EFE/EPA/Tasos Katopodis/POOL
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Conselho de Segurança Nacional dos EUA emitiu alertas antecipados sobre coronavírus

Durante janeiro e grande parte de fevereiro, altos funcionários do governo Trump debateram calorosamente o escopo e a escala da pandemia que havia emergido da China e estava se espalhando pelo mundo

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2020 | 05h00

A pandemia de covid-19 é uma crise de saúde pública, mas também é um enorme desafio à segurança nacional dos EUA. Esse aspecto da crise está sendo gerenciado por uma equipe mais enxuta e silenciosa do Conselho de Segurança Nacional (NSC, na silga em inglês)que emitiu alarmes antecipados sobre o perigo, enquanto outros minimizavam a ameaça.

O papel de bastidores do NSC foi negligenciado por críticos que se concentravam em saber se a inserção no conselho de um "escritório de pandemia" – que antes era separado –, resultou na resposta caótica do governo. Mas, desde cendo, o NSC estava realmente pedindo ações mais robustas e trabalhando para envolver mais autoridades de saúde.

Durante janeiro e grande parte de fevereiro, funcionários do primeiro escalão do governo de Donald Trump debateram calorosamente o escopo e a escala da pandemia de coronavírus, que havia surgido na China e estava se espalhando pelo mundo. O novo consultor de segurança nacional, Robert O'Brien, e seu vice, Matthew Pottinger, estavam entre os que pressionaram por uma ação forte. Pottinger, que viveu na China como repórter do Wall Street Journal durante a crise da Sars, sabia como o governo chinês lida com crises internas e que estava subestimando o problema.

Antes de o vice-presidente Mike Pence assumir a força-tarefa de coronavírus da Casa Branca, no final de fevereiro, Pottinger liderou as reuniões entre agências para responder à covid-19. Fluente em mandarim e intimamente familiarizado com o padrão de mentira do governo chinês, ele e O'Brien pressionaram repetidamente outras autoridades a levar a ameaça mais a sério.

"O sujeito que co-presidiu a maioria das reuniões da força-tarefa, antes de o vice-presidente assumir o cargo, relatou e viveu o rompimento da Sars na China", disse um alto funcionário do governo. "Pottinger mantém contatos significativos na região, que se mostraram muito úteis para fornecer contexto e informações para nós, à medida que lidamos com a crise."

Alguns outros funcionários do governo Trump na época não estavam convencidos. O NSC fez um grande esforço para interromper as viagens da China, uma medida que o Departamento de Estado adotou em 31 de janeiro. Mick Mulvaney, chefe de gabinete da Casa Branca na época, disse, no final de fevereiro, que a mídia exagerava a ameaça e era um esforço para derrubar Trump. (Mulvaney deixou o governo no início de março.)

Duas autoridades disseram que o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, também resistiu aos pedidos do NSC e do Departamento de Estado por medidas antecipadas que Trump agora anuncia - incluindo as proibições de viagens da China e, mais tarde, da Europa. Mnuchin argumentou que as medidas afetariam negativamente o comércio, os mercados e as indústrias, como as companhias aéreas. O Departamento do Tesouro não respondeu aos pedido de comentário.

"O NSC está absolutamente à frente disso", disse o alto funcionário do governo americano. "O NSC foi o primeiro a pedir a proibição de navios de cruzeiro. Os especialistas do NSC foram os primeiros, com os profissionais de saúde, a pedirem o corte de viagens aéreas da China e da Europa. Isso veio da equipe e da liderança do NSC."

A equipe do NSC assumiu um perfil mais discreto sob O'Brien, seu quarto líder durante o governo Trump. Ele não comparece às reuniões de coronavírus na Casa Branca. Ele não esteve na TV falando sobre a crise. Isso reflete a abordagem deliberada de O'Brien, uma correção do estilo de confronto e público de seu antecessor e ex-mentor, John Bolton.

Nos bastidores, O'Brien está tentando devolver a equipe do NSC ao "modelo Scowcroft" (assim chamado pelo ex-consultor de segurança nacional Brent Scowcroft), que vê o conselho como um órgão que executa um processo, em vez de uma agência que defende uma agenda ideológica. Ele concluiu a redução da equipe do NSC, de cerca de 170 para 115 funcionários. Algumas dessas medidas foram criticadas por sua motivação política, como a repentina transferência do tenente-coronel do Exército Alexander Vindman, que testemunhou contra Trump no inquérito de impeachment.

Também tem sido dito que o NSC reduziu sua expertise em pandemia sob Trump. No entanto, essas afirmações não resistem ao escrutínio. O'Brien não cortou funcionários da Defesa ou de segurança da saúde. Seu antecessor, Bolton, havia consolidado a equipe de biodefesa e contraproliferação em uma única diretoria, como explicou seu líder, Tim Morrison, em uma coluna do Washington Post. O'Brien completou as reduções de pessoal que Bolton iniciou, mas ele não demitiu ninguém.

De fato, quando a crise do coronavírus estava se desenvolvendo, O'Brien ligou para o Secretário de Estado, Mike Pompeo, e pediu que ele indicasse imediatamente um alto funcionário do Departamento de Estado para ajudar com o coronavírus no NSC. Deborah Birx, foi posteriormente designada para trabalhar com Pence e nomeada coordenadora de resposta ao coronavírus da Casa Branca.

Este mês, Pottinger liderou uma equipe interinstitucional separada, focada no combate à propaganda e desinformação por coronavírus provenientes do governo chinês. Por meio de suas contas oficiais do Twitter, briefings com jornalistas e trabalho com o Centro de Engajamento Global do Departamento de Estado, a equipe tem lutado contra os esforços de Pequim para reescrever a história da pandemia e propagar a teoria da conspiração de que o vírus se originou nos Estados Unidos. 

Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, prometeram reprimir esse tipo de retórica durante um telefonema na sexta-feira, disseram autoridades. Após a ligação, Trump tuitou: "Estamos trabalhando juntos. Muito respeito!" Se a relação melhorar, a campanha de contra-ataque pode ter alcançado seu objetivo.

O governo dos EUA cometeu muitos erros antes de perceber a gravidade e a urgência da pandemia de coronavírus. Uma lição que devemos tirar é que, quando especialistas em saúde e segurança nacional soam o alarme, os políticos devem ouvi-los e agir.

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