AFP / NORBERTO DUARTE
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Conservador eleito no Paraguai dependerá da oposição para governar

Mario Abdo Benítez, do Partido Colorado, derrotou o liberal Efraín Alegre no domingo, mas não obteve maioria parlamentar e terá de negociar alianças com rivais

Fernanda Simas, Enviada Especial a Assunção, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2018 | 05h00

Após vencer a eleição presidencial no Paraguai por apenas 3,7% de diferença, o conservador Mario Abdo Benítez terá de negociar alianças com partidos opositores se quiser implementar seu programa nacionalista. Isso porque seu partido, Colorado, perdeu duas cadeiras no Senado, enquanto o Partido Liberal e a Frente Guasú, coalizão de esquerda do ex-presidente Fernando Lugo, mantiveram e ampliaram suas bancadas.

 “Benítez estará obrigado a negociar com um Senado mais heterogêneo. As bancadas de até 3 integrantes estão com os partidos pequenos, como o Unace, que são tradicionalmente próximos do Colorado, mas é preciso ver se somando essas minorias, ele chega a ter uma maioria”, explica o analista Alfredo Boccia Paz. Os colorados estão com 17 cadeiras, os liberais com 13 e a Frente Guasú com 6.

A apuração para o Senado foi acompanhada com expectativa, porque a Casa tem poder de fiscalização sobre o Executivo no Paraguai, com premissa até mesmo de recusar a renúncia do presidente. A Constituição de 1992 prevê como atribuição dos senadores avaliar projetos de lei para a aprovação de tratados internacionais, ratificar promoções na Polícia Nacional e aprovar a indicação de embaixadores.

Com um programa que prioriza o desenvolvimento nacional e adota mais de uma vez o termo “patriotismo”, Benítez precisará ceder em algumas posições para obter a maioria necessária e aprovar projetos. “A tradição paraguaia mostra que uma parte do Partido Colorado passa à oposição no meio do mandato, por conta da dissidência interna. E, nesse ponto, será fundamental ver como fica a relação Cartes-Benítez. Uma coisa é certa: o mapa do começo do período parlamentar não é o mesmo do fim”, avalia Paz. 

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Com os resultados de ontem, Lugo volta a ter protagonismo político e se reelege senador depois de dez anos de haver chegado ao poder, como único presidente a derrotar os colorados desde a redemocratização. Sua destituição, em 2012, parecia ser o fim de sua carreira política, mas ele foi eleito senador, em 2013, e agora é reeleito fazendo parte de uma aliança que conta com o Partido Liberal, do presidenciável derrotado Efraín Alegre.

O primeiro embate entre as forças políticas paraguaias será na posse como senador do atual presidente, Horacio Cartes – também eleito no domingo. Lugo afirma que sua candidatura foi inconstitucional, porque a Constituição prevê que todo ex-presidente seja senador vitalício, sem direito a voto. 

Citando precedentes jurídicos, Cartes conseguiu a autorização da Corte Suprema de Justiça para se candidatar. Mas, tanto sua renúncia – para que possa assumir em junho como senador, já que o novo presidente só assume em agosto – quanto sua posse precisam ser aprovadas pelo Senado.

Benítez deve aproveitar o tema para entrar no debate sobre a corrupção e obter mais legitimidade popular com a proposta de reformar o Judiciário antes de tentar emplacar outros pontos de seu programa. “Benítez deve pedir a renúncia de todos os juízes da Suprema Corte. É uma questão de unanimidade nacional. Ninguém no Paraguai fala bem da Justiça, a impunidade é geral”, afirma Paz, que não descarta a possibilidade de uma Constituinte.

A posição conservadora do presidente eleito em temas como o casamento homossexual e a legalização do aborto pode até encontrar apoio na oposição, já que Efraín e parte dos liberais também se colocaram contra a aprovação dos dois temas ao longo da campanha. E, mais uma vez, o peso político de Lugo será colocado à prova.

Paz ressalta a preocupação com outro ponto do programa de Benítez, que pode ser trazido à tona pela oposição. “O que deveria ser o principal desafio dele não foi nem mostrado no programa de governo: a redução da pobreza. Cartes disse que a pobreza seria a obsessão de seu governo – e isso foi um fracasso. Mas o que preocupa é que ele pelo menos tentou e Benítez nem sequer toca no assunto.”

 

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