Jim Urquhart/REUTERS
Jim Urquhart/REUTERS

Congressistas republicanos mantêm relação próxima com grupos radicais

Deputados frequentam eventos e até tiram fotos com integrantes de falanges extremistas que participaram da invasão do Capitólio no começo deste mês; autoridades apuram se parlamentares teriam agido como guias dentro do prédio

Luke Broadwater e Matthew Rosenberg, The New York Times

30 de janeiro de 2021 | 04h00

WASHINGTON — O título do vídeo foi pontuado como uma pergunta, mas não deixava dúvida quanto ao posicionamento dos homens que o filmaram. Eles o batizaram de Guerra civil no horizonte? e, nos primeiros segundos, Jim Arroyo, um dos líderes da milícia de direita Oath Keepers (Defensores do Juramento) no Arizona, declara que o conflito já começou.

Para reforçar suas alegações, Arroyo cita o deputado Paul Gosar, do Arizona, um dos congressistas mais à direita. Gosar visitou a divisão local dos Oath Keepers alguns anos antes, relatou Arroyo, e, indagado se os Estados Unidos se encaminhavam para uma guerra civil, a “resposta (do deputado) ao grupo foi direta: ‘Já estamos nela. Só falta começar a atirar uns nos outros’”.

Menos de dois meses após a publicação do vídeo, membros dos Oath Keepers estavam entre as pessoas ligadas a grupos extremistas de todo o país envolvidas no ataque de 6 de janeiro ao Capitólio, levando a novas investigações dos elos entre congressistas e uma série de organizações e movimentos que defendem crenças de extrema-direita.

Quase 150 deputados republicanos defenderam as acusações infundadas do ex-presidente Donald Trump de que a eleição teria sido fraudada em favor de seu adversário, o presidente Joe Biden. Mas Gosar e um punhado de outros congressistas republicanos tinham elos mais profundos com grupos extremistas que promovem ideias violentas e teorias da conspiração, e cujos integrantes se destacaram entre aqueles que invadiram o congresso na tentativa de impedir a certificação da vitória de Biden.

Entre eles estava o deputado Andy Biggs, do Arizona, que, como Gosar, estava ligado à campanha Stop the Steal (Parem a fraude) em favor das tentativas de Trump de reverter o resultado da eleição.

A deputada Lauren Boebert, do Colorado, tem laços próximos com grupos milicianos, incluindo os chamados Three Percenters (Os 3%), um subgrupo extremista do movimento em defesa do direito de portar armas que teve pelo menos um membro entre os invasores do Capitólio.

A deputada Marjorie Taylor Greene, da Geórgia, promoveu a teoria da conspiração QAnon, cujos adeptos estavam entre os mais visíveis invasores do edifício, e apareceu em um comício com grupos milicianos. Antes de ser eleita para o congresso no ano passado, ela usou as redes sociais em 2019 para defender a execução de importantes democratas e sugeriu que o ataque a tiros na escola Marjory Stoneman Douglas High, em Parkland, Flórida, em 2018, seria uma “encenação”.

O deputado Matt Gaetz, da Flórida, frequentou no ano passado um evento onde estavam presentes os Proud Boys (Meninos orgulhosos), outra organização extremista cujo papel no ataque de 6 de janeiro está sob investigação do FBI, como ocorre com os Oath Keepers e os Three Percenters.

Não se sabe ao certo se as autoridades eleitas desempenharam um papel  facilitando diretamente o ataque ao Capitólio, além de ajudarem a incitar a violência com declarações falsas sobre a suposta fraude eleitoral. As autoridades disseram que estão investigando denúncias dos democratas de que alguns republicanos teriam agido como guias do Capitólio e divulgado outras informações a pessoas que integraram a turba do dia 6 de janeiro. Até o momento, não foram encontradas evidências que sustentem essas alegações.

Em comunicado, Lauren afirmou que “nunca serviu de guia em visitas ao Capitólio dos EUA, a não ser, talvez, para os parentes que vieram acompanhar minha cerimônia de posse", e chamou de “mentira irresponsável” as acusações dos democratas de que ela teria levado os insurgentes para uma “visita guiada”. Após o tumulto no Capitólio, ela disse ser contra “atos ilegais de violência".

Biggs negou qualquer associação com os organizadores do movimento Stop the Steal e condenou a violência “de todo o tipo".

“Estava ciente de planos para uma manifestação ou baderna no Capitólio dos EUA marcados para após o comício de 6 de janeiro de 2021? Não", disse Biggs em comunicado.

Um porta-voz de Marjorie disse que ela agora rejeita as alegações do QAnon, e tentou distanciá-la dos integrantes das milícias.

