Alexei Nikolsky, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP
Alexei Nikolsky, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP

Rússia fala em esforço diplomático contínuo para reduzir tensão na Ucrânia

Presidente russo se reuniu com seus ministros das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, da Defesa, Serguei Shoigu, que passaram mensagens mais brandas em relação a disposição russa de negociar o fim da crise na Ucrânia

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2022 | 11h26
Atualizado 14 de fevereiro de 2022 | 16h48

Mesmo com navios de guerra russos participando de exercícios militares próximos a costa ucraniana no Mar Negro e com os Estados Unidos alertando para o risco iminente de tropas russas atacarem o país vizinho em diferentes direções, o chefe da diplomacia da Rússia, Serguei Lavrov, recomendou ao presidente Vladimir Putin que mantivesse as portas abertas para negociações com o Ocidente. De acordo com Lavrov, a possibilidade de uma resolução diplomática para a crise está "longe de se esgotar" e pediu a intensificação das conversas com os líderes da Otan.

Em uma reunião televisionada - e aparentemente roteirizada - com Putin nesta segunda-feira, 14, o chanceler russo disse que apoiava a continuidade das negociações com o Ocidente sobre as "garantias de segurança" que a Rússia vem exigindo dos EUA e seus aliados da Otan. 

"Acredito que nossas possibilidades estão longe de se esgotarem", disse Lavrov, referindo-se às negociações da Rússia com o Ocidente. “Eu proporia continuar e intensificá-los.”

Putin respondeu simplesmente: "Bom".

A reunião exibida em rede nacional foi um sinal de que a Rússia pode continuar usando a ameaça de uma invasão à Ucrânia para tentar espremer concessões diplomáticas do Ocidente, em vez de recorrer à ação militar imediata.

Desde o início da atual escalada de hostilidades, Moscou tem como principal exigência a garantia por escrito de que a Ucrânia nunca será autorizada a ingressar na Otan. Além disso, o Kremlin também solicitou a retirada das forças ocidentais de toda a Europa Oriental - antiga zona de influência da União Soviética.

Os EUA e a Otan rejeitaram formalmente essas exigências, mas indicaram que várias áreas - incluindo controle de armas nucleares e limites de exercícios militares - estavam abertas para negociação, mas o Kremlin não respondeu formalmente.

Putin voltou a se opor ao que chama de "interminável e muito perigosa expansão da Otan para o Leste", mas apoiou a conclusão de Lavrov sobre a necessidade de manter o diálogo em aberto, informou a agência de notícias russa RIA Novosti, citando o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

Na reunião televisionada, Putin perguntou a Lavrov se ele havia preparado um esboço de resposta às propostas que os Estados Unidos e a Otan apresentaram no mês passado. O chanceler disse que preparou uma resposta de 10 páginas, sem oferecer detalhes.

De acordo com Peskov, o Kremlin vai anunciar quando a Rússia apresentar a resposta formal, e que Putin decidirá se o conteúdo do documento será tornado público.

Enquanto massivos exercícios militares russos continuavam a ocorrer em Belarus, no Mar Negro, no sul da Rússia e em outras partes do país, Putin também se encontrou com o ministro da Defesa russo, Serguei Shoigu, que disse que alguns dos exercícios estavam chegando ao fim e outros seriam concluídos "em um futuro próximo".

Tropas russas também participaram de movimentações na Transnístria, região separatista da Moldávia que faz fronteira com a Ucrânia - fechando um aparente cerco ao país, com tropas ao norte, sul e leste.

O encontro com os principais conselheiros das áreas diplomática e bélica ocorre após um fim de semana de pressão para Moscou. No sábado, Putin ouviu ameaças do presidente americano, Joe Biden, que afirmou que sanções "rápidas" e "custosas" seriam aplicadas à Rússia em caso de invasão. O presidente russo também teve uma reunião de cúpula com o líder francês Emmanuel Macron, que pediu pela continuidade da via diplomática. Ao presidente francês, Putin se queixou das "provocações" americanas sobre a crise na Ucrânia.

