Conflitos moldam sonhos de afegãos

Nova geração nutre desejo de servir e ajudar o país, ao mesmo tempo em que testa os limites do conservadorismo islâmico

CLÁUDIA TREVISAN , ENVIADA ESPECIAL/ CABUL, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2014 | 02h03

Os Beatles são uma das bandas prediletas de Mohamed Salman, que também gosta de Bob Dylan e sonha em criar um novo tipo de música que una a tradição de seu país à batida pop. Com calça jeans, camisa polo, discreto cavanhaque e elaborado topete, o estudante de 20 anos passaria por "moderno" em qualquer cidade ocidental, mas ele vive em Cabul, capital do Afeganistão.

Salman integra a elite jovem que testa os limites do conservadorismo islâmico e está conectada por meio de redes sociais, em especial o Facebook. Durante um ano, ele namorou uma colega da Universidade de Cabul, onde está no terceiro semestre da Academia de Música.

O relacionamento terminou há dois meses e ocorreu de maneira clandestina. Namorar ainda é tabu no Afeganistão, onde a maioria dos casamentos são arranjados pelas famílias. Manifestações de afeto em público entre pessoas de sexo oposto são proibidas. Sexo fora do casamento é condenado.

"Nos últimos 13 anos, as coisas mudaram muito e as oportunidades para os jovens aumentaram. Mas ainda não é o suficiente", disse Salman ao Estado, na Universidade de Cabul.

Marginalizadas entre 1996 e 2001, durante o regime do Taleban, e ainda proscritas de grande parte da vida econômica, política e religiosa do país, as mulheres também pressionam por transformações. "Essa ainda é uma sociedade muito tradicional e dominada pelos homens", afirmou Feiroze Iskhalas, estudante de Literatura turca.

Com véu preto e vestido pink longo sobre calça preta, a estudante de 23 anos avaliou que houve avanços nas grandes cidades. Mas lembrou que na zona rural não são raros os casos de violência nos quais mulheres são queimadas, espancadas ou mortas em crimes de honra.

Sua colega de classe Adiba Osmari, de 19 anos, é a personificação fashion dentro do código que obriga as mulheres a cobrirem braços, pernas e cabeça: tênis colorido, calça preta justa, blusa de listras azuis acinturada e um xale enrolado de maneira displicente. Seu projeto de vida é trabalhar na Embaixada da Turquia depois de se formar, daqui a dois anos.

Arezu Jamshidi, também de 19 anos, usa a internet para acompanhar o noticiário, é fã da BBC e tece comentários sobre a política e a economia afegãs. "Se não houver um acordo político em breve, o país vai mergulhar no caos", disse Jamshidi, sobre o impasse que cerca a escolha do próximo presidente. A estudante usava vestido e calça jeans e véu azul marinho. Nos pés, tênis rosa com tachas douradas.

O guarda-roupa das três pode parecer conservador, mas é transgressor quando comparado à burca que imperou no regime do Taleban e ainda é usada por muitas mulheres no país.

Estudante de Jornalismo, Manizha Zahary, de 18 anos, quer escrever livros que inspirem as afegãs a serem bem sucedidas e mostrem que elas também podem ser boas escritoras.

Mais nova de dois irmãos e sete irmãs, Halima Mohammady, de 17 anos, foi a primeira a ir à universidade. Como muitos jovens, seus sonhos são moldados pelas três décadas e meia de conflito vividas pelo Afeganistão desde 1979, que nutrem um desejo indefinido de "servir" e "ajudar" o seu país.

Apesar dos sonhos, o Afeganistão está longe de ser um lugar promissor para os jovens. Edirs Hamdard, de 21 anos, estava na quinta-feira em contagem regressiva para tomar um avião para a Califórnia. Com um visto de imigrante para os EUA, ele disse que pretendia fugir da insegurança e da falta de perspectiva econômica de seu país."A vida aqui é muito difícil."

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