Conservadores criam o lado bom da pobreza

Um pobre nos EUA não pode ser comparado a um miserável na Somália, mas não se pode ignorar a piora das condições de vida de um milhão de americanos

Courtland Milloy, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2011 | 00h00

THE WASHINGTON POST

Enquanto a situação dos americanos de classe média continua declinando, seria o caso de se parar para pensar como é ser pobre. Um estudo divulgado este ano pela Heritage Foundation afirma que viver na pobreza não é tão ruim como a maioria imagina. Na realidade, pela maneira como o grupo conservador descreve a pobreza, poderíamos pensar que a pessoa pobre média está vivendo na fartura.

"De fato, as crianças pobres consomem mais carne do que as crianças de uma classe mais alta, e, em média, sua ingestão de proteína é 100% acima dos níveis recomendados", escrevem Robert Rector e Rachel Sheffield, autores do estudo: Air Conditioning, Cable TV, and Xbox: What is Poverty in the United States Today? "Aliás", prosseguem, "a maioria das crianças pobres está superalimentada, e quando crescer, será, em média, 2 centímetros e meio mais alta e 5 quilos mais gorda do que os soldados que invadiram as praias da Normandia na Segunda Guerra Mundial".

Quem é que sabia disso? Ótimo, mesmo porque tantas crianças pobres acabam lutando nas nossas guerras.

Pela avaliação dos pesquisadores, não deveríamos ficar excessivamente alarmados com o anúncio feito com base em dados censo de que a taxa de pobreza da nação subiu de 14,3%, em 2009, para 15,1%, em 2010. E talvez nem devêssemos nos aborrecer pelo fato de agora o número de americanos que vivem na pobreza chegar a 46,2 milhões, isto é, mais elevado do que em qualquer outra época nos últimos cinquenta anos.

Esses são apenas números, escreveram os autores, menosprezando os dados referentes à pobreza. O que o censo omite, segundo eles, é a contabilização dos benefícios que os pobres recebem do "estado do bem-estar". Pelo que o governo define como pobreza, uma família de quatro pessoas com uma renda familiar de cerca de US$ 22 mil (R$ 38 mil) ao ano, essas pessoas poderiam ser consideradas ricas em qualquer outro país do mundo.

Em 2005, por exemplo, "a família típica definida como pobre pelo governo tinha um carro e ar-condicionado", segundo os pesquisadores.

"Para seu entretenimento, a família tinha dois aparelhos de televisão em cores, TV por satélite ou a cabo, um aparelho de DVD e um VCR. Se havia crianças, principalmente meninos, na casa, a família tinha um aparelho de videogame, como um Xbox ou um Playstation. Na cozinha, havia uma geladeira, um forno e um fogão e um micro-ondas, além de outros eletrodomésticos como lava-roupas, secadora, ventiladores de teto, telefone sem fio e uma cafeteira. A casa da família pobre típica não tinha excesso de lotação e estava em boas condições. Na realidade, o americano pobre típico tinha mais espaço para viver do que o europeu médio".

Nada mau. Talvez alguns tenham perdido o emprego e a casa. A habitação oferecida pelos programas do governo tem um fogão, geladeira e um aparelho de ar condicionado. Basta levar a TV e a cafeteira na hora da mudança.

Quem precisa de dinheiro? Como a maioria dos pobres é composta por moradores de trailers, relativamente felizes, então, os pesquisadores afirmam que podemos simplesmente ignorar pessoas como Marian Wright Edelman, a presidente do Fundo de Defesa das Crianças, que divulgou um comunicado na terça-feira afirmando que os dados recentes sobre pobreza são "tenebrosos", "vergonhosos" e "uma desgraça nacional". Segundo o censo, em 2010, 16,4 milhões de pessoas viviam na pobreza, isto é, um aumento de um milhão em relação ao ano anterior. O mesmo se refere às afirmações da Catholic Charities USA. Os pesquisadores da Heritage disseram que esses grupos estão apenas tentando "promover novos gastos da previdência" com a desculpa de defenderem o bem-estar dos pobres.

Perguntei a Ron Haskins, um especialista em pobreza da Brookings Institution, o que ele achava das conclusões dos seus colegas mais conservadores.

"Acho que é importante falar do fato de que muitos pobres não são tão destituídos assim, de que não seriam considerados pobres na Somália", disse Haskins, que aliás é republicano. "Mas limitar-se a citar o número de televisores de uma pessoa implica em não levar em conta a crise causada pela perda repentina da renda ou o fato de a pobreza, numa sociedade, ser quase sempre considerada de maneira relativa.

Quando as crianças vão para a escola e veem que os colegas têm uma vida melhor; quando veem os carros que os estudantes ricos dirigem e o tipo de roupas que eles vestem, a diferença para os que não têm nada disso se torna mais marcante".

Entretanto, do ponto de vista dos pesquisadores da Heritage a sensação de privação não é o mesmo que pobreza, nem está tão difundida. "As famílias pobres certamente lutam para pagar as contas, mas, na maioria dos casos, lutam para pagar o aparelho de ar condicionado e a conta da TV a cabo além de colocar a comida na mesa".

Portanto, não se preocupe. Para fazer parte, ou voltar a fazer parte da classe média, aparentemente tudo o que você precisa fazer é cortar a assinatura à TV a cabo e desligar o termostato.

O estudo afirma que não há pobreza, mas tentem dizer isto aos pobres. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA

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