Congo acusa Ruanda de apoiar rebeldes em ofensiva

País vizinho nega envio de tropas para ação de ex-general; insurgentes tentam tomar cidade na fronteira do país

Agências internacionais,

29 de outubro de 2008 | 08h27

O Exército congolês denunciou nesta quarta-feira que soldados de Ruanda cruzaram a fronteira e atacaram soldados do país, elevando a tensão em meio a temores de que o conflito envolve nações vizinhas. Os insurgentes avançaram na terça do nordeste do país em direção a Goma (capital do Estado de Kivu do Norte), à medida que o Exército e as tropas da ONU recuavam. A violência obrigou dezenas de milhares de civis aterrorizados a fugirem de suas casas.   Veja também: Histórico dos conflitos armados no Congo   A guerra civil na região - rica em diamante, ouro e outros minérios - já dura cinco anos, desde o fim da guerra do Congo (1997 - 2003). No entanto, o confronto entre rebeldes - liderados pelo ex-general tutsi Laurent Nkunda - e o Exército se intensificou em agosto e uma nova onda de violência explodiu domingo, com o avanço dos rebeldes.   Os bombardeios, ouvidos por jornalistas que estavam no acampamento do Exército congolês, foram realizados a cerca de oito quilômetros de uma vila em que centenas de refugiados exigiram proteção contra os rebeldes de Nkunda, que avançam em direção a Goma, cidade de 600 mil habitantes na fronteira com Ruanda. Em questão de horas, a população de um campo de refugiados em Kibati - a 10 quilômetros de Goma - triplicou, segundo Rob Redmond, porta-voz da agência de refugiados da ONU (Acnur). Cerca de 30 mil congoleses fugiram das cidades tomadas pelos rebeldes nos últimos dias.   O general desertor Nkunda planeja tomar Goma. Ele chegou a assinar um cessar-fogo com o governo em janeiro, porém depois voltou atrás, argumentando que não há interesse das autoridade em proteger os tutsis. Milicianos hutus que fugiram de Ruanda para o Congo após perpetrarem o massacre de Ruanda, em 1994, estariam ainda perseguindo a outra etnia.   O governo ruandês, liderado pela etnia tutsi, rechaçou imediatamente a acusação de que teria atacado o Exército do Congo em apoio a uma rebelião da minoria tutsi em solo congolês. O Congo, no entanto, pediu ajuda à vizinha Angola para "defender a integridade territorial" do país, elevando os temores de que o conflito poderia extrapolar as fronteiras congolesas. Uma guerra que afligiu o Congo entre 1997 e 2003 envolveu oito nações africanas e transformou-se numa investida contra as castas riquezas minerais congolesas.   A rádio estatal angolana informou que o Congo pediu principalmente apoio político e diplomático, mas o ministro congolês de Cooperação Internacional Raymond Tshibanda pediu ao presidente angolano "uma promessa de engajamento, uma ajuda para salvar vidas, defender a integridade territorial e impor a autoridade do Estado no país".   Enquanto os militantes avançaram nos últimos dois dias, os tanques da ONU recuaram com as tropas do governo. Helicópteros das forças de paz internacionais chegaram a lançar foguetes contra os rebeldes na tentativa de impedir que eles avançassem no país, mas os ataques foram suspensos porque os rebeldes usaram civis como escudo. A dificuldade encontrada pelos mantenedores de paz da ONU para conter a rebelião enfureceu a população congolesa, que esta semana atacou instalações da ONU em Goma.   Um alto funcionário da ONU no Congo afirmou na noite de terça que as forças de paz no país estão no limite da luta contra a insurgência e precisam de reforço urgente. O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, exigiu nesta quarta o fim imediato das hostilidades no país. Em entrevista em Manila, onde participa do 2º Fórum Global sobre Migrações e Desenvolvimento, Ban, que se mostrou muito preocupado com as baixa de civis e refugiados, afirmou que "os combates devem terminar".   Mais de 200 mil pessoas tiveram que deixar suas casas nos últimos dois meses no Congo, segundo a ONU. A cólera e a diarréia mataram dezenas de pessoas, e as que sobrevivem em geral vivem na miséria nessa área.   Histórico   A ofensiva rebelde é indício do sentimento contrário aos tutsis despertado pelo sucesso dos rebeldes ligados a Nkunda. Eles afirmam lutar para proteger a minoria tutsi de uma milícia ruandesa hutu que escapou para o Congo após ajudar a perpetrar o genocídio de Ruanda, em 1994. Meio milhão de tutsis foram assassinados nessa investida. Em janeiro deste ano, governo e rebeldes assinaram um tratado de paz, mas os guerrilheiros se rearmaram e retomaram os combates no meio deste ano. Desde então, o presidente Joseph Kabila se recusa a manter novas conversações com Nkunda, por considerá-lo um "terrorista."   Nkunda, por sua vez, recusa-se a desarmar suas tropas por afirmar que rebeldes hutus, de Ruanda, operam na região e ameaçam a comunidade tutsi. Acredita-se que Nkunda possui 5.500 homens sob o seu comando.   Matéria atualizada às 12h.

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