EFE
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Confrontos deixam dezenas de mortos e lotam hospitais no Egito

EUA dizem que o país retrocede na redemocratização e analistas avaliam que a Irmandade Muçulmana sofre campanha de descrédito dos militares

Luiz Raatz, de O Estado de S. Paulo

27 de julho de 2013 | 12h48

Texto atualizado às 21h45

 

Confrontos entre militares e manifestantes egípcios que pediam a volta do presidente deposto Mohamed Morsi deixaram pelo menos 72 mortos neste sábado, 27, no Egito. A onda de violência começou depois do indiciamento de Morsi na sexta-feira pela Justiça - em sua maioria nomeada ainda na ditadura militar de Hosni Mubarak - e do pedido de um "mandato para acabar com o terrorismo" feito pelo chefe do Exército egípcio, Abdel Fattah al-Sisi.

 

Enquanto o secretário de Estado americano, John Kerry, disse estar "profundamente preocupado" com o "derramamento de sangue" no Egito e que o país retrocede em seu processo de democratização, analistas veem sinais de que as Forças Armadas articulam uma campanha de descrédito da Irmandade Muçulmana, grupo que levou Morsi ao poder.

 

"O Exército não tem a legitimidade para voltar a governar. A transição (da junta militar para o governo da Irmandade) foi muito ruim e as pessoas estavam irritadas com eles. Decidiram ficar no banco de trás, mas dizer ao motorista (o governo civil interino) qual caminho seguir", disse ao Estado Mohamed al-Dashan, professor da Universidade Ain-Shams, no Cairo. "Os dois lados estão muito polarizados e a Irmandade mantém seus partidários na rua como forma de pressão."

 

No entanto, a rota traçada pelo Exército, segundo Dashan, não inclui o grupo islâmico. "O melhor cenário seria um gabinete de transição em que todos os partidos sentassem e encontrassem um acordo. A economia está ruim e precisamos de um governo que faça reformas muito custosas, mas isso não vai ocorrer", acrescenta. "O Exército esperava violência para poder intervir (contra a Irmandade)."

 

Para Bessma Momani, professora de ciência política na Universidade de Waterloo, no Canadá, o Exército aposta em uma campanha de desqualificação do Islã político no Egito. "Os militares estão vilanizando e criminalizando a Irmandade, garantindo que veículos de imprensa simpáticos a ela sejam banidos e promovendo uma campanha patriótica contra ‘elementos terroristas’", afirma. "O quanto será bem-sucedida ainda não se sabe, mas muitos egípcios parecem estar aliviados com isso."

Durante a ditadura militar egípcia, entre 1954 e 2011, a Irmandade Muçulmana permaneceu banida da vida política do país, ainda que sua mobilização fosse tolerada. Com a queda de Mubarak, o grupo - o mais articulado do país depois dos militares - venceu as eleições de 2012 e chegou ao poder. Um crescente viés islâmico do governo e, principalmente, o manejo ineficaz da economia levaram milhões de pessoas às ruas em 30 de junho para protestar contra Morsi.

 

"Os protestos, antes de tudo, tiveram uma motivação econômica. Morsi não estava conduzindo bem a economia. O turismo, que emprega 11% da população, ainda não se recuperou da queda que teve em 2011, com os protestos contra Mubarak. A inflação é alta e o PIB cresce pouco", afirma o professor egípcio. "Por isso, os militares apostaram em um governo tecnocrata para melhorar a economia e impedir novos protestos."

 

(Com agências internacionais)

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