Em seu podcast, Gaetz disse que os Proud Boys estavam cuidando da segurança no evento do qual ele participou e “só porque tiramos uma foto com alguém", isso não significa “que estamos ligados a qualquer ponto de vista que a pessoa defenda ou venha a defender".

Mas, ao sinalizar com um apoio direto ou indireto, um grupo pequeno e estridente de republicanos atualmente no congresso conferiu legitimidade e publicidade a movimentos e grupos extremistas.

O ex-promotor federal Aitan D. Goelman, que ajudou a condenar Timothy McVeigh pelo atentado a bomba em Oklahoma City, disse que quando políticos eleitos — ou mesmo candidatos — decidem aparecer com grupos de milicianos ou outras associações de direita, isso “confere a eles um selo de legitimidade".

Um exame de muitos dos mais destacados republicanos eleitos com elos com grupos de direita também mostra como várias seitas extremistas se reuniram para investir contra o  Capitólio no dia 6 de janeiro.

— Em julho, Gosar, um dentista, posou para uma foto com um integrante dos Proud Boys. Dois anos antes, ele falou em um comício em defesa de um líder de um grupo extremista anti-imigração de Londres, descrevendo os imigrantes muçulmanos como um “flagelo". E, em 2014, ele viajou a Nevada para defender a resistência armada do rancheiro Cliven Bundy (que se recusava a respeitar os limites das terras federais) contra agentes do governo.

— Biggs, presidente da bancada direitista House Freedom Caucus, foi visto como inspiração pelos líderes do movimento Stop the Steal, e falou em eventos promovidos por extremistas, em um dos quais um dos fundadores dos Oath Keepers defendeu que o senador John McCain fosse enforcado.

— Lauren, eleita para a câmara em novembro, disse na manhã de 6 de janeiro no Twitter que “Hoje é 1776”, e tem elos com os Three Percenters, com quem compartilha a ideia de que os direitos de posse de armas estariam sob ataque. Pelo menos um integrante do grupo foi preso na invasão do Capitólio.

— Marjorie fomenta há anos teorias da conspiração, expressando seu apoio ao QAnon e fazendo comentários ofensivos a respeito de negros, judeus e muçulmanos. Apareceu também ao lado de membros dos Three Percenters em um evento de campanha.

Até certo ponto, os deputados estão refletindo sinais emitidos por Trump.

Durante um debate presidencial em outubro, ele mandou um recado aos Proud Boys, dizendo a eles que “recuassem e aguardassem". Dois meses antes, Trump descreveu os seguidores do QAnon — vários dos quais foram acusados de assassinato, terrorismo doméstico, conspiração para cometer sequestro e, mais recentemente, invadir o Capitólio — como “gente que ama o nosso país", acrescentando que “dizem que gostam de mim".

'Parem a fraude'

Poucos republicanos estão mais ligados ao extremismo do que Gosar.

“Ele se envolveu com grupos antimuçulmanos e grupos de ódio", disse o irmão de Gosar, o advogado Dave Gosar, do Wyoming. “Fez comentários antissemitas. Está totalmente metido com os Oath Keepers."

Dave Gosar e outros irmãos de Gosar veicularam campanhas denunciando o político como um extremista perigoso quando ele se candidatou ao congresso em 2018. Agora, apelam ao congresso para que ele seja expulso.

“Alertamos a todos quanto ao perigo que ele representa", disse Dave Gosar.

Nos dias que se seguiram à eleição de 2020, Paul Gosar e Biggs ajudaram a transformar o Arizona em um cadinho do movimento Stop the Steal, encontrando pontos em comum com linhas-duras que até então se mantinham nas sombras, como Ali Alexander. Os dois congressistas gravaram um vídeo, “Essa eleição é uma piada", assistido mais de 1 milhão de vezes, difundindo informações falsas a respeito de uma fraude eleitoral generalizada.

Alexander disse ter “bolado” o comício de 6 de janeiro com Gosar, Biggs e outro estridente defensor do Stop the Steal, o deputado Mo Brooks, do Alabama. A descrição que Alexander faz do papel desempenhado pelos congressistas é exagerada, de acordo com Biggs, mas os legisladores eram parte de uma rede mais ampla que ajudou a planejar e promove o comício como parte dos esforços de Trump para reverter o desejo do eleitorado.

Ainda que Biggs tenha feito pouco do seu envolvimento na campanha Stop the Steal, no dia 19 de dezembro Alexander mostrou uma mensagem de vídeo de Biggs a uma multidão enfurecida em um evento onde os frequentadores gritavam palavras de ordem violentas contra os legisladores. No evento, a mulher de Biggs, Cindy Biggs, foi vista abraçando Alexander duas vezes e falando algo ao ouvido dele.

