Congresso do Uruguai aprova fim de lei de anistia a crimes da ditadura

Constitucionalidade da legislação será agora analisada pela Suprema Corte do país.

Marcia Carmo, BBC

26 de fevereiro de 2009 | 01h54

A Assembleia Geral do Congresso do Uruguai votou nesta quarta-feira pela inconstitucionalidade da chamada Lei de Caducidade, que anistiou militares e policiais acusados de violações aos direitos humanos durante o período da ditadura militar no país, entre 1973 e 1985.O resultado, aprovado em uma sessão conjunta de deputados e senadores por 69 votos a dois, respalda um pedido do presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, para que a lei fosse declarada inconstitucional para um caso específico, de uma jovem torturada e morta durante a ditadura. A última palavra sobre a inconstitucionalidade ou não da lei será da Suprema Corte de Justiça e poderá abrir caminho, na opinião de parlamentares da oposição e do governo, para a reabertura de outros casos de abusos cometidos durante a ditadura. A Suprema Corte tem 110 dias para se pronunciar sobre o tema.A lei havia sido aprovada pelo Congresso em 1986 e ratificada em um referendo em 1989."A Lei de Caducidade levou todos os presidentes a evitarem discussões sobre o assunto. Mas o presidente Tabaré (Vázquez) entendeu que a lei não anistia tortura e assassinatos. Agora, se a Suprema Corte decidir pela inconstitucionalidade da lei, outros casos serão reabertos. Não temos dúvida disso", disse à BBC Brasil o deputado Luis Gallo, da base governista Frente Ampla. Segundo ele, o atual governo entende que a lei de anistia foi aprovada pelo Congresso em uma época de "fortes pressões dos militares", que então se negavam a se apresentar à Justiça para explicar os crimes do período autoritário. A votação desta quarta-feira gerou forte polêmica entre a oposição, o que fez com que deputados e senadores dos partidos oposicionistas Blanco e Colorado deixassem o plenário antes da decisão. Eles argumentaram que o Congresso não deveria participar de uma decisão que seria somente da Suprema Corte de Justiça. Outros afirmaram que a lei está em vigor e que não deve ser debatida agora, mais de duas décadas após o fim do regime. A legislação foi aprovada quando o presidente do país era o atual senador Julio Maria Sanguinetti, que também deixou o plenário antes da votação.À época de sua aprovação, a Lei de Caducidade contou com o apoio tanto do Partido Blanco como do Colorado. A discussão sobre a lei de anistia começou quando o presidente do país, por meio da Procuradoria de Justiça, mandou um texto ao Supremo pedindo a revisão da lei para o caso de uma estudante sequestrada enquanto escrevia a frase "abaixo a ditadura" em um muro. A estudante, que era militante comunista, acabou sendo morta em 1974 em uma unidade militar.A Suprema Corte entendeu que o Congresso deveria dar seu parecer, o que foi feito a partir da iniciativa do vice-presidente do país e presidente da Casa, Rodolfo Nin Novoa. O governo Vázquez tem a maioria absoluta dos votos dos 99 deputados e 30 senadores do país. Iniciativas anteriores do governo de Tabaré Vázquez levaram recentemente militares que cometeram abusos durante a ditadura para a prisão. Ao mesmo tempo, a Justiça autorizou a busca de corpos de desaparecidos políticos em escavações em unidades militares. Até agora, dois já foram localizados.Estima-se que cerca de 200 uruguaios tenham desaparecido durante o período da ditadura militar no país. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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