Confrontos matam 9 e ferem centenas dois anos após levante contra Mubarak

Tensão no Egito. Milhares de pessoas voltaram a ocupar a Praça Tahrir, no centro do Cairo, desta vez para pedir a queda do presidente Morsi, da Irmandade Muçulmana; escritórios da organização islâmica são incendiados nas 4 maiores cidades egípcias

CAIRO, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2013 | 02h01

Batalhas de rua em várias cidades do Egito marcaram ontem o segundo aniversário do início dos protestos que levaram à deposição do ditador Hosni Mubarak. Segundo fontes oficiais, 379 pessoas, entre civis e policiais, ficaram feridas nos confrontos, que se espalharam por Cairo, Alexandria e Port Said. Segundo a agência EFE, nove pessoas morreram, entre elas um adolescente, em Suez, para onde as Forças Armadas enviaram tropas para conter a violência.

Milhares de pessoas retornaram à Praça Tahrir, no coração da capital egípcia, em cenas semelhantes às do levante de dois anos atrás. Desta vez, o alvo dos protestos não era Mubarak, mas o presidente eleito em julho, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana. Em dois anos, o espírito de unidade entre os grupos que se opunham à ditadura deu lugar a uma violenta cisão entre religiosos islâmicos e grupos laicos e cristãos. Com cartazes e palavras de ordem, manifestantes acusavam ontem na Praça Tahrir a Irmandade de ter "sequestrado a revolução" de 2011. Alguns dos gritos da multidão eram os mesmos de dois anos atrás: "O povo quer derrubar o regime!" e "Vá embora! Vá embora!".

A facção muçulmana, por sua vez, desistiu de sair às ruas, dizendo que desejava evitar choques entre seus partidários e opositores. Em vez das marchas, a Irmandade organizou uma grande coleta de doações para programas de caridade - principal fonte de prestígio do grupo.

Morsi pediu ontem aos egípcios que rejeitem a violência e se manifestem de forma pacífica. Escritórios da Irmandade nas quatro maiores cidades do Egito foram ontem alvo de bombas incendiárias. Ataques semelhantes ocorreram há menos de dois meses, quando grupos laicos se insurgiram contra decretos de Morsi que o tornam praticamente imune ao Judiciário.

O presidente e seus partidários, porém, negam estar tentando colocar o Egito no rumo de um Estado islâmico contrário aos princípios democráticos. No jornal estatal Al-Ahram, o líder da Irmandade, Mohamed Badie, pregou medidas contra a corrupção e disse que a tensão entre facções é "normal em países que passam por transições na direção da democracia".

"Certamente há uma tensão nas ruas, mas por enquanto não houve nada fora do esperado ou capaz de realmente alterar as bases da atual situação política", disse à Reuters Shadi Hamid, analista egípcio do Instituto Brookings.

Gás lacrimogêneo. Os piores confrontos de ontem na capital ocorreram em uma avenida que liga a Praça Tahrir a prédios do governo. Desde o levante de 2011, a via é bloqueada por um muro, mas manifestantes tentaram avançar sobre a barreira, atirando pedras e disparando rojões contra policiais. As forças de segurança respondiam com bombas de gás lacrimogêneo, disparos de borracha e canhões d'água.

Repórteres da Reuters viram policiais atirando uma bomba incendiária contra uma tenda dos manifestantes. Em meio à batalha no centro do Cairo, ambulâncias transportavam feridos dos dois lados. O palácio presidencial, no Cairo, também foi palco de confrontos. Manifestantes tentaram retirar o arame farpado que isolava o local, quando a polícia interveio com violência. Em Suez e Alexandria, manifestantes anti-governo também enfrentaram a polícia com pedras.

"A revolução continua. Rejeitamos a dominação de qualquer partido sobre o Estado. Dizemos 'não' a um Estado da Irmandade Muçulmana", disse Hamdeen Sabahy, popular líder de esquerda e candidato derrotado à presidência. Mohamed Fahmy, conhecido ativista, disse que, dois anos após o fim do regime dos generais, não há motivos para comemorar. "Não estamos aqui para fazer festa, mas para forçar aqueles que estão no poder a se submeter à vontade popular. O Egito de hoje não pode ser como o Egito de Mubarak." / REUTERS, EFE e AFP

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