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Conservadores do Peru lutam por vaga no 2º turno contra extrema esquerda

Pedro Castillo, um sindicalista radical, mas extremamente reacionário em questões sociais, foi o mais votado na eleição de domingo; mesmo indiciada por corrupção, Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori, é a mais cotada

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2021 | 22h04

LIMA - Pedro Castillo, um sindicalista de extrema esquerda, foi o candidato mais votado no primeiro turno da eleição do Peru, realizada no domingo. Ele disputará o segundo turno, no dia 6 de junho, contra um rival conservador. A favorita é Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori. Ela tem uma vantagem mínima sobre Hernando de Soto e Rafael López Aliaga, também candidatos de direita. 

A votação foi extremamente fragmentada. Castillo terá pouco mais de 18% dos votos. Keiko, cerca de 13%. Soto e López, 12%. Apesar de ser identificado como esquerdista radical, Castillo é bastante conservador nos costumes. Ele é contra a legalização do aborto, do casamento gay e a inclusão da discussão sobre gênero nas escolas. “Temos de defender a família”, disse ele, durante a campanha. No domingo, ele foi votar montado em um cavalo na cidade de Cajamarca.

A ascensão surpreendente de um candidato de extrema esquerda reflete o abismo que existe desde os tempos coloniais entre Lima, capital peruana, e a população rural, tradicionalmente marginalizada e discriminada. A candidatura de Castillo, um professor escolar, foi alavancada pela população andina cansada das elites urbanas. 

Em Lima, ele é quase um desconhecido. Poucos se lembram de quando Castillo liderou uma das maiores greve de professores da história do Peru, há quatro anos, que suspendeu as aulas durante três meses. 

O esquerdista venceu em 16 dos 26 distritos eleitorais, incluindo em regiões rurais pobres, como Apurímac, Huancavelica e Ayacucho, mas também em Cajamarca, sua terra natal, em Madre de Dios, que faz fronteira com Brasil e Bolívia, e no sul, em Arequipa, Cuzco e Puno.

O economista Augusto Álvarez Rodrich disse que a vitória de Castillo é um sinal da insatisfação de grande parte da população. “Seria um grave erro deixar de lado (parte do eleitorado) só porque o mais esquerdista dos candidatos não deve vencer”, afirmou.

“Em razão de suas posições radicais, é improvável que Castillo ganhe a presidência, embora nas eleições peruanas nunca se saiba. Mas sua votação no primeiro turno expressa um profundo mal-estar dos peruanos com o mau funcionamento da democracia.”

Se as projeções se confirmarem, a alternativa ao esquerdista será Keiko, herdeira política de um ditador e indiciada por corrupção no desdobramento da Lava Jato no Peru. No mês passado, o procurador José Domingo Pérez apresentou uma denúncia formal contra a candidata pelos crimes de lavagem de dinheiro, organização criminosa, obstrução de Justiça e falso testemunho. O Ministério Público pede uma sentença total de 30 anos e 10 meses de prisão para a líder do partido Força Popular. 

Keiko foi a mais votada em 8 dos 26 distritos eleitorais do Peru, todos regiões urbanas, onde há maior densidade populacional. Nesta segunda-feira, após a divulgação dos primeiros resultados, ela já propôs uma união entre as forças de direita, que em bloco tiveram a maioria dos votos. 

O principal aceno foi feito a Hernando de Soto, com quem Keiko sugeriu uma aliança “para enfrentar o populismo e a esquerda radical”. “Não importa quem vá para o segundo turno, espero que possamos trabalhar juntos”, afirmou Keiko, que disse ter uma agenda em comum com o adversário conservador. 

Em resposta, Soto declarou que vai “meditar” a respeito da proposta, embora tenha dito que prefere aguardar a confirmação do resultado. “Eu tenho de meditar. Acabei de ver a declaração, as palavras doces e simpáticas de Keiko. Mas prefiro que os números da contagem avancem e só então veremos realmente quem deve fazer uma proposta a quem.” / EFE, AFP e REUTERS

 

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