Marco Bello/Reuters
Fila em supermercado de Caracas; faltam alimentos básicos para venezuelanos Marco Bello/Reuters

CONHECENDO A VENEZUELA, UM PAÍS IMERSO EM CRISES

Jornalista do 'NYT' narra a escassez em cidades venezuelanas 

Nicholas Casey , The New York Times

12 de fevereiro de 2016 | 06h00

PUERTO CABELLO - Na capital Caracas, a água é tão cara e escassa que os habitantes esperam horas com garrafas no pé de uma montanha onde um fiozinho escorre até a estrada. No interior, a cana de açúcar apodrece e as fábricas de laticínios estão paradas, enquanto as pessoas carregam sacolas de dinheiro em busca de comida no mercado negro em cada cidade e aldeia.

E neste porto que outrora alimentava uma nação, tudo parece estéril. Onde uma dezena de navios outrora aguardava para entrar, apenas quatro podem ser vistos de um forte no topo de uma colina, construído séculos atrás para guardar o lugar contra invasões por mar. Hoje, ninguém saquearia Puerto Cabello, não há mais nada para ser levado. E a situação ficará bem pior.

Este ano, a inflação na Venezuela deverá bater nos 720%, a mais alta do mundo, o que faz com que o país se compare ao Zimbábue, no início do seu colapso. O preço do petróleo, que é a vida deste país, despencou a preços nunca vistos em dez anos.

Enquanto escrevo sobre atividades e conversas cotidianas, alguns temas tornam-se ainda mais patentes. Na Venezuela - país onde os hospitais já não têm seringas, os supermercados lutam para conseguir estocar produtos de primeira necessidade, e o governo declarou emergência econômica apesar de ter debaixo da terra as maiores reservas petrolíferas do mundo - as tensões continuam se intensificando. 

Nas colinas de Puerto Cabello, uma fila se formou na frente de uma mercearia, com centenas de pessoas em busca de comida. Muitas estavam ali desde 5h30, depois que se espalhou o boato de que havia chegado um caminhão de entrega de produtos. Às 9h45, um policial armado vigiava a porta, deixando entrar dez pessoas de cada vez.

No dia anterior, havia feijão, farinha e leite à venda. Esta manhã, só se encontrava óleo de cozinha.

Ecio Corredor, que estava na fila, contou que perdeu o emprego em novembro. Ironicamente, ele disse, sua função era levar os produtos de caminhão das docas aos supermercados. "Agora, não há mais embarques", afirmou. 

Ele conversava com Carlos Perozo, outro motorista, que estava sem trabalhar há um ano porque a bateria de seu carro está descarregada. Ele não conseguia encontrar outra, e, mesmo que encontrasse, não teria dinheiro para comprá-la. 

Mudanças. Coqueiros cresciam em frente a uma refinaria. A frase "Somos Todos Chávez", estava pintada num dos muros laterais da fábrica. Em Morrocoy, a estrada terminava num cais. 

Um barqueiro nos levou por um mangue que acabava numa praia de areia branca onde Eduardo Vera e sua mulher, Carolina Morillo, passavam o dia de folga com o filho. O casal, outrora de classe média, agora sobrevive com dois salários que se depreciaram ao equivalente de US$ 2,19 por dia. Ambos têm outras atividades. "Dá para viver, mas sem conforto", lamentou Carolina. O dia de folga era um último gasto que eles se permitiam. 

Dali, começamos nossa viagem para o interior, em busca do ouro negro. Não o petróleo, que a Venezuela possui em abundância, mas feijão preto - praticamente não existe neste país.

Poucos produtores o cultivam atualmente com o preço controlado pelo governo. Octavio Medina o comprou por um preço 50 vezes superior e ainda o vendeu na rua, cobrando um pequeno aumento. Ele disse que dezenas de pessoas compram sacolas dele, ao preço de meio dia de trabalho em termos do salário mínimo em vigor.

Mérida, uma pitoresca cidade universitária andina, ergue-se entre duas altas cadeias de montanhas. 

Frank Tirado comia num restaurante com um amplo sorriso e uma maneira inocente de conversar que desmentia o fato de que acabava de passar alguns dos meses mais difíceis de sua vida. 

Ele nos mostrou uma ferida do lado da cabeça por causa de uma cirurgia recente. Meses antes, ele começou a sentir dores de cabeça e a perder a visão. O neurologista disse então que ele tinha um tumor cerebral e se não operasse logo, ficaria paralisado.

Mas a lista de espera no hospital público era de mais de um mês, excessiva para ele conseguir sobreviver. Uma operação numa clínica particular poderia resolver o problema imediatamente, mas só se ele pagasse. Duas tias enviaram-lhe o dinheiro da Flórida.

E há ainda o problema do leite. Tampouco se encontra, principalmente em La Batalla, um laticínio que dez anos antes produzia anualmente 126 mil litros entre três fábricas.

Foi estatizado, e sua fábrica em La Sabaneta agora é um entreposto vazio. O único funcionário é o guarda que nos abriu o portão. Os contadores nas bombas são ilegíveis. A geladeira está aberta e enferrujada. Havia três morcegos mo local. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA


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