Confrontos na Síria causam temores de uma divisão sectária mais profunda

Ocupação violenta acirra a tensão entre maioria sunita e alauita, à qual pertence o Assad

Anthony Shadid, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2011 | 00h00

THE NEW YORK TIMES / BEIRUTE

A violenta ocupação por tropas do governo da cidade de Jisr al-Shughour, no norte da Síria, acirrou uma das tensões sectárias mais explosivas do país: a relação entre a maioria muçulmana sunita e a seita minoritária alauita, à qual pertence a família do presidente Bashar Assad.

As queixas vêm de refugiados, moradores e ativistas, que sugerem um aprofundamento das hostilidades num país onde o medo da guerra civil é real e usado como pretexto para reprimir dissidências. A Síria é uma mistura volátil de sunitas, alauitas, cristãos, curdos e outras etnias que vivem no mesmo território, mas com o poder político desproporcionalmente concentrado nas mãos da elite alauita.

Jisr al-Shughour, onde o governo usou tanques e helicópteros para esmagar o que chamou de "gangues terroristas armadas", tem um panorama tão complexo quanto o de qualquer outro local na Síria. É uma cidade sunita, com um vilarejo alauita a 1 quilômetro de distância, entremeadas por assentamentos cristãos.

Um sunita da região disse ter recebido uma mensagem de texto de um amigo alauita questionando se sua família estava bem. "Minhas duas irmãs e um bebê foram mortos", respondeu o morador, que se apresentou como Mohamed.

Alguns acusam vizinhos alauitas de tomar parte na repressão. Os alauitas temem que os sunitas estejam por trás da revolta em Jisr al-Shughour. "Tenho medo de que o país seja arrastado para um confronto sectário", disse Aqsam Naisi, advogado e ativista alauita de Damasco.

Divisão sectária. A perspectiva também alarma os EUA e é a razão pela qual Washington reluta em pedir a saída de Assad. "O aspecto sectário, as divisões e a animosidade estão se agravando", disse um funcionário do governo americano, falando sob anonimato. "Não acho que ele sairá. O que ocorreu em Jisr al-Shughour só recrudescerá os sentimentos alauitas e a hostilidade contra os sunitas."

A divisão sectária na Síria é uma questão aberta. Damasco sugere que militantes islâmicos manipularam os protestos e dizem que o colapso do governo colocaria em risco as minorias na região. A oposição ignora a divisão sectária e acredita que o regime incentive as tensões para dividir a população.

As repercussões dos eventos em Jisr al-Shughour ultrapassaram a fronteira do país. Na segunda-feira, Ancara informou que 7 mil sírios tinham entrado na Turquia. A perspectiva de mais refugiados alarmou o governo turco.

Cresceram as críticas ao premiê Recep Tayyip Erdogan, aliado de Assad. Pressionado, ele classificou na semana passada a ocupação de Jisr al-Shughour de "brutal e desumana", irritando Damasco.

Por enquanto, Assad sustenta-se no poder com apoio do Exército, dos serviços de inteligência, da elite empresarial e das minorias religiosas, principalmente de cristãos e alauitas.

Após a repressão em Jisr al-Shughour, porém, há indícios de que alguns empresários já abandonaram o regime. As minorias também estariam mais temerosas com um governo que prometeu estabilidade, mas mergulhou o país na crise.

Guerra civil. Alguns ativistas sírios não acreditam no pior cenário. "Se não houver vontade política da oposição para transformar isso numa guerra civil, como a sujeira do regime se transformará em lama?", questiona Wissam Tarif, diretor da Insan, organização de defesa dos direitos humanos. "Não acho que haverá uma guerra civil."

O homem que recebeu de um amigo a mensagem de texto na segunda-feira, no entanto, estava mais pessimista. "Como povo, não quero que nada ocorra entre nós", afirmou Mohamed. "Mas o regime está nos fazendo odiar os alauitas." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

RELIGIÕES NA SÍRIA

Alauitas: Seita derivada do xiismo. A maior parte de seus praticantes (1,5 milhão) vive na Síria, mas há alauitas também no Líbano e na Turquia. A seita é menos rígida com as práticas religiosas como o jejum e a ida regular às mesquitas

Xiitas: Majoritários no Irã, Iraque, Líbano, Azerbaijão e Bahrein. Acreditam que Ali, genro de Maomé, é seu sucessor legítimo

Sunitas: Maior seita do Islã, segue os ensinamentos da Sunna - os hábitos e ensinamentos de Maomé. É praticada por pelo menos 80% dos muçulmanos

Cristãos: Concentrados na cidade de Aleppo, compõem 10% da população. As principais seitas são a greco-ortodoxa e a melquita. Uma pequena parte da população é ortodoxa síria

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.