Beck Diefenbach / Reuters
Beck Diefenbach / Reuters

Conheça Spot, o cão-robô utilizado pela polícia de Massachusetts

Pesando quase 32 kg e podendo andar a uma velocidade de 4,8 km/h, ele foi alugado por um período de três meses para ser utilizado pelo esquadrão antibomba da agência

Peter Holley / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2019 | 10h00

Há alguns dias, quando a Boston Dynamics começou a divulgar vídeos de Spot, um robô de quatro pernas semiautônomo, o público ficou fascinado.

Nos vídeos, o robô semelhante a um cão era visto subindo e descendo escadas, dançando ao som de uma música de Bruno Mars, latindo para um caminhão e até abrindo uma porta com facilidade, um vislumbre futurista do potencial robótico que muitas pessoas que assistiram acharam chocantes.

Agora, as mesmas qualidades que tornaram Spot um robô fascinante para alguns, despertaram o interesse da Polícia Estadual de Massachusetts, que se tornou a primeira agência de polícia no país a colocar em ação o cão robô, segundo registros obtidos pela American Civil Liberties Union (UCLA) do Estado e fornecidos ao jornal Washington Post.

Os registros - de comunicações internas, ordens de compra e discussões sobre táticas policiais - revelam que o robô que pesa quase 32 kg e pode andar a uma velocidade de 4,8 km/h, foi “alugado” para o esquadrão antibomba da agência por 90 dias, do início de agosto até início de novembro.

O objetivo da locação, segundo os registros, foi avaliar “as capacidades do robô em atividades policiais, particularmente no caso de inspeção remota de ambientes potencialmente perigosos que podem abrigar suspeitos”.

A Boston Dynamics não respondeu a pedidos para comentar o assunto, mas a Polícia Estadual de Massachusetts confirmou o aluguel de Spot por um período de três meses para ser utilizado pelo esquadrão antibomba.

Inspeção de objetos 'potencialmente perigosos'

Segundo a polícia, Spot foi “utilizado operacionalmente” em duas ocasiões, mas detalhes a respeito não foram divulgados.

“A polícia estadual de Massachusetts tem usado robôs para auxiliar em respostas a situações de risco durante anos, utilizando-os para examinar peças suspeitas e desobstruir locais de alto risco onde suspeitos armados podem estar presentes”, declarou a agência em um comunicado, acrescentando que a tarefa do robô é “fazer a inspeção remota de objetos potencialmente perigosos e de ambientes de risco que podem abrigar suspeitos de crimes ou dispositivos explosivos”.

A Boston Dynamics foi comprada pelo Softbank, do Japão, da Alphabet, matriz do Google, em 2017. Nos últimos anos a empresa de tecnologia ficou conhecida por criar robôs que imitam os movimentos de humanos e animais e postar vídeos enigmáticos deles que tiveram uma enorme repercussão, despertando uma mistura de entusiasmo e terror com a rápida ascensão das máquinas autônomas.

Até agora, as discussões sobre os robôs da Boston Dynamics se basearam amplamente em situações hipotéticas. Mas à medida que máquinas como Spot saem do laboratório para o mundo real outra discussão começa a surgir, com os defensores dos direitos civis exigindo mais transparência da polícia, em particular.

Desconhecimento do uso

Kade Crockford, diretor do programa Technology for Liberty da ACLU de Massachusetts, divulgou um comunicado afirmando que a população não tem muitas informações sobre como esses sistemas robóticos estão sendo usados.

"Normalmente o uso dessas tecnologias é mais veloz do que a reação dos nossos sistemas social, político ou legal. Precisamos com urgência de mais transparência das agências governamentais, que devem ser honestas com a população sobre seus planos para testar e utilizar novas tecnologias. E precisamos de novos regulamentos do Estado para proteger as liberdades civis, os direitos civis e a justiça racial na era da inteligência artificial", disse Crockford.

"Massachusetts deve fazer mais para assegurar que as salvaguardas acompanhem o ritmo da inovação tecnológica e a ACLU ficará contente em se associar com as autoridades estaduais e municipais para encontrar e implementar soluções para que as nossas leis acompanhem o ritmo das mudanças no campo da tecnologia.”

Regulamentação e fiscalização

As preocupações com uma regulamentação e fiscalização da tecnologia são generalizadas no que diz respeito a uma ampla faixa de novos setores. que vão do compartilhamento de vídeo entre as centenas de agências de polícia e a empresa de campainhas com câmera de porta Ring até a rápida expansão do software de reconhecimento facial.

Poucos desses novos aplicativos foram aprovados por autoridades eleitas, o que aumenta o temor de que as agências de polícia estejam se esquivando da fiscalização do governo.

À medida que o número de robôs aumenta, como também sua disponibilidade, alguns especialistas insistem na criação de uma nova agência para regulamentar o campo da robótica e sanar o que veem como falta de conhecimento especializado por parte dos legisladores.

Em um estudo da Brookings Institution sobre os méritos e os aspectos negativos dessa proposta, Ryan Calo, professor de direito da Universidade de Washington que dá aulas de política e legislação robótica, afirma que "o advento do trem exigiu mudanças maciças na infraestrutura nacional, conectou fisicamente comunidades diversas e consistentemente provocou, às vezes literalmente, danos para pessoas e propriedades". "Criamos a Federal Railroad Administration em resposta a isto. Esta agência responde ao Departamento dos Transportes, embora o próprio departamento tivesse o domínio das ferrovias e depois das rodovias."

A Boston Dyanamics produziu outros quatro robôs com quatro pernas, com nomes como Wildcat e BigDog,  que conseguem carregar cargas pesadas e correm até 32 km/h.

Spot, que atraiu milhões de visualizações no YouTube, foi apresentado este ano e vem sendo oferecido “para novos interessados selecionados”, segundo a companhia. Os primeiros clientes estão usando o robô “para monitorar canteiros de obras, realizar inspeção remota em instalações de gás, petróleo e elétricas, e no campo da segurança pública”. A máquina pode ser dirigida por uma pessoa usando um controle remoto, mas grande parte dos movimentos, como a maneira como o robô caminha e se mexe, ocorrem sem intervenção humana.

O fundador da Boston Dynamics, Marc Raibert, também já previa que seus robôs um dia seriam utilizados para obstruir ambientes perigosos como o local do desastre da usina nuclear de Fukushima, onde os trabalhadores ficaram em risco.

Michael Perry, vice-presidente da companhia, disse que a Boston Dynamics optou por alugar o Spot para novos clientes para a empresa ter possibilidade de retomar a máquina se for mal utilizada. Os contratos incluem cláusulas que proíbem o uso dos robôs para “machucar ou intimidar pessoas”, disse ele. 

“Parte do nosso processo de avaliação inicial no caso dos clientes é para nos certificarmos de que estamos em sintonia quanto ao uso do robô. Portanto, antecipadamente somos muito claros com os nossos clientes de que não queremos que o robô seja usado de maneira que vá prejudicar alguma pessoa.”

Quanto ao preço do Spot, os executivos da companhia relutaram a informar, afirmando que “custa menos que um carro”, segundo a IRRR Spectrum. / Tradução de Terezinha Martino

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