Confronto entre premier e presidente agrava crise no Timor

Pelo menos 2 mil manifestantes se concentraram nesta sexta-feira no centro de Díli, capital do Timor Leste, para protestar contra o primeiro-ministro Mari Alkatari, a quem culpam pela atual crise. Eles também pedem ao presidente Xanana Gusmão que não deixe a Presidência. Alkatiri se nega a renunciar ao cargo. Ele garante que nunca tentou criar um esquadrão secreto armado para eliminar seus rivais. O duelo entre o presidente e o primeiro-ministro pode criar uma nova onda de violência na capital, patrulhada por um contingente de mais de 2 mil militares e policiais da Austrália, Nova Zelândia, Malásia e Portugal. A sede do governo e o Parlamento do Timor Leste foram cercados pelos manifestantes. As forças de paz australianas montaram um cordão de isolamento em torno dos dois prédios. Os manifestantes chegaram em ônibus e caminhões, muitos vindo dos arredores da capital. Diante do palácio do governo, gritaram palavras de ordem contra o primeiro-ministro, a quem acusaram de "criminoso e terrorista", informou a agência australiana AAP. O presidente Gusmão se reuniu nesta sexta com o líder da oposição, Mario Carrascalão; com o ministro da Defesa e Relações Exteriores, José Ramos Horta; e com o representante especial do secretário-geral da ONU no país, Sukehiro Hasegawa. Os três pediram a ele que não abandone seu cargo. O bispo Alberto Ricardo da Silva disse que Gusmão tinha prometido reconsiderar a situação. Mas não tinha certeza se retiraria sua ameaça de renúncia. Na terça-feira, Gusmão escreveu uma carta ao primeiro-ministro pedindo que ele deixasse seu cargo. O motivo foi a denúncia, divulgada pela televisão australiana, de que o ex-ministro do Interior Rogério Lobato armou um grupo de civis, cumprindo ordens do próprio primeiro-ministro, que queria eliminar os seus rivais políticos. Fome ameaçaA opinião pública timorense culpa Alkatiri pela onda de violência em Díli. A crise começou com a dispensa de cerca de 600 militares que exigiam o fim da discriminação étnica. Cerca de 30 pessoas morreram nos confrontos nas ruas de Díli. Outras 100 mil pessoas fugiram de suas casas. A maioria permanece em campos de refugiados e em locais considerados seguros, como igrejas e seminários católicos. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU disse na quinta-feira que dezenas de milhares de pessoas deslocadas precisam urgentemente de comida. A situação é difícil até para as famílias que optaram por ficar em suas casas, pois os mercados e outros centros de abastecimento de Díli estão fechados. Os incidentes dos últimos meses são os mais graves na ilha desde que, em 1999, as milícias pró-Indonésia lançaram uma campanha de destruição depois da vitória no plebiscito onde o país optou pela independência. A ex-colônia portuguesa se tornou um país independente em 2002, mas nasceu como um dos países mais pobres do mundo após a traumática ocupação indonésia (1975-1999).

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