Congresso faz China inovar em repressão

Dissidentes cumprem prisão domiciliar ou são obrigados a deixar Pequim antes de transição

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM , O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2012 | 02h04

As autoridades chinesas adotaram medidas extremas de segurança para evitar críticas ou manifestações que tumultuem o congresso do Partido Comunista que definirá a partir da próxima semana a mais ampla mudança na cúpula de poder na China em uma década. Prisão domiciliar foi imposta a vários dissidentes, enquanto outros receberam ordens para deixar Pequim e só voltar à capital depois do encerramento do encontro.

Em uma inovação em relação aos eventos anteriores, os motoristas de táxis foram orientados a circular com portas travadas e janelas fechadas. Para isso, eles terão de remover as manivelas que sobem e descem os vidros ou ativar os botões de segurança que retiram dos passageiros o controle sobre os dispositivos.

O objetivo é evitar que eventuais opositores do regime joguem nas ruas folhetos com críticas ao partido ou ao governo. Os taxistas também receberam ordens de não trafegar em áreas de "importância política", a mais óbvia das quais é a Praça Tiananmen, sede do Grande Palácio do Povo, onde o congresso será realizado. Em algumas regiões, lojas de brinquedos só vendem aviões e helicópteros com controle remoto depois de registrarem a identidade do comprador. Ainda que não haja nenhuma justificativa oficial, em tese os apetrechos poderiam ser usados em ações de espionagem ou atentados.

A venda de facas de cozinha e tesouras está suspensa em muitos supermercados de Pequim, o que levou Yang Rui, um astro nacionalista da emissora estatal CCTV, a fazer uma queixa na versão local do Twitter. "Procurei em todos os lugares por uma faca de cortar frutas, mas não encontrei. Então, pedi ajuda a um atendente. Ele disse: 'todas as facas foram retiradas das prateleiras antes do 18.º congresso'."

O ativista Hu Jia está desde a semana passada com seus pais na Província de Anhui. O apartamento da família no local é vigiado pela polícia e ele só poderá voltar a Pequim no dia 20. A reportagem do Estado telefonou para outros seis ativistas e não obteve resposta. Zhao Changqing, fundador da igreja cristã Shouwang, está em prisão domiciliar desde segunda-feira e só deverá ser libertado no dia 20. Uma cópia da orientação às companhias de táxi que circulou na internet dá a bolas de pingue-pongue e balões um caráter subversivo durante o congresso. Os motoristas da capital foram orientados a olhar com suspeição para clientes que carreguem "qualquer tipo" de bola.

"Fique atento a passageiros que pretendam espalhar mensagens com balões que tenham slogans ou bolas de pingue-pongue que tragam mensagens reacionárias", diz a reprodução do memorando distribuído aos taxistas.

As medidas refletem o grau de nervosismo e paranoia das autoridades de Pequim diante da possibilidade de críticas serem feitas durante o processo de transição. O congresso começará na quinta-feira e deverá durar uma semana, ao fim da qual serão apresentados os novos integrantes do órgão máximo de comando do partido e da China - o Comitê Permanente do Politburo, cuja composição deve ser reduzida de nove para sete membros.

Realizado a cada cinco anos, o congresso reúne na capital delegados de todo o país - agora serão 2.270 -, que desempenham o papel ritualístico de dar aval a decisões quase sempre já adotadas pela elite dirigente do PC.

Como todos os eventos que envolvem o partido, o congresso é milimetricamente coreografado, para que não haja surpresas. Mas a sucessão de 2012 está sendo mais tumultuada e imprevisível que a de anos anteriores.

Um dos candidatos ao Comitê Permanente do Politburo, Bo Xilai, caiu em desgraça no início do ano, depois da revelação de que sua mulher era suspeita de assassinar o empresário britânico Neil Heywood em novembro de 2011.

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