Conselho da ONU deve manter silêncio sobre crise no Tibete

Poder de veto chinês impede debate; China confirma 16 mortes enquanto oposição fala em centenas de vítimas

Agências internacionais,

17 de março de 2008 | 14h55

O Conselho de Segurança das Nações Unidas aparentemente manterá silêncio sobre os confrontos entre manifestantes tibetanos e a polícia chinesa, por acreditar que uma possível agressão a Pequim não ajudaria na solução do conflito, afirmaram diplomatas nesta segunda-feira, 17. Mais cedo, o governador da região ocupada pela China há quase 50 anos anunciou que pelo menos 16 pessoas teriam morrido nos confrontos em Lhasa, capital da província, enquanto o governo tibetano exilado na Índia diz que centenas já morreram. Os protestos já chegaram à capital e mobilizaram 40 estudantes.   Veja também: China confirma 16 mortes em protestos no Tibete Entenda os protestos no Tibete China bloqueia acesso a YouTube e Guardian China procura agitadores 'casa por casa' Dalai Lama denuncia 'genocídio cultural'    A China é um dos cinco integrantes permanentes do grupo formado ainda por Estados Unidos, Rússia, França e Reino Unido. Pequim denunciou na segunda-feira a realização de ataques por ativistas pró-Tibete contra as embaixadas do país, horas antes do final de um prazo dado para que os responsáveis pelos distúrbios em Lhasa, a capital tibetana, se entregassem. O governo chinês anunciou que fará todo o possível para preservar integridade territorial do país. A declaração do Ministério das Relações Exteriores, em uma entrevista coletiva convocada de última hora, surgiu enquanto cerca de 40 estudantes ocupavam a Universidade Central para Nacionalidades, em Pequim, marcando a chegada das manifestações pró-Tibete à capital chinesa.   As autoridades chinesas disseram na segunda-feira que haviam agido com grande cautela em face dos protestos violentos realizados pelos tibetanos, os quais a China atribuiu a seguidores do Dalai Lama que desejariam prejudicar os Jogos Olímpicos de Pequim, marcados para agosto. No entanto, mesmo que o governador do Tibete tenha dito que nenhuma arma foi usada contra os manifestantes em Lhasa, soldados ocupavam as cercanias da capital da região a fim de assegurar a ordem enquanto chegava ao fim o prazo dado para que os manifestantes se entregassem.   "Este assunto não surgirá no Conselho", disse o representante chinês na órgão da ONU Liu Zhenmin. "Isto não tem relação com a paz e a segurança", "isto é violência local, um assunto doméstico", afirmou. Mesmo se a questão fosse colocada para discussão no Conselho de Segurança, a China poderia vetar qualquer tipo de decisão, já que possui decisão de voto.   O representante russo no órgão, Vitaly Churkin, afirmou que ele não acredita que as 15 nações que integram o grupo discutirão a questão do Tibete. Outros embaixadores confirmaram a posição do colega russo. Um diplomata, em condição de anonimato, afirmou que o Conselho deve guardar silêncio sobre o conflito. "Acredito que a idéia é que se o tema for discutido, será rejeitado pela China e não alcançaremos nada", afirmou.   A continuidade das tensões deve garantir que os episódios de violência vistos na semana passada no Tibete continuem pairando sobre o país independentemente de qual solução o caso tiver. É previsível que se repitam os protestos fora da China, os apelos pela calma e as ações de repressão, tudo isso pesando de forma desconfortável no período que antecede os Jogos.   O governo da Rússia afirmou ter esperanças de que a China adote as medidas necessárias para coibir as "ações ilegais" no Tibete. O breve comunicado divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores do país não fez críticas ao governo chinês.   O governador do Tibete, Qiangba Puncog, disse que as manifestações haviam sido iniciadas por aliados do Dalai Lama, atualmente exilado. "Desta vez, um pequeno grupo de separatistas e de elementos criminosos envolveu-se em atos de extrema violência com o objetivo de causar ainda mais publicidade e, assim, prejudicar a estabilidade nesse período crucial dos Jogos Olímpicos. Uma estabilidade de 18 anos conquistada a duras penas", afirmou.   Protestos   Desde o dia 10 de março, data escolhida para marcar o 49.º aniversário de uma revolta contra o domínio chinês na região, que foi reprimida, ocorrem no mundo todo protestos diários em defesa do Tibete. Segundo a BBC, os protestos de tibetanos entraram em sua segunda semana e se espalharam para províncias próximas da região do Himalaia, incluindo Gansu, Qinghai e Sichuan.   Dezenas de estudantes se sentaram em protesto em uma universidade para minorias étnicas em Pequim na segunda-feira, levando as manifestações pró-Tibete à capital da China pela primeira vez.  Aproximadamente 40 estudantes se sentaram na Universidade Central para Nacionalidades em Pequim depois que vários deles foram levados embora, disseram testemunhas.   Qualquer protesto estudantil em Pequim é significativo, pois relembra os protestos pró-democracia que ocorreram na Praça da Paz Celestial em 1989, que foram sufocados pelos militares com grande número de vítimas fatais.   Um novo protesto foi realizado no monastério de Rongwo, na cidade de Tongren (província de Qinghai), onde os monges desafiaram a ordem de permanecer em casa. No domingo, relatos indicam que a região de Aba, na província de Sichuan, e a cidade de Machu, em Gansu, também foram cenário de protestos. Segundo a campanha Free Tibet (Tibete Livre), os manifestantes de Machu foram até prédios do governo, destruíram portas e janelas. Eles também teriam incendiado lojas e empresas chinesas na cidade.   No domingo, a polícia francesa usou bombas de gás lacrimogêneo contra cerca de 500 manifestantes reunidos na frente da Embaixada da China em Paris. E houve incidentes nas missões diplomáticas chinesas de Nova York e da Austrália.

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