Jacob King/PA via AP
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Conservadores perdem cadeira que mantinham há 200 anos no Parlamento em revés para Boris Johnson

Derrota conservadora em North Shropshire é vista como sinal de alerta sobre a liderança de Johnson, valorizado por ser um ativo eleitoral em uma sigla famosa pela paciência curta com líderes impopulares

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2021 | 15h00

LONDRES - Em mais um golpe para o premiê britânico, Boris Johnson, o Partido Conservador perdeu, nesta sexta-feira, 17, uma cadeira que ocupava a quase 200 anos no Parlamento. A derrota eleitoral surge, em meio a série de turbulências internas e externas enfrentadas pelo governo Johnson, como mais um elemento de pressão a um líder que sustentou boa parte de sua ascensão por sua capacidade de atrair votos.

Os Liberais Democratas (LD) venceram as eleições no condado de North Shropshire, na fronteira com o País de Gales, em eleições convocadas após a renúncia do ex-parlamentar conservador Owen Paterson, um aliado de Boris Johnson, que admitiu ter quebrado regras de lobby. O distrito pró-Brexit havia enviado apenas políticos conservadores ao Parlamento desde sua formação, em 1832 - mas a tradição foi quebrada em um pleito que reverteu uma maioria de quase 23 mil votos, estabelecendo uma liderança de 6 mil votos.

"O povo de North Shropshire falou em nome do povo britânico. Eles disseram em alto e bom som: 'Boris Johnson, a festa acabou'", disse Helen Morgan, a recém-eleita membro do Parlamento, em seu discurso de vitória.

Após o resultado, Johnson assumiu a "responsabilidade pessoal" pela derrota em North Shropshire e disse entender as "frustrações" dos eleitores com sua liderança, após semanas de turbulência e queda nas avaliações das pesquisas. "Eu coloco minhas mãos para cima", disse o primeiro-ministro em um vídeo gravado nesta sexta-feira. "Eu falhei em não transmitir esta mensagem nas últimas semanas? Ela foi obscurecida por todas essas outras coisas? Sim."

A perda de uma única cadeira em um Parlamento com 650 assentos, dominado com folga pelo Partido Conservador, em pouco deve alterar o cotidiano do Legislativo. Porém, o entendimento de que a derrota demonstra a perda de popularidade de Johnson, identificada em pesquisas nas últimas semanas após uma série de polêmicas, pode configurar uma ameaça ao premiê. 

Nas últimas semanas, o gabinete de Johnson vem sendo alvo de denúncias sobre a realização de festas de Natal em Downing Street no ano passado, quando as regras aprovadas pelo próprio governo impediram famílias de se reunirem no mesmo período. "O senso de hipocrisia começa a se fixar [no governo]" , disse Daniel Wincott, especialista em política da Universidade de Cardiff. Johnson nega que qualquer regra tenha sido quebrada e, após as denúncias, ordenou um inquérito interno por seu secretário do gabinete.

Além da crise nacional provocada pelo caso das festas de Natal, o premiê tenta controlar o descontentamento crescente dentro do Partido Conservador. No início desta semana, quase 100 parlamentares conservadores - teoricamente base de apoio de Johnson - rebelaram-se e votaram contra as medidas restritivas de combate à covid-19 propostas pelo governo. 

Embora as medidas tenham sido aprovadas com a ajuda da oposição, foi um golpe para a autoridade de Johnson em seu partido. Pouco depois da votação, Geoffrey Clifton-Brown, tesoureiro do influente Comitê de Legisladores Conservadores, fundado em 1922, alertou na televisão que um desafio à liderança - procedimento aberto para remoção do líder - "tem que estar sobre a mesa".

Johnson pode enfrentar um desafio de liderança se 54 legisladores de seu próprio partido enviarem cartas de censura, o que desencadearia uma votação interna do partido sobre sua remoção. Porém, enquanto comentaristas discutem sobre possíveis cartas de censura, ninguém declarou publicamente ter enviado uma.

Ao contrário do Partido Trabalhista, que costuma ser mais paciente com a continuidade de líderes impopulares no governo, o Partido Conservador é conhecido por ser mais rápido do que a maioria na derrubada de líderes considerados incapazes de atrair eleitores. O caso mais famoso é o da remoção de Margaret Thatcher, em 1990, expulsa por seu próprio partido, o que causou surpresa aos britânicos.

Analistas apontam que a votação de North Shropshire foi observada como uma espécie de referendo sobre a capacidade (ou falta dela), de Johnson de vencer eleições. Entre os conservadores, essa lógica apareceu em manifestações públicas: O presidente do partido, Oliver Dowden, afirmou à emissora Sky News que o resultado era um sinal de que os eleitores estavam "fartos". "Eles nos deram um chute."

Paula Surridge, conferencista da Universidade de Bristol, explica que alguns membros do Partido Conservador "nunca foram fãs" de Johnson, mas estavam dispostos a "suportá-lo" porque ele era um ativo eleitoral, que conseguiu liderar os conservadores com uma impressionante maioria de 80 assentos no Parlamento em 2019, ganhando em tradicionais redutos do Partido Trabalhista no norte da Inglaterra.

No entanto, a última eleição mostraria que "o brilho estava se esvaindo junto com os eleitores" e "dúvidas estavam surgindo no Partido Conservador", disse Surridge./ W.POST

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