Nicholas Kamm/AFP
Trump em campanha em Manchester, New Hampshire  Nicholas Kamm/AFP

Conflitos com a marca Trump 

Estratégias erráticas adotadas muitas vezes contra conselhos de assessores têm elevado a instabilidade

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington , O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2019 | 05h05

Donald Trump foi claro durante a campanha  de 2016 ao dizer que privilegiaria o nacionalismo americano e mudaria a rota da diplomacia do país. Em  dois anos e meio, o governo americano se retirou de tratados históricos, se indispôs com aliados tradicionais como o Canadá e a Alemanha e se aproximou de regimes  autoritários como Arábia Saudita e Coreia do Norte.

“A ordem internacional já  mostrava sinais de tensão e ruptura antes de Trump assumir o cargo. No entanto, no passado, os amigos e inimigos dos EUA poderiam esperar do país a defesa dos aliados e do sistema de normas pós-2.ª Guerra. A abordagem imprevisível e desorientada do Trump para a política externa enfraqueceu o vetor de estabilidade. As consequências ficam cada vez mais evidentes, conforme os governos estrangeiros se envolvem em comportamentos provocativos, seja na proliferação nuclear, degradação ambiental ou violação dos direitos humanos”, afirma Michael Camilleri, ex-diplomata do governo de Barack Obama e  diretor do centro de estudos Rule of Law, do instituto Diálogo Interamericano.

Estratégias erráticas e tomadas no calor da emoção pelo presidente, muitas vezes em desacordo com o conselho de assessores, são apontadas como causa para mais instabilidade. Dois exemplos atuais  são a escalada de tensão com o Irã e a situação na Caxemira

“É verdade que o papel dos EUA está diferente no governo Trump do que de tem sido especialmente desde o final da Guerra Fria. O que estamos vendo no governo Trump é uma fase na qual os EUA estão recuando. Não acho que a influência americana esteja decaindo, mas que os EUA estão deixando de querer ter influência em muitas coisas, o que carrega uma série de riscos desnecessários”, afirma Fernando Cutz, ex-conselheiro da Casa Branca nos governos Obama e Trump, atualmente consultor no Cohen Group. Ele cita entre os exemplos o silêncio americano sobre violações de direitos civis em Hong Kong.

“Perdemos a credibilidade no mundo inteiro em termos de sermos vistos como esse grande líder que sempre defende direitos humanos e democracia, correndo o risco de permitir a desestabilização, de dar um passo para trás rumo a uma direção errada”, afirma Cutz.

O governo George W. Bush também viveu tensões com aliados próximos, como o estremecimento nas relações com a França diante da oposição clara dos franceses à Guerra do Iraque. Segundo Cutz, no entanto, a política de Bush não foi “nem de perto” como a Trump tem sido e os demais países julgaram os problemas existentes como um desvio de rota pontual.

Sob Trump, os Estados Unidos saíram do Acordo Climático de Paris, do acordo nuclear com o Irã, do antigo Nafta, do TPP (o acordo de países do pacífico), congelaram a reaproximação com Cuba desenhada no governo Barack Obama, esvaziaram o funcionamento de um dos órgãos da OMC e passaram se mostrar insatisfeitos com a ONU e com a Otan. No caso da Coreia do Norte, a aproximação com Kim Jong-Un, e a insistência do americano em propagandear o feito como um ato pela paz mundial, gera preocupação sobre o quanto Washington baixará a guarda diante de testes de mísseis sob coordenação do ditador norte-coreano.

Com Trump ou sem Trump na Casa Branca a partir de 2020, a reorientação da política externa americana pode já ter deixado espaço para efeitos indesejados ao redor do mundo. “Fazemos acordos de paz com Irã e Cuba, aí chega um novo time e os destrói. Fazemos acordos com aliados e depois tomamos outra direção. Os governos gostam de estabilidade, há consequências para além do tempo que Trump for o presidente”, afirma Cutz. “Os eventos mundiais provavelmente ficarão mais turbulentos no curto prazo. E, mesmo que uma derrota de Trump na eleição do próximo ano restaure um papel mais previsível dos EUA no mundo, há tendências maiores de instabilidade na governança global que durarão além de seu mandato”, afirma Camilleri.

