Conservadores são mais felizes

Uma razão: diferentemente dos liberais, eles não se preocupam com a desgraça alheia e ignoram a injustiça

Arthur C. Brooks, The New York Times,

10 de julho de 2012 | 03h04

Quem é mais feliz - o liberal ou o conservador? A resposta poderá parecer simples. Afinal, existe toda uma literatura acadêmica no campo das ciências sociais que mostra os conservadores como indivíduos autoritários, dogmáticos, incapazes de tolerar a ambiguidade, preocupados com as ameaças e os prejuízos, com baixa autoestima e pouco à vontade com pensamentos complexos.

Foi o candidato Barack Obama, em 2008, quem definiu notoriamente os eleitores das classes trabalhadoras como "ressentidos", porque "se agarram às armas ou à religião". Obviamente, os liberais deveriam ser mais felizes, certo? Errado. Estudiosos, tanto à direita quanto à esquerda, analisaram exaustivamente a questão e chegaram a um consenso: os conservadores são mais propensos à felicidade. E muitos dados o confirmam. Por exemplo, o Pew Research Center informou em 2006 que, entre os republicanos conservadores, 68% tinham maior probabilidade de se dizerem "muito felizes" com sua vida do que os democratas liberais. Esse quadro persistiu durante anos. A questão não é saber até que ponto isso é verdade, mas por que motivo.

Muitos conservadores preferem explicá-lo em razão dos seus diferentes estilos de vida, como casamento e credo religioso. Eles observam que a maioria dos conservadores é casada, enquanto a maioria dos liberais não é. As porcentagens são 53% e 33%, respectivamente, segundo dados da General Social Survey, de 2004, e a diferença praticamente não se deve ao fato de que os liberais costumam ser mais jovens do que os conservadores. Casamento e felicidade caminham juntos. Se duas pessoas pertencem à mesma faixa demográfica, mas uma é casada e a outra não, a pessoa casada terá 18 % mais probabilidades de afirmar que está mais feliz do que a pessoa não casada.

No que diz respeito à religião, a situação é em grande parte a mesma. Segundo a Social Capital Community Benchmark Survey, os conservadores que praticam uma religião são mais numerosos do que os liberais religiosos nos EUA, na proporção de quase quatro para um. E o que tem isso a ver com a felicidade? É evidente. Os participantes religiosos têm quase duas vezes mais probabilidades de afirmar que são muito felizes com sua vida do que os seculares (43% para 23%). As diferenças não dependem da educação, raça, sexo ou idade. O grau diferente de felicidade existe mesmo que se leve em conta a renda.

Se a religião e o casamento devem tornar as pessoas felizes é uma questão que diz respeito a cada um. Mas é preciso levar em conta o seguinte: 52% dos cidadãos politicamente conservadores, casados (com filhos), religiosos, são muito felizes - em comparação com apenas 14% dos solteiros, liberais, seculares sem filhos. Uma explicação do grau de felicidade menor dos liberais é que os conservadores não se preocupam com a desgraça dos outros. Se tivessem consciência da injustiça no mundo, não se sentiriam tão confortáveis.

"É possível que os liberais sejam menos felizes do que os conservadores porque estão menos preparados, do ponto de vista ideológico, a racionalizar o grau de desigualdade existente na sociedade", afirmam Jaime Napier e Jon Jost, psicólogos de Nova York, na revista Psychological Science.

Os conservadores de fato entendem o sistema da livre iniciativa de um ponto de vista mais positivo do que os liberais. Os liberais veem mais provavelmente as pessoas como vítimas das circunstância e da opressão - e duvidam que os indivíduos consigam ascender sem a ajuda do governo. Minha própria análise usando os dados da pesquisa de 2005 da Syracuse University mostra que cerca de 90% dos conservadores concordam que "embora as pessoas possam começar a vida com oportunidades diferentes, o trabalho duro e a perseverança em geral farão com que superem essas desvantagens". Entre os liberais - até mesmo de faixas de renda elevadas - 33% têm menos probabilidade de dizer isso.

Quer dizer que os conservadores são ignorantes e a ignorância é uma felicidade, certo? Não é bem assim, segundo um estudo dos psicólogos Barry Schlenker e John Chambers, da Universidade da Flórida, e o que afirma a psicóloga Bonnie Le num artigo no Journal of Research in Personality. Eles observam que os liberais definem a justiça e uma sociedade mais aprimorada em termos de uma melhor qualidade econômica.

Os liberais então condenam a felicidade dos conservadores porque os conservadores apresentam uma preocupação relativamente menor com um problema definido por seus congêneres políticos, conforme é possível constatar.

Imaginemos o oposto, ou seja, que os liberais são felizes. Os conservadores poderiam argumentar que isso ocorre somente porque os liberais não se preocupam com a monstruosa ameaça que o estado de bem-estar social representa para a liberdade econômica.

Divisões. Existe outra considerável diferença em termos de felicidade política que chamou menos a atenção dos estudiosos do que a contraposição de conservadores versus liberais: moderados versus extremistas. Os moderados do ponto de vista político devem ser mais felizes do que os extremistas, pelo menos é o que sempre me pareceu. Afinal, os extremistas fazem propaganda da sua desgraça com espalhafatosos letreiros no para-choque dos seus veículos, dizendo por exemplo: "Se você não está indignado é porque não está prestando atenção". Mas isso está errado. Os radicais são mais felizes do que os politicamente moderados. Corrigindo o conceito em termos de renda, educação, idade, raça, situação familiar e religião, os americanos mais felizes são aqueles que afirmam serem "extremamente conservadores" (48% muito felizes) ou "extremamente liberais" (35%). Todos os outros são menos felizes, sendo que a porcentagem mais baixa é a dos "moderados" de centro (26%).

O que explica o estranho padrão? Uma das possibilidades é que os extremistas têm uma visão precisa do mundo todo, dividido entre bons e maus. Eles têm a certeza de saber o que está errado, e a quem devem combater.

As implicações são impressionantes.

Os que participaram do movimento de protesto Ocupe Wall Street talvez tenham sido vistos como parte de uma penosa miscelânea. Na realidade, eles eram provavelmente mais felizes do que os moderados que zombavam deles das janelas dos prédios. E aparentemente ninguém é mais feliz do que os defensores do Tea Party, muitos dos quais se agarram às armas e à fé com grande tenacidade. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA  

 

*É PRESIDENTE DO AMERICAN ENTERPRISE INSTITUTE E AUTOR DE THE ROAD TO FREEDOM E GROSS NATIONAL HAPPINES

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