Desde o fim da semana passada, Moscou tem reiteradamente negado que esteja se preparando para invadir a Ucrânia, principalmente após autoridades americanas afirmarem que o avanço das tropas russas em direção a Kiev era "iminente" - o que foi classificado pelo Kremlin como "o auge da histeria americana".

Via diplomática

Novas rodadas de negociação diplomática vão ocorrer ao longo da semana. O chanceler alemão, Olaf Scholz, tem uma reunião marcada com Putin nesta quarta-feira, 16, mesma data em que o ministro das Relações Exteriores da Itália, Luigi de Maio, se encontrar com Lavrov. O presidente Jair Bolsonaro também estará em Moscou na quarta, mas não deve falar sobre questões de segurança global - a delegação brasileira deve tratar principalmente questões bilaterais, como a crise dos fertilizantes.

Antes da chegada em Moscou, porém, os dois representantes da União Europeia fazem escala em Kiev, numa forma de equilibrar a agenda ante a crise. Scholz esteve com o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, nesta segunda-feira, e afirmou não haver "razões sensatas" para a concentração de mais de 130 mil soldados russos nas fronteiras da Ucrânia, pedindo mais diálogo.

Scholz pediu a Moscou que “tome medidas claras para diminuir as tensões atuais”, dizendo que a soberania da Ucrânia não é negociável. Ele disse que a expansão da Otan atualmente “não está na agenda”, acrescentando que o fato de isso estar sendo discutido quando “não era possível” era desafiador.

Zelenski disse que ele e Scholz discutiram medidas para continuar as negociações para tentar reviver o processo de paz no leste da Ucrânia.

Mais cedo, o Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia descartou qualquer compromisso sobre seu objetivo de ingressar na Otan e pediu garantias de segurança para impedir uma invasão russa, em meio a alertas de autoridades dos EUA de que a Rússia poderia lançar um ataque à Ucrânia a qualquer momento.

Peskov disse que se a Ucrânia retirasse sua oferta de adesão à aliança, isso poderia aliviar algumas das preocupações de segurança da Rússia. Moscou insiste que a adesão da Ucrânia à aliança é uma “linha vermelha” que ameaçaria sua segurança - enquanto Kiev argumenta que não representa ameaça à Rússia e que está buscando adesão para garantir sua segurança.

"Certamente seria [a retirada do pedido de adesão] um passo que promoveria substancialmente a formulação de uma resposta mais significativa às preocupações da Rússia”, disse Peskov.

Em Kiev, autoridades ucranianas esclareceram comentários do embaixador do país no Reino Unido, Vadim Pristaiko. Ele causou confusão no domingo quando disse à BBC que a Ucrânia poderia estar disposta a “contemplar” a retirada de sua oferta de adesão para evitar uma guerra catastrófica.

O Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia disse em comunicado na segunda-feira que “a questão-chave para nosso país é a questão das garantias de segurança”. Ele acrescentou: “Sem dúvida, a melhor garantia seria a admissão imediata da Ucrânia na Otan".

 

Em nova entrevista na BBC nesta segunda, o embaixador tentou esclarecer seu ponto. “Não somos membros da Otan neste momento e, para evitar a guerra, estamos prontos para muitas concessões, e é isso que estamos fazendo em nossas conversas com os russos”, disse ele. Mas ele também disse que seu comentário não tem nada a ver com a tentativa da Ucrânia de ingressar na Otan, que está escrita na constituição do país.

Embora Kiev continue a pressionar pela adesão, é improvável que a Ucrânia se junte tão cedo ao bloco. O presidente Biden afirmou em junho passado que o país tem um longo caminho a percorrer para atender aos padrões da Otan, incluindo o progresso no combate à corrupção./ NYT, W.POST, AFP, REUTERS, AP.

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