Conservadores se esforçam para gostar de Trump

Republicanos lutam para adaptar bandeiras tradicionais do partido às ideias populistas do presidente eleito

The Economist

09 Janeiro 2017 | 05h00

O político de verdade é aquele que, ao ver uma multidão enraivecida avançando em direção ao parlamento, exclama: “Legal, um desfile. Tenho de ir lá e servir de abre-alas para essa turma.” A menos de duas semanas da posse de Donald Trump na presidência dos EUA, um número considerável de conservadores americanos está adotando essa estratégia. Entre os eleitores de Trump, há muitos que execram os dois principais partidos do país. Sem dar bola para isso, líderes e intelectuais do partido argumentam agora que, apesar de alguns aspectos problemáticos, o “trumpismo” tem uma visão de mundo que pode ser, grosso modo, caracterizada como conservadora. Ademais, sustentam eles, a adesão ao presidente eleito cria um canal de comunicação com grandes parcelas da população americana que vinham se sentido abandonadas, e isso pode viabilizar a conquista, por anos a fio, de importantes maiorias eleitorais.

Diversos líderes republicanos que entraram em rota de colisão com Trump durante a campanha agora orientam seus correligionários a entender a vitória do magnata como uma lição de humildade. Na sessão que marcou o início da nova legislatura, o presidente reeleito da Câmara dos Deputados, Paul Ryan, disse aos colegas que as lideranças em Washington por muito tempo trataram com desdém as queixas pelo fechamento de fábricas no país.

Não vai ser fácil para entusiastas do livre mercado, como Ryan, conciliar suas ideias com os objetivos buscados pelo trumpismo. No mesmo dia em que os congressistas americanos retornaram ao trabalho, a Ford cancelou um plano de construir uma fábrica no México e, simultaneamente, anunciou a criação de 700 novos empregos na unidade que mantém em Michigan. A decisão foi tomada após Trump ter empreendido verdadeira campanha de intimidação, ameaçando até mesmo adotar tarifas de importação contra empresas americanas que transfiram sua produção para o exterior.

Adesão. Na opinião de figuras ilustres do conservadorismo, certa dose de nacionalismo econômico talvez seja o preço a pagar pela consolidação da coalizão social que levou Trump à Casa Branca. Esses conservadores veem o presidente eleito como um patriota pragmático, na linha de Abraham Lincoln ou Theodore Roosevelt. Por outro lado, não se mostram tão afoitos em identificar modelos mais recentes para o trumpismo, a começar pelos movimentos populistas-nacionalistas atualmente em alta na Europa.

O conservador e radialista Hugh Hewitt publicará neste mês um livro com o título de “The Fourth Way” (“A Quarta Via”), em que pretende demonstrar como o trumpismo pode ser capaz de incorporar elementos do programa de governo de Ronald Reagan, promovendo juízes conservadores, fortalecendo as Forças Armadas e estimulando a livre iniciativa. A essa lista, Hewitt acrescentaria uma “janela de repatriação” para os lucros que as empresas americanas mantêm no exterior e uma série de obras de infraestrutura. Para romper a paralisia decisória em torno da questão da imigração, Hewitt propõe que Trump apresente um projeto detalhado para a construção de uma cerca dupla ao longo da fronteira com o México. Fazendo essas coisas direito, Trump seria capaz de produzir um grande realinhamento de forças na política americana. Enfiando os pés pelas mãos, correria até o risco de sofrer um processo de impeachment, caso se veja envolvido em algum escândalo.

Newt Gingrich também tem um livro no forno. Deve ser publicado em março, com o título de “Understanding Trump” (“Compreendendo Trump”). O ex-presidente da Câmara dos Deputados e atual assessor do presidente eleito defende a tese de que Trump empreenderá a terceira tentativa, depois da vitória de Reagan em 1980, de enterrar de uma vez por todas a ideologia de intervenção estatal em vigor desde que Franklin Roosevelt introduziu o New Deal, nos anos 30. Para compatibilizar isso com as promessas de conteúdo claramente estatizante da campanha, Gingrich descreve o magnata como um empresário inovador, que fez uso das mídias sociais e de seu instinto publicitário para vencer uma eleição presidencial com recursos escassos.

Parte do entusiasmo dos conservadores com o trumpismo é reflexo de um desejo sincero de atender aos anseios do eleitorado. Outra parte é fruto do oportunismo e do temor de que Trump coloque seus fãs contra os republicanos que se atreverem a desafiá-lo. Apesar disso, se quiser implementar medidas que agradem seus eleitores, o presidente eleito também precisará de aliados no Congresso. Nascido de uma revolta populista, o trumpismo terá de se tornar um programa de governo. E isso é bem mais difícil do que servir de abre-alas num desfile. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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