Confrontos em La Paz dão lugar a uma tensa espera

Os confrontos entre manifestantes e as forças de segurança deram lugar, nesta terça-feira, em La Paz, a uma tensa espera, enquanto o presidente Gonzalo Sánchez de Lozada negociava uma saída política com seus aliados no governo de coalizão. O cenário na capital administrativa do país era de campo de batalha, com barricadas erguidas nas ruas e veículos blindados patrulhando asestradas. Mas, depois das 27 mortes na segunda-feira, não houve confrontos. Em outras cidades do país, ocorreram violentos choques. Não foram noticiadas mortes.O líder da Nova Força Republicana (NFR), Manfred Reyes Villa, que participa da base de sustentação do governo, reuniu-se com Sánchez de Lozada, mas adiou para esta quarta-feira a decisão sobre se retirará ou não o apoio ao presidente, cuja renúncia é exigida pelos manifestantes.?Temos de ponderar se a manutenção da democracia passa ou não pela renúncia?, disse Reyes, ao sair do encontro na residência presidencial. Reyes, que retornou nesta terça dos EUA, adiou para quarta a decisão se retirará ou não o apoio ao presidente, quando tem nova reunião com Lozada, marcada para as 9h locais (10h em Brasília).A NFR tem três ministros. Seu afastamento chegou a ser anunciado na segunda-feira por dirigentes do partido, mas a informação não foi confirmada. As negociações entre o presidente e Reyes incluem mudanças na Constituição e na legislação sobre a exploração do gás natural e do petróleo. Reyes propôs ao presidente a convocação de referendo para decidir sobre a exportação de gás. O estopim da crise foi a decisão do governo de utilizar o porto chileno de Iquique para a exportação de gás natural para os EUA e o México. O principal dirigente da oposição, o líder cocaleiro Evo Morales, incitou a maioria indígena do país a um levante contra o governo, explorando os ressentimentos dos bolivianos contra os chilenos, que em 1883 derrotaram a Bolívianuma guerra, tirando-lhe o acesso ao mar. Sánchez de Lozada suspendeu as exportações e aceitou submetê-las a ?mais debate?.O líder do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), Jaime Paz Zamora, mantém o apoio ao presidente, apesar de Jorge Torres, que pertence ao partido e chefiava o Ministério do Desenvolvimento, ter-se demitido na segunda-feira. Segundo Paz Zamora, manter-se na coalizão agora é uma questão de ?responsabilidade?, embora ele tenha acusado o presidente de não cumprir o programa de governo em torno do qual se formou a coalizão.Evo Morales, líder do Movimento ao Socialismo (MAS), impôs condições para que o vice-presidente Carlos Mesa, que retirou o apoio a Sánchez de Lozada na segunda-feira, assuma a presidência. Para tanto, segundo o líder indígena, Mesa terá de assumir o compromisso de não exportar gás e de convocar uma Constituinte. ?Prefiro que a sucessão constitucional seja consensuadacom os movimentos sociais que estão em luta, mas seria um erro nesse momento adiantar quem seria o presidente?, afirmou Morales, segundo colocado na eleição presidencial de junho do ano passado. Ele reiterou também que não haverá diálogo se opresidente não renunciar.O líder indígena acusou o presidente de ?comprar? o apoio das Forças Armadas: segundo ele, ?sacos de dinheiro? teriam sido entregues a oficiais no quartel-general do Exército. Em seu pronunciamento à nação na segunda-feira, no qual denunciou uma ?conspiração subversiva para instaurar uma ditadura sindicalista no país?, Sánchez de Lozada apareceu ao lado dos comandantesmilitares, assegurando que tinha seu apoio irrestrito. Entretanto, o comandante das Forças Armadas, general Roberto Claros, fez nesta terça uma intrigante declaração à TV boliviana: ?Não apóio o presidente como pessoa, mas sim sua investidura.?O prefeito de La Paz, Juan del Granado, juntou-se aos políticos que pedem a renúncia do presidente. ?A democracia boliviana vai muitoalém da pessoa de Sánchez de Lozada?, disse o prefeito, pertencente ao partido Movimento Sem Medo. Del Granado propôs uma ?saída constitucional em torno do vice-presidente da República? e um ?governo de unidade nacional?.Uma delegação da Organização dos Estados Americanos chegou a La Paz para tentar mediar uma saída política para a crise. ?O governo manifestou total abertura para encontrar uma solução negociada?, assegurou um porta-voz da delegação, depois de se reunir com o presidente. ?Esperamos encontrar o mesmo clima entre os dirigentes das organizações sociais.?

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