Confrontos matam pelo menos 30 sudaneses

Combates entre militantes tribais e a polícia teriam deixado outros 30 feridos em Abyei, região onde ficam localizados vários poços de petróleo

, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2011 | 00h00

O comando militar do Sudão do Sul informou ontem que pelo menos 20 policiais de Abyei, onde estão localizados vários poços de petróleo, foram mortos desde domingo, após o início do referendo a respeito da independência da região. A informação, porém, não foi confirmada. Segundo os misseryias, muçulmanos que originalmente disputavam o direito de criar gado na região, dez de seus militantes teriam morrido nesses confrontos.

Observadores internacionais temem que o impasse político na região cause mais distúrbios violentos. Desde o acordo de paz que acabou com duas décadas de guerra civil no país, em 2005, e determinou o referendo, Abyei é vista como uma região de disputa, pois é reivindicada pelo sul e pelo norte.

A votação que decidiria a qual país a área pertence foi marcada, mas acabou suspensa e as negociações entre os dois lados progrediram pouco desde então. Segundo o coronel Philip Aguer, porta-voz das forças militares que atuam no Sudão do Sul, os misseryias atacaram um vilarejo de Abyei no domingo com artilharia pesada. Além dos 20 mortos, outros 30 policiais da região teriam ficado feridos nos confrontos.

O coronel afirmou que combatentes das Forças de Defesa Popular, milícia que já foi apoiada por Cartum e cuja existência foi banida no acordo de paz de 2005, lutaram ao lado dos militantes tribais. Aguer acredita que o suposto ataque foi planejado.

Seminômades e criadores de gado, os misseryias atravessam a região de Abyei frequentemente com seus rebanhos. "Eles não estavam com gado, vieram para um ataque", afirmou Aguer, contando que os militantes estavam acompanhados de combatentes uniformizados, supostamente da milícia.

Contradizendo o militar, o líder misseryia, Bashtal Mohammed Salem, afirmou que seu grupo foi o atacado. "Eles querem nos manter fora da área e declarar a independência unilateralmente", disse, se referindo à polícia e aos militares que atuam no Sudão do Sul. De acordo com Salem, os dez mortos eram pastores.

Segundo relatos de testemunhas, os conflitos em Abyei vêm ocorrendo desde o sábado. Um funcionário da ONU declarou que o governo da região pediu ajuda para o deslocamento de policiais feridos. O funcionário, no entanto, não pôde se identificar, pois a informação não foi divulgada oficialmente.

Amanhã, reuniões entre os ministros do Interior do norte e do sul deverão determinar como será a atuação da polícia na região. Os governos vizinhos não comentaram os confrontos ou as mortes.

O referendo no Sudão está previsto para ter uma semana de duração. No segundo dia da votação, o clima não foi tão pesado como no primeiro, segundo informou a BBC.

No vilarejo de Kotobi, muitos dos cidadãos em fila para votar contavam que estavam ali no lugar de amigos e parentes mortos nos frequentes conflitos que atingiram o país nos últimos anos.

Sobrevivência. Semana passada, o presidente do Sudão, Omar al-Bashir, declarou que irá respeitar a autonomia do sul caso o referendo decida por sua independência. Ele expressou, porém, preocupação a respeito de como a nova nação sobreviverá. Cerca de 120 mil cidadãos originários do sul teriam deixado Cartum para retornar a suas cidades nas últimas semanas. /AP

PARA ENTENDER

O Sudão é a maior nação da África e do mundo árabe. Desde 1955, o país enfrentou duas guerras civis entre o norte, de maioria muçulmana, e o sul cristão e multirreligioso. Em 2005, porém, um acordo de paz acabou com os conflitos. Para pôr fim ao impasse, o tratado determinou que um referendo determinasse a independência da região e a formação de um novo Estado. Outra votação do tipo seria feita na disputada região de Abyei, rica em petróleo, mas a ideia foi abandonada.

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