Em 2019, Biggs falou em um evento promovido pelo Patriot Movement AZ, pelos AZ Patriots e a American Guard — organizações identificadas como grupos de ódio pelo Southern Poverty Law Center, de acordo com o Arizona Republic. Em 2015, ele frequentou silenciosamente um evento no qual um dos fundadores dos Oath Keepers defendeu que o senador John McCain fosse enforcado, chamando-o de traidor da constituição. Na época, Biggs disse ao Republic acreditar que aquele não era o momento de se manifestar nem de denunciar os comentários.

Arroyo, dos Oath Keepers do Arizona, disse que Gosar participou de duas de suas reuniões, com um intervalo de aproximadamente um ano entre elas. Arroyo disse que sua organização “não defende a violação da lei” e disse ter ficado “triste com a flagrante invasão do Capitólio por parte de alguns indivíduos descontrolados".

Assim como a família de Gosar, os dois irmãos de Biggs o denunciaram publicamente, dizendo que ele seria no mínimo parcialmente responsável pela violência de 6 de janeiro. Além disso, uma deputada democrata do Arizona, Athena Salman, pediu ao departamento de justiça que investigue as ações de Gosar e Biggs antes do tumulto, dizendo que eles “incentivaram, facilitaram, participaram e possivelmente ajudaram a planejar essa insurreição antidemocrática".

‘A milícia sou eu’

Em dezembro de 2019, centenas de manifestantes investiram contra a assembleia estadual do Colorado para se opor a uma lei estadual que buscava tirar as armas de pessoas com distúrbios mentais.

Entre os presentes no comício estavam membros dos Three Percenters, que promotores federais descrevem como uma “milícia radical", e uma aspirante a deputada com ficha criminal chamada Lauren Boebert, que buscava os votos deles. Armada com sua própria pistola, ela posou para fotos com milicianos e prometeu corajosamente desafiar a lei.

Nos meses que se seguiram, os grupos milicianos se consolidariam como alguns dos aliados políticos mais cruciais de Lauren. Com o início da campanha dela no ano passado, ela escreveu no Twitter, “A milícia sou eu".

Milicianos organizaram a segurança nos eventos de campanha dela e frequentavam os restaurantes dela, Shooters Grill, em Rifle, Colorado. Em vídeo publicado recentemente, um membro dos Three Percenters é filmado entregando a Lauren uma pistola Glock 22.

Outro membro do grupo, Robert Gieswein, que posou para uma foto na frente do restaurante de Lauren no ano passado, enfrenta acusações federais ligadas à invasão do Capitólio e ao ataque à polícia.

O diretor de comunicação de Lauren, Benjamin Stout, disse por e-mail que ela “sempre condenou todas as formas de violência política e deixou claro repetidas vezes que os invasores do Capitólio devem ser processados dentro dos limites da lei".

Ele acrescentou, “O fato de ela posar com alguém que pediu uma foto não significa que defenda cada uma de suas crenças ou que concorde com suas declarações públicas, nem com as causas que a pessoa defende".

A bancada do QAnon

Uma das forças animando o ataque ao Capitólio foi o movimento conhecido como QAnon, e há poucos nomes mais destacados que o de Marjorie ligados ao grupo.

O QAnon é um movimento centrado na fantástica alegação segundo a qual Trump, auxiliado secretamente pelo exército, foi eleito para esmagar uma claque de democratas, banqueiros internacionais e burocratas do “Estado paralelo” que idolatram satã e abusam de crianças. Fala-se em uma profecia, um enfrentamento apocalíptico chamado de “tempestade” entre Trump e seus inimigos. Durante a tempestade, seus inimigos seriam presos e executados, entre eles Biden e muitos congressistas democratas e republicanos.

A turba que atacou o Capitólio incluía muitos integrantes visíveis do QAnon, vestindo camisetas com o “Q” e brandindo bandeiras e cartazes com o “Q”.

Marjorie foi uma das primeiras a aderir, descrevendo o QAnon como “uma oportunidade única de acabar com essa claque global de pedófilos satanistas". Nos anos mais recentes, muitas de suas publicações no Facebook refletiam a linguagem usada pelo movimento, falando em enforcar importantes democratas e em executar agentes do FBI.

Marjorie também se mostrou próxima de alguns grupos milicianos cujos membros foram filmados atacando o Capitólio, incluindo os Oath Keepers e os Three Percenters. Falando em 2018 durante o evento conhecido como Mother of All Rallies, um comício pró-Trump em Washington, ela elogiou as milícias como grupos capazes de proteger o povo contra “um governo tirano".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.