Filippo Monteforte/AFP
Filippo Monteforte/AFP

Conselho rebelde líbio transfere sua sede de Benghazi para ''Trípoli liberada''

Apesar de combates, rebeldes anunciam início de seu governo na capital e volta da exportação de petróleo - Pacto na ONU libera bilhões de Kadafi congelados - Brasil aguardará para reconhecer opositores - Forças anti-Kadafi assumem cadeira na Liga Árabe

Andrei Netto e Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2011 | 00h00

ENVIADOS ESPECIAIS / TRÍPOLI

A partir de hoje, a Líbia tem um novo governo para todo o país. O Conselho Nacional de Transição (CNT) anunciou no final da noite de ontem, em Trípoli, a transferência da sede da administração provisória rebelde de Benghazi para a capital. A decisão foi tomada a despeito dos combates, que permanecem. Ao mesmo tempo, a ONU aprovou o descongelamento de US$ 1,5 bilhões em fundos de Muamar Kadafi para financiar a transição (mais informações na pág. 13).

Ontem, apoiados por bombardeios aéreos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), os rebeldes ocuparam o bairro de Abu Salim, onde fica o mais importante complexo ainda sob controle das forças de Kadafi na capital, e avançaram sobre Sirte, 400 km a leste.

A instalação do governo provisório foi comunicada à imprensa por Ali Tarhouni, ministro das Finanças e do Petróleo do CNT. "Eu proclamo o início dos trabalhos do gabinete executivo na Trípoli livre a partir deste momento", anunciou em entrevista coletiva no Hotel Radisson Blu, centro da capital. Segundo ele, maiores detalhes da transferência serão informados hoje, mas pelo menos oito dos "ministros" do gabinete rebelde já estão na cidade, onde preparam a transição.

Além disso, Tarhouni informou que a National Oil Corporation, a estatal petrolífera líbia, pretende estender a exploração de petróleo para até 600 mil barris por dia em no máximo dois a três meses, com a meta de alcançar 1,6 milhão após a recuperação total das instalações danificadas pela guerra. Para tanto, contratos serão assinados com companhias de "países amigos" nas próximas semanas. O "ministro" anunciou que companhias como Shell, Repsol, Eni e Wintershall já foram contatadas.

A transferência do CNT ocorre em meio a combates tanto na capital quanto no interior. Na noite de ontem, explosões e disparos intensos de armamento pesado ecoavam na cidade - sem que se soubesse com precisão se eram combates ou comemorações. Durante o dia, a Otan fez múltiplos disparos de mísseis por aviões, o que abriu caminho para que milhares de combatentes avançassem sobre o bairro de Abu Salim, em uma área de Trípoli famosa pela fidelidade a Kadafi e situada ao sul da fortaleza de Bab al-Azizia, já conquistada pelos rebeldes.

O Estado esteve no bairro e constatou a mobilização das forças rebeldes, que além de armas leves carregavam artilharia pesada para combater os resistentes - entre os quais atiradores de elite pró-regime que continuam a fazer vítimas na capital. Os choques foram cercados de rumores de que o ditador estaria encurralado na região e sua captura seria iminente. Os boatos - supostamente com base em informações dos serviços de inteligência americano e britânico - provocaram euforia entre os insurgentes. Em uma gravação divulgada pela TV por satélite Arrai, com base na Síria, Kadafi voltou a pedir resistência e a limpeza da capital "dos ratos". "Trípoli é para vocês, homens e mulheres. Saiam às ruas e libertem-na."

Também em Trípoli, o entorno do Aeroporto de Mitiga foi palco de confrontos. Mortos se espalhavam pela região e um avião comercial da companhia aérea estatal Afriqiyah foi destruído por um morteiro. O teatro das operações militares deslocou-se da capital para as cidades de Sirte, terra natal de Kadafi, e Zuara.

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