nos confrontos na capital, mas o uso de força aérea, como no caso dos helicópteros de ataque, reflete a intensidade e a seriedade da nova ofensiva dos rebeldes para derrubar Assad.

O governo disse muito pouco sobre a intensificação do conflito na capital. A TV estatal informou que as forças de Assad estavam buscando "grupos terroristas" escondidos em alguns bairros de Damasco.

A agência oficial de notícias Sana também garantiu que os soldados caçavam "elementos terroristas" que fugiram de Nahr Aisha para Midan, referindo-se aos oponentes do regime de Assad.

Armas químicas. Nawaf Fares, ex-embaixador da Síria no Iraque, que deixou de servir ao regime na semana passada, não descartou a possibilidade de Assad usar armas químicas na fase final dos combates. Segundo Fares, em entrevista à rede britânica BBC, há informações não confirmadas de que o regime sírio já teria utilizado esse tipo de armamento contra os rebeldes na cidade de Homs.

"Estou convencido de que, se o governo de Assad for encurralado pelo povo, responderá com o uso de armas químicas", afirmou Fares, o político mais graduado a abandonar o regime de Damasco desde o começo do conflito, em março do ano passado.

De acordo com ele, Assad jamais deixará o poder de maneira negociada.

"O aumento da violência em Damasco prova que a expansão e o poder da revolução está aumentando a cada dia", disse Fares, que está exilado no Catar. "A queda de Assad é agora inevitável. É absolutamente certo que o governo cairá no curto prazo." / REUTERS, AFP e AP

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