''''Conseguimos confissões com Big Macs''''

Almirante nega que detentos sejam torturados durante interrogatórios e diz que imprensa distorceu informações

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

01 de março de 2008 | 00h00

O comandante da prisão mais controvertida do mundo diz que a maioria das críticas contra Guantánamo é exagerada e nega o uso de tortura nos interrogatórios de prisioneiros. "Houve muita distorção de informação por parte da imprensa e os advogados orientam seus clientes a alegar que foram torturados", diz o almirante Mark H.Buzby, que comanda Guantánamo desde maio de 2007. "Temos aqui na base sanduíches do Subway, Big Macs... conseguimos muito mais informação assim." Apesar de todos os candidatos à presidência terem afirmado que fecharão Guantánamo, o almirante mantém seus planos. Ele pretende até expandir a base, com o estabelecimento de uma prisão para os detentos que forem julgados pelas comissões militares. Ele diz que os julgamentos serão justos, mas admite que os juízes poderão aceitar confissões obtidas sob tortura. Abaixo, trechos da entrevista concedida ao Estado. Quais são seus planos para o ano que vem? Há uma percepção, vinda de Washington, de que as coisas vão acabar por aqui... Não que eu saiba. Nossa missão continua, eu não fui informado de mudanças de planos. Hoje temos 275 detentos, as comissões militares começarão no início da primavera (março-abril) e estaremos bem ocupados. Ninguém me falou nada sobre fechar os campos.Mas todos os candidatos presidenciais - Barack Obama, Hillary Clinton e John McCain, disseram que vão fechar Guantánamo...Eles disseram isso, mas é uma diretriz de governo fechar ou não Guantánamo? Eu não sei quem vai fechar nem quando.O sr. acha que os campos em Guantánamo cumpriram sua missão?Sim. Nós demos tratamento humano a algumas pessoas muito perigosas. Eu não tenho dúvidas de que, se essas pessoas estivessem soltas, elas estariam ativamente engajadas na jihad (guerra santa), tentando matar o maior número de americanos. E eu sei disso porque eles adoram nos dizer esse tipo de coisa todo santo dia: ?se eu sair daqui, vou matar você, sua família e o maior número de pessoas que eu conseguir.? Como comandante de Guantánamo, como o sr. se sente em relação às críticas sobre o tratamento dos detentos aqui? Acha que há exagero?Sim. Em 2002 (quando os campos foram criados), vários integrantes da Al-Qaeda no Paquistão e Afeganistão foram capturados e trazidos para cá, muito rapidamente, e não deu tempo de terminar os campos. Precisamos usar o que estava disponível, que não era ideal (os detentos ficaram no chamado Campo Raio X, o das gaiolas). Mas a situação melhorou muito. No início, a mensagem que saía de Guantánamo era nebulosa, havia muito jornalismo ruim e distorção. Eu ainda vejo fotos de detentos em uniforme laranja, com cachorros, no Campo Raio X, que foi desativado há anos. A visão sobre Guantánamo não é realista. Também há a percepção de que não é possível ter um julgamento justo em Guantánamo, pois grande parte das provas e interrogatórios foi obtida com simulação de afogamento e outros métodos não tradicionais...Não concordo com isso. O processo das comissões militares vai dar um nível de justiça a essas pessoas nunca visto antes nesse tipo de conflito. Mas, aconteça o que acontecer, as pessoas vão dizer que esses prisioneiros foram torturados, e por isso confessaram crimes? Não importa o que fizermos, sempre haverá pessoas criticando. Mas este é o caminho que o governo escolheu e eu vou apoiar este processo. Vocês fazem questão de chamar Guantánamo de campo, e não prisão, e os presos de detentos, e não prisioneiros....Bem, existe uma grande diferença, embora para um leigo qualquer lugar com celas e barras seja uma prisão. Numa prisão estão pessoas que foram condenadas por um crime, estão cumprindo pena e há tentativa de reabilitá-las. Em um campo de detenção, mantemos pessoas removidas do campo de batalha e não há perspectiva de reabilitação. O que poderemos ter aqui muito em breve é o estabelecimento de uma prisão, para abrigar os detentos que passaram pelos julgamentos das comissões militares. Os detentos de "alto valor" (mais perigosos) estão no Campo 7?Sim, os 15 estão no Campo 7.Porque vocês só revelaram neste ano que existe um campo de alta segurança?Eu não estava autorizado. Trata-se de uma instalação secreta por causa do alto risco representado por esses detentos. Foi uma decisão do governo manter a localização do Campo 7 secreta. Alguns deles estão em greve de fome há 900 dias....É interessante destacar que não dá para dizer quem está em greve de fome e quem não está, pois nós os mantemos alimentados por via intravenosa e eles até ganham peso durante a greve de fome.O sr. acha que a simulação de afogamento é um tipo de tortura?Eu certamente não gostaria de passar por isso. É uma forma legítima de obter informação?Não é um método que foi usado em Guantánamo (o governo americano admite ter usado simulação de afogamento com três prisioneiros, mas nas prisões da CIA, antes de eles serem transferidos para Guantánamo). Existem maneiras muito melhores de obter informação confiável.Foi divulgado que Guantánamo adotou "técnicas alternativas de interrogatório", como privação de sono, deixar o prisioneiro 12 horas na mesma posição, deixá-lo em temperaturas baixíssimas...Todos os métodos de interrogatório usados em Guantánamo foram autorizados por nosso governo desde o começo.Isso significa que vocês ainda usam esses métodos?Não, usamos quase exclusivamente técnicas de interrogatório direto. Sem coerção?Não precisamos disso. Temos aqui na base sanduíches do Subway, Big Macs. Conseguimos mais informação assim...McLanche Feliz nos interrogatórios?McLanche Feliz.Há uma percepção de que o tratamento dos prisioneiros em Guantánamo é hoje melhor do que em várias prisões do mundo. Mas mesmo que não haja tortura nos interrogatórios, provas e confissões obtidas por meio de tortura poderão ser usadas durante o julgamento desses detentos...Isso depende do juiz, que decidirá que tipo de provas vai aceitar. Então ele pode considerar aceitáveis provas obtidas com tortura?Correto. Mas isso não pode manchar todo o processo?Pode. Isso acontece no mundo civil também. Os policiais não interrogam corretamente. Precisamos ver o que é conjectura e o que não é. Há um manual orientando os detentos a dizer que foram torturados. Eles são treinados pelos advogados a dizer que sofreram maus-tratos.

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