Conservadores e liberais conquistam grande vitória na França

Os partidos conservadores e liberais daFrança obtiveram uma vitória ainda mais ampla do que a esperada,no primeiro turno das eleições legislativas realizado neste domingo.Este resultado permite projetar, no segundo turno do próximodomingo, uma maioria mais do que confortável para acentro-direita na Assembléia Nacional. Ela poderá conquistarentre 380 e 420 cadeiras, de um total de 577, enquanto aesquerda deverá obter entre 135 e 175 cadeiras, e a extremadireita, entre 0 e 2. Dessa forma, o partido do presidenteJacques Chirac, a União para a Maioria Presidencial (UMP),poderá governar com maioria absoluta mesmo sem o apoio da Uniãopara a Democracia Francesa (UDF), seu aliado mais próximo. O resultado eleitoral foi marcado por duas grandes surpresas:um forte recuo da votação da extrema direita de Jean-Marie LePen, a Frente Nacional, em relação à eleição anterior de 1997, eo recorde histórico de abstenção em todos os pleitoslegislativos da França nas suas cinco repúblicas - 36% -, o quecomprova que a ausência de motivação do eleitorado permanece.Isso revela também que o sobressalto ocorrido após o primeiroturno das eleições presidenciais, que levou mais de 1,5 milhãode pessoas às ruas no 1.º de maio contra a Frente Nacional, foide curta duração. No segundo turno, o eleitorado francês poderá confirmar esseresultado, oferecendo a Chirac a maioria parlamentar por elesolicitada, que permitirá ao atual primeiro-ministro, JeanPierre Raffarin, aplicar seu programa de governo. A direitaclássica, constituída pela UMP e a UDF, obteve 43,8% dos votoscontra 37% da esquerda (aliança entre socialistas, comunistas everdes). Os dois partidos de extrema direita, Frente Nacional eo Movimento Nacional Republicano, juntos, só obtiveram 12,7%,contra 15% do pleito legislativo anterior e 19% no primeiroturno da eleição presidencial. Os partidos de extrema esquerda, a Liga ComunistaRevolucionária e a Luta Operária, além de outros movimentosdessa tendência, só obtiveram 2,7% dos votos. Outro ensinamento da eleição de hoje foi a estabilidade do PSem relação a 1997, tendo obtido praticamente a mesma votação. Aderrota da esquerda se deve especialmente aos partidos daaliança de esquerda, sobretudo o Partido Comunista, que em 1997obteve 10% dos votos, elegendo 34 deputados, mas que, desta vez,com menos de 5 %, deverá eleger menos de 20 no segundo turno, oque o impedirá de constituir, no interior da Assembléia, umabancada parlamentar. Outro grande derrotado foi a lista Pólo Republicano, do ex-ministro Jean Pierre Chevenement, que abandonou o PS paracandidatar-se à presidência da república contra Lionel Jospin.Sua lista só obteve hoje 1,1% dos votos e Chevenement, numaposição desfavorável, pode nem se eleger domingo próximo na suacircunscrição de Belfort. Quanto aos verdes, o resultado foitambém decepcionante, apenas 4,2% dos votos, encontrando-se emsituação similar à dos comunistas. Dessa forma, o Partido Socialista, apesar da derrota daesquerda, mantém sua posição monopolista em relação às demaisforças dessa corrente política. Ao contrário do que ocorreu naseleições presidenciais, desta vez não houve dispersão de votos àesquerda como a que derrotou Jospin no primeiro turno daspresidenciais. O eleitorado socialista parece ter aprendido a lição e votouútil logo no primeiro turno das legislativas. Os francesesvoltaram a optar pela bipolarização de sua vida política, mesmose votaram pela alternância, isto é, pelos partidos liberais econservadores da direita clássica. O eleitorado rejeitou tambémuma nova coabitação, preferindo uma certa unidade política. De certa forma, esse voto reforça a V República francesa, quemuitos diziam ameaçada. A forte abstenção e o recuo da votaçãoda extrema direita atrapalharam também os planos de Le Pen -cuja filha Marine concorre a uma vaga - de prejudicar oscandidatos dos partidos da direita clássica, que manteve seuscandidatos com mais de 12,5% dos votos em cerca de 200 distritoseleitorais. O resultado favorável aos conservadores confirma também aaprovação do eleitorado de Raffarin, apesar de ele estar aapenas um mês no poder. Antes um senador pouco conhecido dogrande público, depois de 30 dias de governo Raffarin se tornouum dos políticos mais populares do país. Se o resultado for confirmado no próximo domingo, Chirac teráo apoio necessário para implementar seus grandes projetos, o quenão ocorreu nos últimos cinco anos, depois de uma dissoluçãopoliticamente catastrófica da Assembléia Nacional que o privoude maioria no Parlamento. Ele poderá reunir, dentro de umasemana, quase todos os poderes no país: a presidência darepública, maioria na Assembléia e no Senado, chefia do governoe até a presidência do Conselho Constitucional. É isso que o primeiro-secretário do PS, François Holande,denunciou na noite passada, advertindo a população para osriscos de um grande desequilíbrio político. A seu ver, aconcentração de poderes nas mãos de um único grupo políticopoderá ter graves conseqüências para o bom desenvolvimento dademocracia.

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