Confrontos no leste da Ucrânia entre Exército e separatistas abalam trégua

Troca de agressões. Bombardeios e outras disputas entre Kiev e rebeldes ucranianos em cidades controladas pelos insurgentes deixaram muitas casas incendiadas e vários civis desabrigados; autoridades ocidentais temem que cessar-fogo não se sustente

MSTYSLAV CHERNOV, ASSOCIATED PRESS, SPARTAK, UCRÂNIA, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2014 | 02h02

Bombardeios nas proximidades da principal cidade em poder dos rebeldes no leste da Ucrânia suscitaram novas dúvidas quanto ao acordo de cessar-fogo feito sexta-feira entre as tropas do governo de Kiev e os separatistas pró-Rússia.

Pelo menos duas casas foram incendiadas na aldeia rural de Spartak, ao norte de Donetsk, perto do aeroporto. Um homem cuja casa foi atingida por uma granada disse que os rebeldes dispararam de um ponto nas proximidades, o que aparentemente provocou um contra-ataque das tropas do governo ucraniano. Esses confrontos têm sido observados regularmente nos últimos cinco meses entre o Exército e os rebeldes.

Combatentes separatistas dançaram e beberam na manhã de ontem na cidade comemorando, segundo afirmaram, o sucesso do ataque contra soldados ucranianos na vizinhança. Um dos separatistas disse que o grupo capturou oito soldados, embora nenhum deles tenha sido apresentado.

O combatente, que se identificou apenas como Khokhol, reconheceu que o cessar-fogo não estava sendo respeitado pelos dois lados. "O bombardeio de morteiros durou cerca de 20 minutos em Spartak", contou. "Não houve cessar-fogo de nenhuma parte."

A trégua assinada na sexta-feira durou aparentemente a maior parte do dia seguinte, mas no final do sábado os ataques recomeçaram nos arredores da cidade portuária de Mariupol, no sudeste, onde tropas ucranianas mantêm linhas defensivas contra os rebeldes. A Câmara Municipal da cidade informou ontem que um civil foi morto e um soldado foi ferido.

O Batalhão Azov de voluntários pró-governo escreveu no Facebook que suas posições também foram atingidas por foguetes, mas não forneceu detalhes.

Mariupol localiza-se na costa do Mar de Azov, 115 quilômetros ao sul de Donetsk. Os rebeldes abriram recentemente uma nova frente na costa, levantando suspeitas de que tentam garantir um corredor terrestre entre a Rússia e a Península da Crimeia, anexada por Moscou em março.

A Anistia Internacional condenou ontem todos os envolvidos no conflito que, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), já provocou a morte de pelo menos 2.600 civis e obrigou milhares de pessoas a abandonarem suas casas.

"Todas as partes nesse conflito mostraram desrespeito pela vida de civis e estão deixando abertamente de cumprir suas obrigações internacionais", afirmou num comunicado o secretário-geral da Anistia Internacional, Salil Shetty.

Explosões potentes o suficiente para serem ouvidas no centro de Donetsk pareciam vir do aeroporto na manhã de ontem. O terminal, que agora não passa de uma casca destruída pelo fogo, estava desde maio sob o controle das forças governamentais ucranianas e, desde então, tem sido submetido a ataques incessantes das forças separatistas que contam com o apoio da Rússia.

Um comunicado rebelde informou que no sábado forças ucranianas dispararam sobre as posições deles em seis localidades, incluindo áreas próximas ao aeroporto de Donetsk, provocando a morte de separatistas.

Em Spartak, Anastasia Ivanusenko, que se mudou para Donetsk com o objetivo de fugir dos combates mais intensos, soube que teve a casa destruída ontem, quando regressava à cidade para apanhar algumas coisas básicas para o filho.

"Tenho um bebê e moramos temporariamente num abrigo. Queríamos pegar o carrinho, algumas roupas quentes para a criança", disse, chorando, sentada num banco do outro lado da rua da casa incendiada. "Não pudemos nem entrar."

A Anistia Internacional afirmou também que Kiev submeteu áreas residenciais a bombardeios pesados e indiscriminados. Segundo a organização de direitos humanos, tanto grupos pró-governo quanto milícias separatistas sequestraram e espancaram pessoas suspeitas de ajudar seus adversários.

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