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Em novo livro, Clinton oferece argumentação sucinta com base no senso comum sobre por que o país precisa de um governo nacional forte

É CRÍTICA LITERÁRIA, MICHIKO, KAKUTANI, THE NEW YORK TIMES, É CRÍTICA LITERÁRIA, MICHIKO, KAKUTANI, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2011 | 03h06

O novo livro de Bill Clinton, Back to Work ("De volta ao trabalho", em tradução livre) é, na verdade, muitos livros em um único volume.

É uma lúcida rejeição individual da agenda antigoverno do movimento Tea Party; uma série de pontos temáticos inteligentes para democratas que estão tentando se segurar na Casa Branca e lutando pelo controle do Congresso em meio a uma economia deteriorada e a crescente insatisfação do eleitor; um lembrete interesseiro da prosperidade de que os EUA gozaram durante o mandato de Clinton na Casa Branca; e um conjunto prático de propostas - algumas emprestadas, outras novas - para o país recuperar o crescimento econômico e criar empregos.

O livro, que parece uma versão expandida de um artigo de Clinton publicado na Newsweek em junho, mostra o ex-presidente em dois modos familiares: o estudioso independente de política e o político genial no corpo a corpo com o público.

Num momento em que a vociferação antigoverno domina os debates republicanos e os democratas muitas vezes parecem estar na defensiva, Clinton oferece uma argumentação sucinta com base no senso comum sobre por que os EUA precisam de um governo nacional forte, por que os cortes de gastos e o aumento da arrecadação fiscal são necessários para enfrentar o problema da dívida (que vai piorar por causa da demografia de uma população baby boomer que está envelhecendo) e por que o problema da dívida "não pode ser resolvido a menos que a economia recomece a crescer".

Embora Clinton questione a adoção pelo governo de Barack Obama das garantias de empréstimos à energia nuclear - ele menciona a vulnerabilidade de usinas nucleares a desastres naturais e afirma que "a energia nuclear não é uma grande criadora de empregos comparada com outras fontes de combustíveis limpos" - o grosso desse livro salienta como Clinton está estreitamente alinhado com o presidente em muitas questões políticas.

O livro contrasta sua abordagem econômica comum com a de republicanos, de Ronald Reagan a George W. Bush, que, escreve Clinton, abandonaram a ideia de um orçamento equilibrado e optaram por "grandes cortes de impostos especialmente para pessoas de alta renda como eu, e por duas guerras e o benefício de drogas para o cidadão idoso", que resultaram numa bola de neve do déficit.

Ao mesmo tempo, o livro tem um subtexto passivo sugerindo que Clinton entrou num vazio - "voltou ao trabalho", nas circunstâncias - para vender políticas de Obama que não foram vendidas com insistência ao povo americano. Clinton escreve que começou e parou de escrever o livro várias vezes, pois não queria "simplesmente acrescentar mais uma pedra no lado democrático da balança partidária", mas "decidiu prosseguir por achar importante que todos os americanos tenham uma compreensão clara dos fatos econômicos básicos e das ideias que movem as propostas políticas em discussão".

Clinton questiona-se por que "o presidente e o Congresso democrata não elevaram o teto da dívida após a eleição, em novembro ou dezembro de 2010, quando ainda tinham a maioria". Uma medida dessas teria provavelmente evitado as desgastantes negociações até o último minuto do último verão americano, que, segundo Clinton, fizeram os EUA parecerem "fracos e confusos" para o restante do mundo.

Entre as razões para o porte das vitórias republicanas em 2010, argumenta Clinton, esteve a incapacidade de os democratas "contraporem uma mensagem própria à mensagem nacional republicana". Os republicanos, na visão de Clinton, fizeram "uma campanha mais eficaz, mais agressiva" que caracterizou a presidente da Câmara Nancy Pelosi, o líder da maioria no Senado, Harry Reid, e Obama "como extremistas de esquerda que queriam exaurir os EUA até a ruína, regulamentar a economia levando-a a uma recessão prolongada, e levar indivíduos à pobreza e empresas à bancarrota com impostos". Os democratas, diz ele, "fizeram campanhas individuais sem uma grande mensagem", aparentemente porque "não conseguiram concordar com uma".

Experiência. Que espécie de autoridade Clinton apresenta para escrever esse livro? Seus admiradores argumentarão que ele é o autor ideal para um livro sobre como consertar a economia, e apontarão para seu histórico como presidente - reduzindo o déficit federal, reformando o sistema de bem-estar social, enfraquecendo a reputação de seu partido de perdulário e presidindo a mais longa expansão econômica de que se tem registro com redução do desemprego, elevação das rendas e melhoria da competitividade no cenário mundial.

