Darren Whiteside/Reuters
Darren Whiteside/Reuters

Confrontos com militares espalham-se pela Cisjordânia

Palestinos reagem ao bloqueio da passagem do campo de refugiados de Calândia até Ramallah

Guilherme Russo, enviado especial

21 Setembro 2011 | 21h50

CALÂNDIA - Centenas de palestinos entraram em confronto com as forças de segurança israelenses na quarta-feira, 21, em diversos pontos da Cisjordânia. Atirando pedras contra os soldados, queimando pneus e lixo pelas ruas, os árabes expressaram sua insatisfação contra o veto americano ao reconhecimento do Estado palestino nas Nações Unidas. Dezenas ficaram feridos durante os protestos, que duraram o dia inteiro.

 

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Uma coluna de fumaça negra alertava quem ia de Jerusalém Oriental a Ramallah sobre o intenso conflito ocorria no campo de refugiados de Calândia, uma das principais portas de entrada da cidade que serve de capital para a Autoridade Palestina (AP). Dentro de Ramallah, porém, uma manifestação pacífica ocorria nas ruas do centro da cidade.

 

Na Rua Calândia, por onde se estende o muro que cerca o campo de refugiados palestinos, barricadas de pneus, móveis e lixo queimados interditavam a via na direção de Israel.

 

Cerca de 300 manifestantes palestinos atiravam pedras contra os soldados israelenses. A resposta vinha em bombas de gás lacrimogêneo, granadas de efeito moral e balas de borracha - que, segundo o Estado apurou, eram recheadas de material metálico. Segundo o Crescente Vermelho, que manteve inúmeras ambulâncias para o socorro aos palestinos, aproximadamente 30 pessoas ficaram feridas por causa dos disparos dos militares israelenses.

 

Um policial israelense ficou ferido ao ser atingido por uma tábua crivada de pregos lançada sobre sua cabeça. Pelo menos quatro palestinos foram presos durante o protesto em Calândia. As autoridades de Israel usaram ainda canhões de som, que emitiam um estridente e altíssimo ruído, para tentar dispersar a manifestação.

 

Testemunhas disseram que o confronto começou no início da manhã, quando o Exército de Israel fechou o acesso a Ramallah pelo campo de refugiados. Segundo os relatos, centenas de palestinos de outras partes do território com intenção de participar da manifestação pacífica no centro de Ramallah foram impedidos de passar e os habitantes de Calândia revoltaram-se contra o bloqueio. Segundo a polícia de fronteira israelense, porém, "o posto de controle ficou aberto o tempo todo".

 

"Queremos é chutar os israelenses para fora daqui. Eles estupram a nossa terra. Apoiamos o presidente Mahmoud Abbas em sua iniciativa (na ONU). A Palestina tem de ser livre", afirmou Haadi, de 18 anos, contando que deixou a prisão há seis meses, depois de passar mais de um ano preso por participar de protestos como os de ontem.

 

"Queremos um Estado pacífico, mas a libertação da Palestina tem de ocorrer. Vivemos em uma prisão. O sofrimento é constante. Não aceitamos os judeus. Vamos expulsar todos os israelenses daqui", afirmou o comerciante Ahmed, de 20 anos.

 

Constantemente, os manifestantes pediam aos jornalistas que acompanhavam o confronto para não mostrarem seus rostos nem serem identificados pelo nome completo.

 

Durante a tarde, o confronto intensificou-se. "Usamos as balas de borracha nos principais instigadores", afirmou um soldado que não quis se identificar. Os militares portavam ainda fuzis M-16, que eram apontados constantemente para os manifestantes. Após os militantes terem estourado fogos de artifício entre as barricadas de pneus e móveis velhos, uma intensa gritaria se iniciou, enquanto uma van amarela, semelhante a um táxi coletivo, aproximou-se vinda do lado israelense. Em meio a uma chuva de pedras, agentes à paisana desceram do veículo e arrastaram os manifestantes mais exaltados o veículo. "São as forças especiais. Eles se vestem como árabes e chegam nesses táxis grandes para nos prender", explicou um palestino pouco depois.

 

Enquanto paramédicos do Crescente Vermelho atendiam dois feridos, bombas de efeito moral começaram a explodir perto da ambulância. Os voluntários carregavam as vítimas nas costas e o som do canto do muezin, que convocava os muçulmanos para as orações da tarde, se apagava em meio à confusão.

 

Os canhões de som não paravam de soar. "Esse é o maior problema. Com esse barulho, não conseguimos escutar quando manifestantes feridos nos chamam", contou Asma Abu Mayele, voluntária do Crescente Vermelho. Ela disse que, dois dos feridos mais graves foram atingidos por latas de gás lacrimogêneo na cabeça e nos olhos.

 

Quando a situação parecia começar a acalmar-se, outros dois manifestantes foram atingidos pelos disparos dos israelenses. A estridente sirene voltou a soar e houve uma grande correria. Uma van semelhante à usada pelos agentes à paisana foi cercada pelos manifestantes, mas nenhum israelense foi encontrado no veículo. Os protestos acabaram no início da noite.

 

Mais confrontos

 

Durante outra manifestação, a leste de Hebron, também na Cisjordânia, cerca de 200 palestinos apedrejaram forças de segurança israelense, relatou a imprensa local. Um bebê israelense de 16 meses foi atingido por uma pedra na cabeça e sofreu ferimentos leves, de acordo com fontes de Israel.

 

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