EFE/EPA/JASON SZENES
EFE/EPA/JASON SZENES

Conselho de Segurança da ONU rejeita proposta russa de condenação a ataque

Apenas Rússia, China e Bolívia votaram a favor da resolução durante a reunião de emergência do organismo; americanos dizem estar 'prontos para disparar' caso Bashar Assad volte a usar armas químicas, enquanto russos acusam Ocidente de 'hooliganismo'

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2018 | 15h28
Atualizado 14 Abril 2018 | 17h15

GENEBRA - O Conselho de Segurança das Nações Unidas decidiu rejeitar neste sábado, 14, a proposta da Rússia de condenar a ação militar contra ocorrida nesta madrugada e coordenada pelos EUA, com forças do Reino Unido e França, a instalações de produção de armas químicas na Síria.

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Desta forma, o CS da ONU fracassou uma vez mais em chegar a um entendimento sobre como lidar com a Síria e, paralisada, a entidade internacional já teme que a situação entre as potências "saia de controle". 

Para o presidente Vladimir Putin, o ataque foi um "ato de agressão", deixando claro na ONU que consideraria a iniciativa como uma violação das regras internacionais e com repercussões militares. No Conselho de Segurança, o embaixador russo, Vassili Nebenzia, apresentou um texto para votação no qual falava de uma "condenação à agressão" contra a Síria. O projeto ainda pedia o fim "imediato" de qualquer operação. 

Para o Kremlin, o Ocidente comete "hooliganismo diplomático", promove um "desdém cínico" ao ignorar o Conselho de Segurança e "chorava lágrimas de crocodilo" pelas vítimas sírias. 

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O discurso de Nebenzia foi duramente criticado pelos aliados de Washington. O governo britânico indicou que "não aceitava ouvir aulas da Rússia", enquanto a diplomata americana, Nikki Haley, alertou que novos mísseis estavam "carregados e prontos serem disparados", caso Bashar Assad volte a usar armas químicas. 

Ao final do debate, apenas Rússia, China e Bolívia apoiaram o texto, que teve oito votos contrários e três abstenções. A resolução precisava de pelo menos nove votos a favor para ser aprovada. 

Para diplomatas, o resultado refletiu uma vez mais a profunda divisão no órgão mais poderoso da ONU, paralisado sobre como lidar com a pior guerra do século 21. Mesmo sem uma resolução comum e um acordo, a reunião deixou claro que os ataques do Ocidente ocorreram sem a autorização do CS, uma violação das regras internacionais.

Nos bastidores, a ONU teme que o ataque, ainda que tenha sido focado, possa abrir uma caixa de Pandora no Oriente Médio, acionando diferentes alianças e obrigando grupos específicos a dar respostas locais para reforçar seus controles em diferentes regiões. O resultado, segundo pessoas próximas à cúpula da ONU, seria a transformação do território sírio em um terreno de combate entre as potências, com um impacto para além de suas fronteiras. 

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Turquia, Líbano e mesmo partes do Iraque, na avaliação de diplomatas, poderiam ser "engolidos" em uma nova lógica. Em Israel, o governo deixou claro que apoiava a ação, algo que também contou com o apoio explícito do secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jens Stoltenberg. "O uso de armas químicas é inaceitável", disse.

Moderação

Oficialmente, o secretário-Geral da ONU, António Guterres, apelou para que os países demonstrem "moderação" e evitem ações que possam elevar as tensões na Síria. "Eu peço a todos os Países Membros que demonstrem moderação nessas perigosas circunstâncias e evitem ações que levem à escalada da situação e piore o sofrimento do povo sírio", disse. "Precisamos evitar que a situação saia de controle."

Mas a falta de consenso no Conselho de Segurança sobre como agir na Síria e o fato de o Ocidente ter ignorado as regras da entidade, segundo os negociadores, abririam brechas para uma guerra de proporções ainda maiores. "A Síria é a maior ameaça à paz mundial", disse Guterres. Segundo ele, é no território sírio que uma "guerra por procuração" está ocorrendo entre exércitos de diversas nacionalidades. 

"Expresso o meu profundo desapontamento pelas falhas do Conselho de Segurança em concordar com a criação de um mecanismo para investigar o uso de armas químicas na Síria", afirmou o português. Nos últimos dias, o Conselho realizou diversas reuniões que não atingiram consenso sobre investigações na região e ainda levaram Guterres a alertar que o mundo vivia "uma nova guerra fria". 

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Num recado claro aos governos que promoveram o ataque sem uma autorização da ONU, Guterres insistiu que cabe ao Conselho de Segurança agir em questões de guerra. 

O Estado apurou que existe o temor de que a aliança ocidental ou mesmo russos possam realizar operações que acabem gerando danos colaterais nas forças armadas de potências militares, levando o outro lado a ser obrigado a responder. "Isso seria um passo para uma guerra generalizada, com um impacto imprevisível", disse uma fonte próxima a Guterres. 

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