Conquista de maioria 'tranquiliza' Mujica

Presidente uruguaio acrescenta que 'quem ganha a eleição não se torna dono do país'

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2014 | 02h01

O presidente uruguaio, José Mujica, afirmou ontem que a conquista da maioria no Legislativo na eleição de domingo o "tranquiliza", já que o diálogo com a oposição "não foi possível" nos dois governos da Frente Ampla. Mujica também disse que "aqueles que ganham a eleição não são os donos do país". Segundo ele, "governar é também convencer".

"Temos de parecer menos mandões e oferecer mais argumentos", declarou.

Mujica foi o candidato mais votado da Frente Ampla, que apresentou vários candidatos ao Senado. Mas o senador mais votado foi o candidato à presidência Luis Lacalle Pou, que também disputava uma vaga na Câmara Alta. Mujica obteve 348 mil votos, enquanto Lacalle Pou conseguiu 363 mil.

Outro candidato presidencial, que também era candidato ao Senado, Pablo Mieres, do Partido Independente (PI), também foi eleito para o Legislativo. Na segunda-feira as especulações indicavam que a Frente Ampla, de Mujica, poderia fechar um acordo para contar com o voto de Mieres. Mas a presidente da Frente Ampla, Monica Xavier, disse que não será feito um acordo com o PI.

A Corte Eleitoral confirmou que a Frente Ampla conseguiu 50 das 99 cadeiras na Câmara de Deputados. No Senado a coalizão obteve 15 das 30 cadeiras. No entanto, pode ter maioria na hipótese de Tabaré Vázquez ser eleito. Raúl Sendic, candidato a vice-presidente em sua chapa, ocuparia a 16.ª cadeira. No Uruguai o vice-presidente da República é automaticamente o presidente do Senado.

Se eleito, Tabaré governará com uma maioria parlamentar mais à esquerda do que ele mesmo. Ex-guerrilheiros tupamaros e comunistas, terão mais espaço do que os socialistas de Tabaré.

O cientista político Luis Eduardo González, diretor da consultoria Cifra, afirmou que as chances de vitória de Lacalle Pou no segundo turno das eleições presidenciais "não são nulas". No entanto, González destacou que Tabaré só perderia se Lacalle Pou "conseguir tirar dele votos de seu próprio partido". Mas os analistas da consultoria Factum consideram que, com a conquista da maioria parlamentar por parte da Frente Ampla, o segundo turno "quase perde sentido". Segundo eles, o crescimento de Lacalle Pou foi surpreendente no primeiro turno. Mas o segundo turno seria difícil para o opositor.

Alain Mizrahi, da consultoria Grupo Radar, considera que os uruguaios demonstraram um sentimento de continuidade ao votar na Frente Ampla, "que também transformou-se em um partido tradicional".

Tabaré obteve 47,8% dos votos, enquanto Lacalle Pou conseguiu 30,9%. O terceiro colocado, Pedro Bordaberry, do Partido Colorado, que agora apoiará Lacalle Pou, obteve 12,9%. O Colorado e o Nacional foram os partidos tradicionais da política uruguaia, que dividiram o comando do país durante 180 anos. No entanto, a soma dos votos no primeiro turno dos dois históricos partidos não alcança o volume conseguido pela Frente. Outros partidos da esquerda mais radical conseguiram 2,1%, enquanto o PI obteve 3,1% dos votos.

Mujica declarou que irá ao Senado apenas dois anos. Além disso, indicou que não estará presente todos os dias e somente participará quando a Frente Ampla necessitar: "só irei quando a batata estiver muito quente". Mujica sustentou que pretende instalar uma escola rural em sua chácara, em Rincón del Cerro, periferia de Montevidéu.

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