Melvin Levongo / Reuters
Melvin Levongo / Reuters

Conheça Bougainville, a região que pode se tornar o mais novo país do mundo

Eleitores da ilha votaram pela independência de seu território de Papua-Nova Guiné; líder local afirma que resultado representa ‘liberação psicológica’ de seu povo

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2019 | 07h28

BUKA, PÁPUA-NOVA GUINÉ - A região autônoma de Bougainville pode se tornar o mais novo país do mundo. Os eleitores da ilha votaram em ampla maioria a favor da independência de seu território de Papua-Nova Guiné, segundo os resultados oficiais do referendo publicados nesta quarta-feira, 11.

Bertie Ahern, presidente da Comissão de Referendos de Bougainville, anunciou que 176.928 eleitores votaram a favor da independência, ou seja, mais de 98% dos participantes. Apenas 3.043 pessoas votaram por mais autonomia.

O líder da região autônoma de Bougainville, John Momis, disse que o resultado representa “uma liberação psicológica” de seu povo.

Para que a ilha se torne a mais jovem nação do mundo, depois que o Sudão do Sul obteve sua independência em 2011, ainda precisa passar por dois trâmites: a negociação entre os governos da região autônoma e de Papua Nova Guiné e, se passar, o Parlamento papuásio teria de decidir se aceita ou rejeita o acordo.

O resultado do referendo deve ser ratificado pelo Parlamento de Papua-Nova Guiné, embora alguns deputados expressem oposição veemente à independência, pelo temor de um efeito contágio em um país com forte diversidade étnica. A dimensão da vitória dos partidários da independência, no entanto, deve pesar a favor do reconhecimento do referendo. 

Reações

Momis se mostrou confiante de que a negociação com o primeiro-ministro papuásio, James Marape, favorecerá seu povo, já que considera o mandatário “inteligente, humilde e preparado para escutar”.

Contudo, Marape ainda não se pronunciou sobre o resultado da votação, ainda que em novembro o ministro papuásio para Bougainville, Puka Temu, tenha dito à emissora ABC australiana que o Executivo de Port Moresby se manteria firme em seu desejo de permanecer na região.

“Não queremos que nenhuma parte de Papua se rompa”, destacou Temu, ao insistir que não quer abrir precedente para as outras 21 províncias de Papua.

Ahern fez um apelo para que todas as partes validem o resultado da consulta. "A votação aconteceu por sua paz, sua história e seu futuro. E mostrou o poder da caneta sobre as armas", afirmou. 

Longo conflito

Momis, que colaborou na elaboração da Constituição de Papua-Nova Guiné quando declarou independência da Austrália, espera que as celebrações por independência sejam registradas também em Panguna, epicentro de um grande conflito entre o governo central papuásio e os setores independentistas da região.

Em 1988, os indígenas das terras ocupadas pela mina Panguna, operada por uma subsidiária da empresa anglo-australiana Rio Tinto, pegaram em armas por críticas à distribuição de benefícios e seu impacto ambiental.

O Exército papuásio interveio em defesa dos interesses da companhia, o que desencadeou um conflito que se prolongou durante mais de uma década e no qual morreram 20 mil pessoas, cerca de 10% da população de Bougainville, e deslocou outras 15 mil para campos de refugiados e as Ilhas Salomão, território próximo.

Após o conflito, o referendo celebrado recentemente foi resultado do acordo de paz assinado pelas duas partes em 2001.

“Como muitos em Bougainville, me sinto aliviado com a finalização do referendo e de que tenhamos honrado a memória daqueles que perdemos no conflito, e que agora possamos dar um passo em direção às negociações para um acordo político duradouro”, afirmou o secretário-chefe do governo autônomo, Joseph Nobetau, em sua conta no Twitter. / AFP e EFE

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