Apenas um lado

Uma das características da nova política americana, destaca Peter Hakim, presidente do Diálogo Interamericano, é tomar um lado, em vez de tentar trazer os dois lados à mesa para negociar. Foi assim, por exemplo, quando Trump anunciou que transferiria a embaixada em Israel para Jerusalém o que, para especialistas, colocou em xeque o papel dos EUA como mediador no processo de paz da região. “Trump reforça tensões que já existem”, afirma Hakim.

A maior tensão existente hoje, afirma Hakim, é a rivalidade entre EUA e China. “Os Estados Unidos estão voltando às costas ao multilateralismo e a China está ascendendo muito rapidamente, com importante papel econômico e militar, crescente papel político, em ciência e em tecnologia. É um competidor que os EUA não possuem desde que a União Soviética colapsou”, afirma Hakim.

 

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Na Ucrânia, a mensagem é dúbia

Desde 2014, mais de 13 mil ucranianos já morreram nesse que é o mais longo conflito na Europa desde a 2.ª Guerra

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2019 | 05h00

Há mais de cinco anos, o presidente russo, Vladimir Putin, invadiu o leste Europeu e anexou a Crimeia. Europeus alinhados com o então governo Obama impuseram uma série de sanções econômicas a membros do governo e empresários russos. 

Desde 2014, mais de 13 mil ucranianos já morreram nesse que é o mais longo conflito na Europa desde a 2.ª Guerra. Segundo o professor de história e especialista em Leste Europeu da Universidade do Alabama (em Birmingham) George Liber, o presidente americano envia mensagens dúbias. 

Por um lado, explica, o Departamento de Estado, o Pentágono, a comunidade de inteligência nacional, a maioria bipartidária do Congresso e a ex-embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, manifestaram claro apoio à integridade territorial da Ucrânia. Mas Trump nunca manifestou apoio público a Kiev. “Ele acredita em grandes poderes políticos, não em princípios democráticos. Ele apoia grandes países, como a Federação Russa e a República Popular da China, em vez de Estados pequenos e fracos”, afirma Liber. 

A particularidade no caso da Ucrânia é que há mais continuidade à política de Obama do que em outros cenários, incluindo a venda de armamento militar para os independentistas em Kiev. Mas não há ações para encerrar o conflito. 

Liber, autor de vários livros sobre a Ucrânia, considera que os esforços do governo Putin para interferir nas eleições e favorecer Trump tinham como objetivo que as sanções econômicas impostas a Moscou fossem levantadas pelo republicano. Nos primeiros dias de sua administração, em 2017, Trump até tentou fazer isso, mas não conseguiu sem o apoio do Congresso. “Para Trump, seus interesses e de sua família parecem ser mais importantes do que apoiar os padrões de uma ordem internacional liberal estabelecida após 1945”.

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No Irã, o triunfo do ego sobre o interesse nacional

Tensão tem repercutido em um ponto do Oriente Médio, no Estreito de Ormuz, por onde passa ao menos um quinto do petróleo bruto do mundo todos os dias

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2019 | 05h00

Em sua campanha, Donald Trump criticou o acordo nuclear fechado entre potências internacionais, entre elas os EUA, e o Irã sobre seu programa nuclear e disse que o substituiria por um melhor. Uma vez na Casa Branca, Trump retirou os EUA do pacto, mas não apresentou alternativa. Sua estratégia, segundo o analista Aaron David Miller, era tentar encontrar razões políticas para reformar o acordo, mas acabou por subestimar o grau de resposta dos iranianos ao retorno das sanções econômicas dos EUA. 

A tensão tem repercutido em um ponto do Oriente Médio, no Estreito de Ormuz, por onde passa ao menos um quinto do petróleo bruto do mundo todos os dias. O Irã reteve petroleiros e navios de várias nacionalidades, incluindo a britânica. Este mês, Londres informou estar se juntando aos EUA na missão para proteger embarcações em Ormuz. 