Mais ainda, como presidente e depois como fundador da Clinton Global Initiative, ele compreende a política e economia da globalização e a dinâmica da era da informação tecnológica.

Mas os críticos dirão que as políticas de desregulamentação promovidas pelo governo Clinton contribuíram para condições que levaram ao derretimento de Wall Street de 2008 e a recessão subsequente. Neste livro, Clinton passa por cima dessas questões. Sobre sua assinatura da Lei Gramm-Leach-Bliley repelindo parte da Lei Glass-Steagall da era da Depressão que proibiu bancos comerciais de se envolverem no ramo de investimento, ele argumenta que não é evidente por si mesmo que "a crise hipotecária foi acelerada e ampliada pelo fim da divisão entre bancos comerciais e de investimento".

Regulação. Sobre a questão de não ter regulado efetivamente os derivativos financeiros, Clinton escreve, "eu posso ser justamente criticado por não ter feito da necessidade de regulá-los uma questão pública maior".

Mas acrescenta a racionalização de que "não poderia ter feito nada a esse respeito, pois o Congresso republicano era hostil a toda regulamentação, chegando ao ponto de ameaçar deixar a SEC (agência fiscalizadora do mercado de valores mobiliários) sem orçamento, pois o comissário, Arthur Levitt, era vigilante no seu serviço".

Como jornalistas às vezes assinalaram, Clinton sempre foi um leitor onívoro de livros, jornalismo, estudos acadêmicos e governamentais, e adepto de estabelecer conexões úteis entre temas altamente desconexos.

Suas prescrições para criar empregos e enfrentar o problema da dívida refletem esses hábitos, mesmo se atendo a um panorama basicamente centrista. Clinton apresenta várias ideias para aumentar os empréstimos bancários e o investimento corporativo, desenredando a confusão hipotecária e emendando leis fiscais para incentivar corporações a trazerem mais dinheiro de volta para os EUA.

Algumas de suas propostas simplesmente ratificam iniciativas encaminhadas pelo governo Obama, incluindo os cortes dos impostos cobrados na fonte, investimento em infraestrutura e programas de crédito estudantil. Algumas - por exemplo, sobre a Previdência Social - são pouco mais que avaliações de recomendações feitas pela comissão bipartidária Simpson-Bowles para a dívida. E algumas - como simplificar a regulamentação, investir em treinamento profissional e permitir que jovens imigrantes talentosos preencham empregos em ciência, tecnologia, engenharia e matemática que não podem ser preenchidos por americanos - fazem eco de propostas colocadas pelo prefeito Michael Bloomberg, de Nova York, em um discurso em 2010 sobre a promoção do crescimento econômico no longo prazo.

Quanto às ideias que parecem mais originais de Clinton, várias podem parecer interessantes no papel, mas são vagas e não podem ser concretizadas com facilidade. Por exemplo, "exportar mais serviços", ou imitar a Alemanha ao se concentrar "na fabricação de produtos sofisticados e em levar companhias menores às exportações".

Outras propostas parecem difíceis até mesmo de imaginar como efetiva e entusiasticamente aplicada, entre elas trabalhar para tornar um ou dois Estados (como Nevada com sua imensa capacidade solar e eólica) "completamente independente em energia" com a "elevação ao máximo de sua capacidade de produzir e consumir energia", ou impor um "imposto sobre valor agregado" que "ajudaria a aumentar nossas exportações" e tornar "nossos produtos mais acessíveis em outros mercados".

Clinton deixa perfeitamente claro que algumas ideias que lançou nessas páginas são pensamentos anotados apressadamente que requerem mais investigação.

Em um ponto ele diz que não sabe "se o FED (Banco Central americano) tem autoridade legal para investir em um banco de infraestrutura que saldaria investimentos com juros, mas se for legal, penso que é uma boa ideia". No fim das contas, a intenção do livro parece ser menos um plano detalhado para a criação de empregos do que um catalisador para fazer as pessoas concentrarem-se nas questões mais sérias que se colocam para os EUA - que segundo Clinton está "uma bagunça" - e a necessidade de fazê-lo prontamente. Revisando as estatísticas alarmantes, e a essa altura familiares, que mostram os EUA ficando para trás em taxas de graduação no ensino médio e superior, pontuação em ciência e matemática, e mobilidade de renda,

Clinton escreve que "o preocupante em todos esses rankings" não é "o que eles dizem sobre onde estamos, mas o que revelam sobre para onde estamos indo". E acrescenta: "Nós simplesmente não estamos fazendo o que devemos fazer para ficar na frente da competição por bons empregos, novos negócios e inovações revolucionárias".

Não encarar esses fatos inconvenientes, observa Clinton, é parte do problema. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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