ISNA/Handout via REUTERS
ISNA/Handout via REUTERS

No Conselho de Segurança da ONU, EUA advertem para 'clara ameaça' do Irã após ataques a petroleiros

Governo Trump pediu encontro nesta quinta-feira para discutir a situação no Golfo de Omã; secretário-geral da Liga Árabe alerta para 'evolução perigosa' no Oriente Médio e Irã nega 'categoricamente' participação no ataque

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2019 | 13h57
Atualizado 14 de fevereiro de 2020 | 12h32

NAÇÕES UNIDAS - Os Estados Unidos pediram nesta quinta-feira, 13, ao Conselho de Segurança da ONU que enfrente a "clara ameaça" representada pelo Irã, após Washington acusar Teerã de estar por trás do ataque contra dois navios petroleiros, um da Noruega e outro de Singapura, no Golfo de Omã

O Conselho se reuniu para escutar o embaixador americano Jonathan Cohen, que apresentou um relatório sobre a responsabilidade do Irã nos ataques contra os petroleiros. 

Os ataques desta quinta-feira ocorrem um mês depois de outro incidente similar, contra quatro petroleiros diante da costa dos Emirados Árabes Unidos, e "demonstram a clara ameaça que o Irã representa para a paz e a segurança internacionais", disse Cohen.  "Pedi ao Conselho de Segurança que se mantenha atento ao assunto e espero que tenhamos mais conversas sobre como agir nos próximos dias". 

 

Fontes do governo americano afirmaram ter imagens que mostram uma embarcação iraniana removendo uma mina que não explodiu em um dos petroleiros. As imagens, porém, não foram divulgadas.

A missão do Irã na ONU, por sua vez, afirmou que seu governo "rejeita categoricamente" a alegação dos EUA de que o país seria responsável pelo ataque. Além disso, Teerã condenou o episódio "nos termos mais fortes possíveis".

O comunicado divulgado na noite de quinta-feira pela missão afirma que o Irã "continua a estar preparado para ter um papel ativo e construtivo na garantia da segurança das passagens marítimas estratégicas, bem como para a promoção da paz, da estabilidade e da segurança na região".

O Irã advertiu contra a "coerção, intimidação e o comportamento maligno dos EUA" e expressou preocupação "com incidentes suspeitos" com os dois petroleiros nesta quinta-feira.

Conselho de Segurança

A posição de Washington não foi compartilhada por outros membros do Conselho, que não veem evidência clara para vincular o Irã aos ataques, destacaram fontes diplomáticas. 

O embaixador do Kuwait, Mansour Al Otaibi, revelou que membros do Conselho condenaram a violência e muitos pediram uma investigação para determinar os fatos. "Gostaríamos de saber quem está por trás deste incidente".

Mais cedo, secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou os ataques, durante uma reunião do Conselho de Segurança sobre cooperação entre o organismo internacional e a Liga Árabe.

"Condeno todo ataque a navios civis", disse o chefe da ONU, que pediu uma investigação dos fatos ao mesmo tempo em que advertiu que o mundo não pode suportar um conflito de grandes proporções no Golfo.

Depois da intervenção de Guterres, o secretário-geral da Liga Árabe, Ahmed Aboul Gheit, denunciou perante o Conselho de Segurança "uma evolução perigosa" no Oriente Médio.

"O ataque aos petroleiros e os ataques com um míssil no coração da Arábia Saudita, como vimos há dois dias, são acontecimentos perigosos e deveriam levar o Conselho de Segurança a agir contra os responsáveis por manter a segurança e a estabilidade na região", disse.

O chefe da Liga Árabe disse também que "algumas partes da região estão tentando reacender o fogo", mas não esclareceu sobre quais países se referia. Há um mês, quatro navios sofreram ataques similares na mesma região em frente à costa dos Emirados Árabes Unidos

Em um relatório  de investigação preliminar, os Emirados Árabes Unidos consideraram que os ataques foram obra de um "ator estatal", embora não tenha identificado o país responsável.

Consequências

Para o iraniano Trita Parsi, diretor do National Iranian American Council e autor de um livro sobre as negociações nucleares entre o governo de Barack Obama e o Irã, a Casa Branca estaria adotando uma tática para forçar o regime a negociar. “Já vimos este filme antes: mesmo na ausência de provas, mesmo com indícios de que outros podem estar envolvidos, os EUA e seus aliados apontarão o dedo para o Irã”, afirmou Parsi ao Estado

“É uma forma de tentar emparedar o Irã e forçar os líderes iranianos a negociar, mas pode acabar numa guerra regional.”

Segundo analistas, o risco de um conflito acidental aumenta a cada novo ataque. “Esses incidentes são um mau presságio, porque apontam para uma escalada calculada, que indica que ambos os lados estão se escondendo e tentando provocar o outro”, disse Fawaz Gerges, professor de política do Oriente Médio na London School of Economics. “Esse é um dos mais perigosos momentos da região na última década, pois qualquer ação pode provocar uma retaliação e uma guerra acidental tem grande risco de ocorrer.”

Preço do petróleo 

O incidente aumentou a tensão regional e elevou o risco de um conflito e seus efeitos no preço do petróleo – depois dos ataques, o do barril subiu 3,85%.  O foi significativo, mas não é excepcional, dentro das variações de um mercado extremamente volátil. De acordo com especialistas, no entanto, um conflito poderia elevar os preços a até US$ 250 o barril (hoje o preço está em US$ 61,25). 

Segundo modelos desenvolvidos pelo economista e analista de risco Vincent Lauerman, da consultoria canadense Geopolitics Central, no cenário atual, com guerra verbal e ataques pontuais, o preço do barril poderia subir 10% até o fim do ano, chegando perto dos US$ 70 o barril.

“Poderia haver uma guerra por procuração entre Estados apoiados por Irã, de um lado, e países aliados de Arábia Saudita e EUA, do outro, como ocorre no Iêmen, mas englobando toda a região. Nesse caso, o preço poderia chegar a US$ 100 o barril e seria difícil para qualquer dos membros da Opep modificar esse cenário com aumento da produção”, escreveu Lauerman em relatório publicado em maio. 

“O pior cenário, mas também o mais improvável, é de uma guerra entre Irã e Arábia Saudita diretamente. Nesse caso, a depender das consequências, como fechamento do Estreito de Ormuz, o barril poderia chegar a US$ 250 – mas tanto EUA quanto Irã e Arábia Saudita querem evitar esse cenário”. / NYT, AFP e REUTERS, COM RODRIGO TURRER

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