Para Miller, o presidente americano está em uma posição na qual leva adiante sua palavra de renegociar ou vai à guerra para mudança de regime. No ápice das tensões, o presidente cancelou “dez minutos antes” um ataque militar ao Irã, segundo ele, após saber que ao menos 150 morreriam. O objetivo era punir o país por ter derrubado um drone americano, que Teerã alega ter invadido seu espaço aéreo. 

“Nesse momento, estamos à deriva e, se tivermos sorte, ele (Trump) evitará um confronto militar”, afirmou Miller ao Estado. Ex-analista e conselheiro do Departamento de Estado para Oriente Médio em administrações republicanas e democratas por 25 anos, Miller diz que retirar os EUA do “falho, mas funcional” pacto com Irã foi o triunfo do ego e da política doméstica sobre os interesses americanos.

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Na Caxemira, o status quo foi abalado

Conversações entre o governo Trump e a milícia Taleban no Afeganistão também contribuíram para o agravamento das tensões

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2019 | 05h00

Ao receber o primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, em seu Salão Oval no dia 22 de julho, Donald Trump disse que o premiê indiano, Narendra Modi, havia pedido sua ajuda para mediar o conflito na Caxemira. Modi, que não havia feito tal solicitação, ficou sem entender por que os EUA, principal aliado internacional da Índia, fariam agora tal oferta, uma vez que Nova Délhi sempre defendeu que a antiga disputa pelo território com o Paquistão deve ser decidida sem interferência externa. 

Islamabad, que por sua vez defende uma mediação internacional, viu que talvez a aliança não fosse tão forte assim, como descreveu Jamsheed Choksy, presidente do Departamento de Estudos da Eurásia Central da Universidade de Indiana. 

Para analistas na Índia, não houve dúvida de que a estranha declaração de Trump fez acelerar uma decisão do governo indiano de remover o status especial do território de maioria muçulmana, três semanas depois. 

As conversações entre o governo Trump e a milícia Taleban no Afeganistão também contribuíram para o agravamento das tensões. Logo após iniciadas, o governo americano disse que retiraria tropas americanas do país. Forças paquistanesas que têm combatido na fronteira com o Afeganistão, para a preocupação da Índia, agora poderão reforçar a presença militar na Caxemira.

“As administrações (americanas) anteriores tentavam encontrar um equilíbrio, garantir que a hostilidade entre paquistaneses e indianos se mantivesse baixa”, afirma Choksy.  Leia mais na entrevista com o analista aqui

 

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Na Coreia do Norte, proximidade inédita com Kim

Para analistas, imprevisibilidade da diplomacia de Trump na Ásia pode ser particularmente catastrófica para Coreia do Norte

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2019 | 05h00

O presidente americano, Donald Trump, que no começo do mandato chamava Kim Jong-un de “pequeno homem foguete”, passou a tratá-lo por “secretário Kim” em meio a dois encontros pessoais e inúmeras declarações de simpatia. 

Para Bruce Bennet, analista de Defesa do Instituto Rand, que desenvolve pesquisas para o Departamento de Defesa americano, a aproximação entre EUA e Coreia do Norte é inédita e isso levou a discussões inéditas. O problema é que essas discussões não renderam resultados concretos. 

“Os norte-coreanos não entregaram sequer uma ogiva e provavelmente aumentaram seu potencial nuclear em 50%”, diz. Depois de ameaçar Kim e mudar de ideia, trazendo-o à mesa de negociações sem conseguir compromissos significativos, alguns observadores do programa nuclear da Coreia do Norte avaliam que Pyongyang teme menos o poderio americano com Trump. 

Analistas avaliam ainda que a imprevisibilidade da diplomacia de Trump na Ásia pode ser particularmente catastrófica na Coreia do Norte por causa da China. Interessada na desnuclearização da Península Coreana, Pequim vê com desconfiança a guerra comercial de Trump e isso pode dificultar a mediação chinesa com Pyongyang.

“A prioridade da China é a estabilidade das Coreias. A China está ansiosa para resolver essa questão, mas até antes de Trump costumava deixar a pressão a cargo dos EUA”, explica Bennet. Ainda de acordo com Bennet, essa aproximação é uma resposta à guerra comercial imposta pelos EUA no último ano e a decisão americana de montar o sistema antimíssil Thaad na Coreia do Sul.

