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Gilles Lapouge
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Consequências da tortura

Os EUA têm defeitos, mas também virtudes. Não costumam jogar envergonhados a própria roupa suja numa lixeira escondida ou numa máquina de lavar clandestina. Absolutamente. Sua roupa suja, com sangue e excrementos que escorreram sobre ela, eles lavam em público. Como mostram as 500 páginas nas quais a Comissão de Inteligência do Senado descreve horrorizada o comportamento dos EUA e particularmente da CIA entre 2001 e 2007, na guerra contra o terrorismo islâmico.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2014 | 02h01

A leitura dessas páginas é estarrecedora, como o trecho que se refere a um dos membros da Al-Qaeda, Abu Zoubaydah, na Tailândia, em 2002. Trancado numa solitária por 47 dias, ao sair dessa longa noite, foi submetido a interrogatórios por 24 horas ininterruptas e jogado num caixão, afogado, vomitando sem parar, por 17 dias. Há agentes da CIA que, ao término dessas operações ignominiosas, choram e pedem para ser transferidos.

Ainda hoje a quase totalidade dos republicanos defende que se recorra a esse horror em casos extremos para obrigar os suspeitos a falar, com a honrosa exceção do também republicano John McCain. Torturado na juventude pelos vietnamitas, ele repudia que se adote o suplício.

A França, pelo menos desta vez, superou os EUA: utilizou a tortura muito antes do surgimento do terrorismo islâmico, há uns 60 anos, durante a Guerra da Argélia (1954-1962). De fato, o Exército francês tentou esmagar a revolta dos argelinos que lutavam pela independência, os fellaghas. Nesse conflito discutível, seus paraquedistas recorreram à desonra mais de uma vez.

A França cometeu baixezas. Não surpreende, portanto, que, a respeito do relatório do Senado americano, um jornal francês tenha entrevistado Marine Le Pen, líder do partido de extrema direita, a Frente Nacional. Marine, que em geral controla a própria língua e se apresenta como democrata e defensora dos direitos humanos, não conseguiu impedir que sua verdadeira natureza saísse do limbo. Ela explicou que, em certas circunstâncias, quando "uma bomba explodir a determinada hora", por exemplo "provocando a morte de 200 a 300 civis, é lícito torturar".

Mesmo que Marine, duas horas mais tarde, tenha procurado consertar a gafe, a admissão é impressionante. Marine, tão prudente e astuciosamente política, pela primeira vez falou sua verdade. Por outro lado, como esquecer que seu pai, Jean-Marie Le Pen, o criador da Frente Nacional, lutou na Guerra da Argélia, suspeitando-se que tenha torturado prisioneiros argelinos? Ainda hoje, ele não perde a ocasião para justificar a tortura.

Deveremos então nos desesperar e concluir que os defensores da tortura jamais se emendarão, mesmo que a história prove que seu uso, longe de favorecer a vitória, ao contrário, a afasta e deixa os que a praticaram enfraquecidos, feridos, doentes?

Segundo McCain, "as sevícias infligidas aos prisioneiros produzem informações mais erradas do que precisas". "As vítimas da tortura dão informações falsas para acabar com o seu sofrimento", disse.

A Igreja Católica ensina que não se deve perder a esperança na salvação desses terríveis "pecadores", dos "algozes". Na Idade Média e na Renascença, a Igreja foi um dos piores algozes, em nome de Deus e em nome do amor, de toda a história humana. O punho de ferro dos inquisidores jamais teve descanso contra as heresias, contra os valdenses e o arianismo, o jansenismo, o luteranismo, o gnosticismo, o montanismo.

Quantas jovens, acusadas de bruxaria, foram torturadas e depois conduzidas à fogueira no dorso de jumentos, com o corpo coberto de escarros da população que acrescentava a humilhação ao assassinato e ao suplício. Que cristão ou que católico, hoje, ousaria justificar tais infâmias?

Aliás, a Igreja é uma das instituições que mais zelam pelos direitos humanos, pelo respeito pelo outro, pela nobreza de toda existência, mesmo que o outro honre um Deus diferente do seu, pratique outro culto que não o seu (com exceção de Jean-Marie Le Pen, o bom católico, e de muitos altos funcionários e homens políticos cristãos que se distinguiram lamentavelmente na América Latina, na Argentina, no Chile e mesmo no Brasil, há algumas décadas).

A Igreja Católica aí está para nos encorajar quando a violência do homem contra os seus semelhantes nos revolta. Afinal, entre os herdeiros dos papas inquisidores da Renascença, encontramos um João 23 ou um papa Francisco. É por isso que a Igreja nos diz que não devemos nos desesperar. Basta esperarmos alguns anos ou alguns séculos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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