Confrontos se espalham pelo Egito e regime ameaça endurecer repressão

Cidades remotas do sul e norte do país registram os primeiros choques entre manifestantes e policiais, enquanto trabalhadores convocam greves; opositores cercam prédio do Parlamento, no Cairo, e primeiro-ministro é obrigado a deixar o local disfarçado

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2011 | 00h00

         

 

 

O movimento pela renúncia do presidente Hosni Mubarak incorporou novos métodos e expandiu-se para novas áreas ontem, com a deflagração de greves, o cerco ao Parlamento e confrontos entre manifestantes e a polícia em áreas remotas do sul e norte do país, onde ainda não tinham ocorrido incidentes. A ampliação dos protestos, cujo epicentro continua sendo a Praça Tahrir, coincide com a ameaça de recrudescimento do regime.

 

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Milhares de manifestantes se reuniram ontem na frente do Parlamento, no centro da cidade, exigindo a sua dissolução, assim como a saída de Mubarak. "Esse Parlamento é nulo", gritaram. "Abaixo a fraude." O Congresso foi eleito em dezembro, com vitória esmagadora do governo, que ficou com 95% das cadeiras, mas o resultado foi rejeitado pela oposição que, em grande parte, boicotou a votação.

O jornal Al-Dustour, de oposição, publicou ontem que, na véspera, o primeiro-ministro Ahmed Shafik teve de sair disfarçado do Parlamento cercado por manifestantes e não conseguiu entrar no prédio do Conselho de Ministros, próximo dali. O conselho teria sido transferido para a Rua 6 de Outubro, mais distante da área dos protestos.

Pela primeira vez desde que as manifestações começaram, no dia 25, os oposicionistas convocaram greves. Houve paralisações ontem dos funcionários da companhia estatal de energia elétrica e dos museus.

As principais queixas são salários baixos e corrupção. Mesmo com o aumento de 15% anunciado pelo governo, a maior parte dos funcionários continuará com os ganhos na casa dos US$ 100 ou menos. Os egípcios reclamam que os serviços públicos só são prestado mediante pagamento de propina.

Duas pessoas foram mortas e várias ficaram feridas num confronto entre 3 mil manifestantes e a polícia no Oásis de Kharga, na Província de Novo Vale, 500 quilômetros ao sul do Cairo. Cerca de 8 mil pessoas, a maioria pequenos agricultores, e também funcionários públicos, bloquearam a principal estrada entre a Província de Assiut, também no sul, e o Cairo, erguendo barricadas com palmeiras em chamas. Os manifestantes apedrejaram a van do governador da província, Nabil el-Ezaby, que tentou conversar com eles. O motivo da manifestação foi a escassez de pão. Já em Porto Said, no Canal de Suez, no norte do país, 300 manifestantes atearam fogo ao palácio do governo para protestar contra a falta de moradia.

Em reunião com diretores de jornais na noite de terça-feira, o vice-presidente Omar Suleiman advertiu para o risco de um "golpe" se os manifestantes continuarem se recusando a negociar. "Não podemos suportar essa situação por muito tempo e precisamos pôr fim a essa crise o mais rápido possível", disse.

Segundo o Banco Crédit Agricole Egypt, o país perde US$ 310 milhões por dia com a crise. Suleiman ainda avaliou que o Egito não está preparado para a democracia. As declarações intensificaram temores de que o governo volte a reprimir os protestos.

O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, declarou que o Cairo "ainda não deu os passos necessários, que o povo do Egito precisa ver". "É por isso que cada vez mais pessoas saem para registrar suas queixas."

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