Karolyn Kaster/AP
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Congresso dividido indica que Biden deve montar gabinete com moderados 

Presidente eleito deve escolher secretários de centro para conseguir aprovações em um Senado controlado por republicanos; risco é desagradar esquerda do Partido Democrata e membros da campanha que o ajudaram a chegar à Casa Branca 

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 05h00

WASHINGTON - O presidente eleito dos EUA, Joe Biden, começou ontem a transição de governo. Em discurso, ele apresentou os seis nomes de sua política externa. “Esta equipe mostra que os EUA estão de volta, prontos para liderar o mundo, e não se afastar dele”, disse. As dificuldades para aprovar indicações para cargos em um Congresso dividido sinalizam que Biden formará um gabinete de moderados.

Na Câmara, onde é preciso 218 votos para ter maioria, os democratas elegeram 222 deputados – 8 eleições ainda não foram concluídas. Com isso, a margem de manobra ficou curta. Os republicanos devem controlar o Senado, embora ainda haja duas vagas em disputa na Geórgia

No fim de semana, três republicanos moderados disseram que votariam para aprovar os nomes de Biden “se eles forem de centro” – Lisa Murkowski, Mitt Romney e Susan Collins. “Nosso papel é garantir que ele selecione pessoas de centro, qualificadas e confiáveis”, disse Murkowski. “O presidente tem liberdade para escolher seu gabinete, exceto se for alguém de fora do mainstream”, afirmou Romney.

A escolha de moderados, no entanto, aumenta o risco de insatisfação da ala à esquerda do Partido Democrata e de pessoas que levaram Biden à Casa Branca. Ontem, o site Politico, com base em depoimentos de fontes da campanha democrata, disse que os sinais de descontentamento são claros, principalmente pela percepção de que os cargos estão sendo dados para pessoas ligadas ao ex-presidente Barack Obama.

“O pessoal do Obama está deixando de fora as pessoas que elegeram Biden”, afirmou um assessor do presidente eleito, que pediu para não ser identificado. “Ninguém teve coragem de ajudá-lo quando ele estava concorrendo e agora estão colocando os amigos em detrimento das pessoas que sempre estiveram do lado de Biden.” 

Ontem, o presidente eleito fez seu primeiro discurso após o aval de Donald Trump para que as agências do governo compartilhassem documentos e cooperassem com os assessores de Biden. Em Wilmington, no Estado de Delaware, onde vive, o democrata apresentou oficialmente os seis nomes que comandarão sua política externa.

John Kerry, ex-secretário de Estado, será o “czar do clima”, cargo criado por Biden que mostra a importância que a temática terá no seu mandato; Alejandro Mayorkas, primeiro latino a chefiar o Departamento de Segurança Interna; Linda Thomas-Greenfield, diplomata negra que será embaixadora na ONU; Avril Haines, primeira mulher a dirigir o serviço de inteligência, Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional, e Antony Blinken, secretário de Estado.

Imediatamente, o senador republicano Marco Rubio, que ocupa cargos importantes em duas comissões do Senado, criticou as escolhas de Biden. “As escolhas de Biden para o gabinete frequentaram as melhores universidades, têm currículos fortes, participaram de todas as conferências e serão zeladores educados e ordeiros do declínio da América”, disse. “Eu apoio a grandeza americana. E não quero voltar ao ‘normal’ que nos deixou dependentes da China.”

As declarações de Rubio, que faz parte das comissões de Relações Exteriores e de Inteligência do Senado, mostram a linha tênue que Biden deve caminhar no início do mandato, entre o obstrucionismo da oposição no Congresso e a insatisfação interna do Partido Democrata com nomes moderados. 

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