“A China tornou-se dúbia na questão coreana, porque ao mesmo tempo que teme algum ato impensado de norte-coreanos e americanos, não pode permitir a projeção americana na Península Coreana via Coreia do Sul”, explica. 

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Em Hong Kong, fala mais alto a guerra comercial com a China

Presidente americano chegou a oferecer mediação ao presidente Xi Jinping

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2019 | 05h00

Envolvida com a guerra comercial com os EUA, que tem trazido uma série de incertezas para sua economia, a China tem tido dificuldade em avaliar a reação americana na crise de Hong Kong. Donald Trump tem demonstrado pouco interesse na crise em Hong Kong e vê o impasse como um obstáculo nas negociações da guerra comercial.

Segundo Ngok Ma, professor da Universidade de Hong Kong, o território não é uma prioridade para Trump. “O Congresso tem exercido uma pressão mais importante nesse sentido que o presidente, que não tem tratado o tema como prioridade por causa da guerra comercial”, disse. 

Nas últimas semanas, Trump tratou os protestos como “distúrbios” e compartilhou material de inteligência dizendo que a China mobilizava tropas ao redor do território e ofereceu mediação ao presidente Xi Jinping. O presidente chegou a elogiar a reação de Xi Jinping nas manifestações, que chamou de “muito responsável”. O desdém pela crise em Hong Kong, especialmente a falta de interesse em criticar a repressão a manifestantes pacíficos, irritou líderes do Congresso em ambos os partidos. 

Mitch McConnel, líder republicano no Senado, qualificou um possível aumento na repressão em Hong Kong de inaceitável. Até o departamento de Estado tomou uma posição mais ativa que a de Trump na crise. Os manifestantes esperam que o Congresso aprove uma lei que obrigue Pequim a respeitar direitos humanos em Hong Kong sob risco de penas econômicas. 

Para Michael Pillsbury, do Hudson Institute, Trump vê violações de direitos humanos como uma distração para seu foco na relação econômica com Pequim. “O foco do presidente é alterar o modelo econômico chinês”, disse. De acordo com Thomas Wright, do Instituto Brookings, a atitude de Trump em relação a Hong Kong é arriscada. “Ele dá sinal verde para Pequim e nas entrelinhas diz que a questão é puramente interna”, afirmou.

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Em Taiwan, venda de armas acirrou tensão com Pequim

Para Pequim, venda é uma ameaça à integridade territorial do país, que considera Taiwan uma província rebelde

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2019 | 05h00

A região da Ásia na qual o presidente americano, Donald Trump, mais provocou desconforto com a China aparenta uma certa tranquilidade: Taiwan. Em 2017, no primeiro ano de Trump, os EUA venderam mais de US$ 1,4 bilhão em armas para Taiwan em mísseis e sistemas antiaéreos. No ano seguinte, foram mais US$ 300 milhões em peças de reposição. Em 2019, a administração negociava um novo pacote de US$ 2,2 bilhões que inclui a venda de caças F-16.

A China disse que a venda é uma ameaça à integridade territorial do país, que considera Taiwan uma província rebelde. Apoiados por Bolton, os EUA autorizaram operações para “garantir a liberdade de navegação” no Mar do Sul da China, em outra manobra que irritou os chineses.

A aproximação com Taiwan foi possível graças à eleição de Tsai Ing-wen para a presidência, em 2016. Crítica de elos mais profundos com o continente, ela buscou uma relação mais próxima com os EUA, numa mudança da política de Washington na gestão de Barack Obama de evitar tensões desnecessárias com os chineses.

Logo após ter sido eleito, em dezembro de 2016, Trump irritou os chineses ao conversar pelo telefone com Tsai. Desde a retomada de relações entre Washington e Pequim, ambos se pautam pelo princípio de uma só China, pelo qual os americanos não reconhecem Taiwan, apesar de apoiar o território geopoliticamente.

“Taiwan usou o fato de Trump ver a China como um rival em potencial para se aproximar”, disse Wang Kung-yi, da Universidade de Cultura Chinesa de Taipé ao South China Morning Post.

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